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Análise: Blossom Tales: The Sleeping King (Switch/PC) diferencia cópia e homenagem

Inspirado em The Legend of Zelda, game consegue criar sua própria identidade.



Centenas de jogos são lançados todos os meses e, entre tantas novidades, não é tarefa difícil encontrar títulos que reciclam mecânicas dos grandes clássicos. Autodenominando-se homenagens, esses games acabam sendo grandes cópias que oferecem praticamente zero de inovação para o mercado. Por outro lado, também existem os projetos que conseguem prestar o devido tributo ao passado, ao mesmo tempo em que são capazes de proporcionar uma experiência totalmente fantástica.

Esta segunda afirmação pode perfeitamente ser empregada para se referir à Blossom Tales: The Sleeping King, título desenvolvido pelo estúdio Castle Pixel e lançado para PC e Switch. Desde os primeiros momentos, o jogo deixa bastante clara sua inspiração em The Legend of Zelda: A Link to the Past, inclusive, fazendo algumas brincadeiras com essa relação logo na animação que introduz o enredo. Mesmo deixando escancarada a influencia, Blossom Tales consegue desenvolver sua própria identidade.

Um mundo de referências

Para os jogadores que conhecem Zelda, é impossível se aventurar por Blossom Tales sem pegar uma ou outra referência presente nos cenários, diálogos e trilha sonora. Porém, as menções não são forçadas ou capazes de atrapalhar aqueles que nunca estiveram em Hyrule. Um exemplo é a música que toca na vila dos druidas, que contém alguns arranjos da Zelda’s Lullaby. Ouvir a canção de ninar da princesa retirou um pequeno sorriso do meu rosto, já para quem nunca tocou nada na ocarina, essa será apenas a melodia tema de uma área do game.



Mesmo abusando de referências, Blossom Tales cria seu mundo próprio, que apesar de ser pequeno, oferece grande quantidade de atividades para serem realizadas. No total, o mapa pode ser separado em cinco grandes áreas, cada uma delas abriga um dos dungeons que precisam ser vasculhados a fim de concluir a missão principal do game. É totalmente possível finalizar a história explorando menos de 50% do mapa, no entanto, o jogo recompensa quem for curioso e estiver disposto a investir algumas horas em atividades paralelas.

Além dos corações que aumentam a vida da personagem principal e cristais que melhoram a resistência, as missões secundárias oferecem uma gama interessante de itens que ajudam bastante no momento de explorar as dungeons. Nenhum dos armamentos encontrados fora dos labirintos se mostra indispensável para o prosseguimento da jornada, porém é interessante tê-los no inventário para facilitar ao máximo as batalhas contra chefes e subchefes, por exemplo.

É preciso salvar o rei

Todo o enredo de Blossom Tales se desenvolve a partir da história que um avô está contando para suas netinhas. No conto, o rei foi vítima de um feitiço que o colocou para dormir eternamente. A magia, realizada pelo próprio irmão do monarca, só pode ser desfeita através de poção mágica fabricada a partir de elementos únicos. Assim, o exército do reino é enviado para buscar os ingredientes especiais e entre os cavaleiros está a protagonista do game, que acabou de entrar para o time dos combatentes e está em seu primeiro dia de trabalho.


Apesar de não ser uma trama totalmente envolvente, é interessante a maneira como o game a desenvolve. Por se tratar de uma história que está sendo contada por um avô, em diversos momentos as netas podem interferir no andamento da aventura. Por exemplo, um dos chefões pode ser uma rainha pirata ou uma ninja assassina, dependendo da escolha das garotinhas — que seguem aquilo que o jogador decidir. A possibilidade de mudar partes da trama acaba deixando o game mais imersivo, é uma pena que tais momentos acontecem com pouca frequência.

Um “Zelda” que não deixa de ser original

Blossom Tales recicla várias das mecânicas e equipamentos presentes na franquia Zelda. Arco e flecha, bumerangue e bombas são alguns dos itens que a heroína da história usará em sua missão. Além disso, os golpes de espada são bastante parecidos por aqueles realizados pelo protagonista de A Link to the Past. Entretanto, Blossom Tales cria sua própria identidade apostando em movimentos e habilidades únicas. A personagem principal é capaz de realizar combos de espada e escudo, importantes de serem dominados em combates corpo a corpo.

Outro golpe único da garota é seu ataque aéreo que se mostra extremamente mortal quando realizado da maneira adequada. Há ainda armamentos interessantes que diversificam bastante o inventário da heroína, com o principal destaque indo para as moedas que permitem controlar trovões e abalos sísmicos. Ter esses materiais na bolsa é uma boa ideia, principalmente, na segunda metade do game em que as hordas de inimigos presentes na tela se tornam mais numerosas e perigosas.


A variedade de criaturas que precisam ser derrotadas é um ponto positivo do game. Para cada área do mapa existem inimigos únicos que apresentam comportamento próprio. Por exemplo, se o pântano é infestado de fantasmas que são imunes quando atacados corpo a corpo, na floresta o cuidado maior deve ser com os golens de pedra que são derrotados somente por explosões de bombas. Conhecer as características dos inimigos é fundamental para criar a melhor estratégia de ataque.

No entanto, com o passar do tempo, é possível perceber que a espada acaba se tornando a arma mais dispensável da heroína. Em um game de aventura como Blossom Tales, a espada deveria ser a arma mais importante, ainda mais com o sistema de combos que o game oferece. Porém, o jogador acabará aprendendo que qualquer outro equipamento causa mais dano aos inimigos. Enquanto é necessário acertar arqueiros com três espadadas para derrubá-los, basta somente uma flecha certeira para que sejam derrotados.

Repetindo alguns erros

Um dos grandes problemas de Blossom Tales é a repetição. Os dungeons são repletos de puzzles que precisam ser resolvidos para abrir uma porta ou encontrar uma chave. No entanto, os mesmos quebra-cabeças acabam aparecendo com frequência acima do ideal, somente aumentando o seu nível de dificuldade. Ao invés de criar desafios únicos para cada labirinto, reciclar os antigos acaba sendo a alternativa mais aproveitada pelo game. A falta de originalidade faz com que algumas etapas sejam um tanto quanto cansativas.


Outra característica negativa que foi importada diretamente da série Zelda é a facilidade em derrotar os chefes e subchefes que ocupam cada uma das dungeons. Apesar de serem visualmente interessantes e ameaçadores, os boss apresentam padrões simples de serem compreendidos e enfrentados. Na maioria das vezes, basta usar o item que foi encontrado dentro do labirinto para acabar com o chefe que ocupa a sala final de cada calabouço.

Um cenário deslumbrante

A direção artística de Blossom Tales optou por misturar cenários de 16-bits com personagens que seguem o padrão 8-bits. A combinação funciona e o jogo é visualmente muito atraente. O mundo é bastante vivo e cheio de detalhes, ver os pássaros e borboletas voando na região do castelo tornam a paisagem ainda mais encantadora. O capricho nos pequenos elementos é deslumbrante e criam um reino que parece estar vivo. Porém, os personagens não foram tão bem trabalhados como os cenários, sendo que muitos deles têm sprites repetidos.

Os únicos moradores do reino que apresentam características físicas próprias são aqueles que, de alguma maneira, influenciam na jornada da protagonista. Já os demais são um copiar e colar descarado, como os próprios guardas que protegem o castelo, todos com os mesmos rostos e armaduras vermelhas. Com isso, a grande parte dos personagens secundários acaba sendo totalmente genérica e só estão presentes no game para mostrar que o belo mundo não está vazio.


Uma aventura digna de Link

A grande lição que o game consegue transmitir é que é totalmente possível homenagear um clássico sem a necessidade de copiá-lo integralmente. Apenas atualizando suas mecânicas, apostando em uma maneira diferente de contar a história e melhorando o visual é possível criar um título que oferece experiência sólida. Mesmo quem nunca teve contato com Zelda será capaz de se divertir com o jogo, porém aqueles que passaram horas em Hyrule estão mais propensos a se apaixonarem também por Blossom Tales: The Sleeping King.

Prós

  • Mecânicas e equipamentos únicos criam identidade própria para o game;
  • Cenários bastante vivos e detalhados;
  • Ótimas referências à Zelda.

Contras

  • Puzzles se repetem com certa frequência;
  • Chefes fáceis de serem derrotados;
  • Espada acaba sendo pouco aproveitada.
Blossom Tales: The Sleeping King — PC/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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