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Análise: Aegis Defenders (Multi) combina tower defense e plataforma de forma agradável

Este indie introduz mecânicas únicas nos momentos de tower defense e apresenta um mundo carismático.


Sempre gostei de jogos do gênero tower defense, principalmente por causa da estratégia necessária para dar conta de inúmeras ondas de inimigos. Aegis Defenders me intrigou com sua proposta: combinar ação e plataforma 2D com tower defense. Além disso, o título apresenta quatro heróis distintos, sendo imprescindível alternar entre eles para sobreviver. O jogo consegue executar razoavelmente bem essa mescla de conceitos tão diferentes, por mais que existam tropeços pelo caminho. 

Dois estilos não tão bem combinados

A maioria dos estágios de Aegis Defenders seguem uma mesma estrutura: um trecho de plataforma seguido de uma sessão de tower defense. Em ambos os casos, é imprescindível trocar constantemente de personagem para superar os desafios e situações. Ao contrário do que promete, o título não mistura os gêneros, mas sim só os combina de maneira simples.

Nos momentos de exploração, controlamos um grupo de Ruinhunters (exploradores de ruínas) por desafios de plataforma. É tudo bem básico, ou seja, os heróis pulam, derrotam inimigos e procuram itens. Pelos estágios, estão espalhados pequenos puzzles que exigem domínio das habilidades dos personagens e precisamos alternar entre eles para conseguir resolver os enigmas. Em uma situação, por exemplo, precisamos usar a arma de Clu para ativar botões distantes. Já em outro puzzle, é necessário utilizar blocos construídos por Bart para conseguir alcançar locais altos. Há também trechos em que as habilidades dos personagens precisam ser utilizadas em conjunto.


As fases de plataforma de Aegis Defenders não me cativaram, pelo contrário. Os desafios encontrados nesses momentos são sem criatividade, contando com level design bem básico e linear. A movimentação também é um pouco travada e os pulos não oferecem a precisão exigida nesse tipo de jogo. Há uma tentativa de deixar as coisas mais interessantes com puzzles, porém a maioria deles é completamente esquecível: são tarefas como apertar botões, empurrar caixas e derrotar inimigos em uma ordem específica. Alguns trechos são divertidos por apresentarem mais complexidade, exigindo que os heróis trabalhem em conjunto para superar os desafios, porém eles são bem escassos pela aventura.

Normalmente, no final do estágio, aparece a sessão de tower defense. Nestes momentos, o objetivo é proteger um local de ondas de inimigos. Para isso, os heróis podem construir armadilhas, equipamentos e torres de armamento para destruir os oponentes. Antes de cada onda, precisamos explorar as imediações do local em busca de recursos para montar os equipamentos. Algo legal é a individualização: cada tipo de arma tem vantagens sobre certos oponentes e cada um dos heróis pode construir torres específicas. Sendo assim, é preciso pensar com cuidado a estratégia de acordo com o tipo de monstro que aparecerá na onda — o jogo indica isso com uma névoa colorida.


Um recurso muito interessante em Aegis Defenders é o multiplayer local cooperativo. Nele, a tela se divide para que dois jogadores se ajudem na superação dos desafios e batalhas. O recurso não é muito interessante nos momentos de plataforma devido à linearidade deles, o que força os personagens passarem pelos mesmos caminhos. Já nas batalhas de tower defense o modo cooperativo faz muita diferença: com dois jogadores, é muito mais fácil dar conta dos inimigos e montar estratégias elaboradas.

Testando a capacidade de adaptação

O maior diferencial de Aegis Defenders é sua abordagem mais ativa na hora dos ataques dos monstros. Ao contrário de muitos outros tower defense, os heróis participam ativamente dos combates atacando e construindo torres em tempo real. Algo legal é que os outros guerreiros também funcionam como torres, fazendo ações automáticas quando não estão sendo controlados: Bart realiza reparos nos equipamentos e impede o avanço de monstros; já Clu, Kaiim e Zula atacam com a arma equipada. O jogo abusa disso com várias mudanças bruscas durante os combates que forçam mudanças de estratégia constantemente — os momentos mais frenéticos e mais divertidos, para mim, aconteceram quando precisei trocar rapidamente de personagem para acabar com algum monstro poderoso que apareceu repentinamente e passou facilmente pelas minhas torres.


E a capacidade de mudar de estratégia no meio da batalha é explorada frequentemente, principalmente com o desenho variado das arenas. Em uma fase, por exemplo, plataformas mudam de posição no decorrer do combate, alterando o caminho utilizado pelos inimigos. Já em outra situação, certos monstros engolem as torres e conseguem quebrar partes do cenário. Em um terceiro momento, o objetivo é proteger um veículo em movimento. Na maior parte das vezes, a ação é bem intensa e é fácil acabar se desesperando no meio do caos. As mudanças nos cenários exigem também mudar constantemente de personagem e senti que essa mecânica de troca não oferece agilidade suficiente ao jogar sozinho, principalmente pelo fato de que os heróis controlados pelo computador não sejam muito espertos — dar conta de quatro personagens individuais e torres, em muitas ocasiões, é tarefa difícil.

Gostei bastante da variedade de situações nas batalhas, porém a dificuldade variável atrapalhou um pouco a experiência. Durante a aventura, muitas fases foram extremamente fáceis e outras, do nada, muito difíceis. Também foi comum aparecer inimigos poderosos sem aviso durante os combates, resultando em momentos frustrantes pela sensação de falta de controle. Faltou um melhor balanceamento em alguns pontos da jornada. O jogo conta com 18 estágios e somente isso — as mecânicas de tower defense poderiam muito bem figurar em um modo extra de desafios ou de hordas infinitas. Para os mais entusiastas, há um nível de dificuldade mais alto.

Mundo exótico

Por trás de batalhas e exploração, há um universo interessante. Entre as fases, descobrimos o que aconteceu com esse mundo: no passado, ele era dominado por poderosos seres imortais chamados Deathless, mas agora eles desapareceram e um humano oprime todos com a ajuda de uma arma especial. As cenas constroem o mundo aos poucos e também explica qual é o papel do grupo de heróis em tudo isso. Falta profundidade na trama, porém o grupo de heróis carismáticos compensam esse detalhe — é muito divertido ver Clu, Bart e os outros interagindo em diálogos leves.

A direção de arte evoca títulos da era 16 bits com pixel art agradável, por mais que as localidades visitadas não apresentem novidades de outras aventuras de fantasia. Os personagens têm formato compacto e detalhado, remetendo ainda mais a jogos do passado. Gostei, especialmente, das ilustrações dos personagens e das cenas de história — o traço lembra bastante os trabalhos do conhecido Studio Ghibli, com arte remetendo, inclusive, ao longa Nausicaa.


Uma parte melhor que a outra

Aegis Defenders tenta combinar dois estilos distintos e tem algum sucesso nessa tarefa. As partes de plataforma não cativam com seus desafios simples e linearidade, já os trechos de tower defense são sólidos e variados. A mecânica de troca de personagens traz possibilidades interessantes e possibilita várias opções de estratégia — isso fica ainda mais divertido se jogado cooperativamente com outra pessoa. Senti falta de mais modos que explorassem as ideias do jogo, assim como mais incentivos para revisitar os estágios. Aegis Defenders é competente, porém acredito que seria uma experiência mais memorável se o único foco fosse o aspecto tower defense.

Prós

  • Sistema de alternação de personagens permite montagem de várias estratégias distintas;
  • Modo cooperativo local funcional e divertido;
  • Boa variedade de situações nos trechos tower defense;
  • Visual agradável e ótimo design de personagens.

Contras

  • Sessões de plataforma desinteressantes;
  • Mecânica de trocar personagens não oferece agilidade suficiente ao jogar sozinho;
  • Dificuldade variável demais e com picos estranhos;
  • Pouco conteúdo adicional.
Aegis Defenders — PC/PS4/Switch — Nota: 7.5
Plataforma utilizada para análise: PC
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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