Jogamos

Análise: InnerSpace (Multi) tem ótima arte, mas peca na exploração

O primeiro game da PolyKnight Games tem visuais agradáveis e ótima trilha sonora, mas peca na construção de seu espaço.

Entre vários tipos de experiência com jogos que podemos ter, existem aquelas para se vencer, as para se envolver com a história, aquelas que são para se distrair e se entreter despretensiosamente e outras que são mais contemplativos, onde a jornada e a experienciação propriamente dita valem mais que o objetivo final ou enredo em si. InnerSpace (Multi), sem dúvidas, bebe bastante dessa última fonte onde temos outras pérolas como Journey (PS3/PS4) e Shadow of the Collossus (PS2/PS3) para citar como exemplos.


O game apresenta uma visão artística muito agradável, trilha sonora exuberante e uma ideia revolucionária de construção de mundos e puzzles. Entretanto, é preciso levar em conta também que a execução principalmente desta última característica não foi feita da melhor forma possível, fazendo com que as limitações do título sejam sentidas já nas primeiras horas de jogatina.


Um “inspaço” repleto de lugares para explorar

A lógica por trás do enredo de InnerSpace gira em torno de um universo que é gravitacionalmente oposto ao nosso. Ao invés dos mundos serem esferas onde os seres habitam suas superfícies, aqui os mundos são como bolhas onde as criaturas residem em seu interior. Dessa forma, elementos como gravidade, luz e outras coisas funcionam na lógica da bolha de “fora para dentro”. Nesse complexo sistema de mundos é que nossa aventura exploratória ocorre.

Aqui, nós assumimos o papel de um antigo drone reativado por um arqueólogo que precisa de ajuda para explorar esse universo singular. Este mundo, além das características próprias citadas, fora habitado há eras por uma civilização avançada chamada de Os Antigos. Tal civilização tinha domínio sob a energia que move tudo nesse universo, O Vento. E é esse Vento que utilizamos quase que por todo o tempo tanto para resolver puzzles quanto vencer criaturas únicas com as quais nos deparamos em cada localidade.



O enredo é um pouco vago, mas dá a entender que é propositalmente assim porque assumimos o papel de seres que realmente não sabem nada sobre o mundo o qual exploram. Com isso, a contemplação de cada ambiente, a exploração motivada e a interação com as criaturas quase divinas que encontramos pelo caminho se tornam uma experiência interessante e até cativante durante as primeiras horas de jogo. Como o enredo não é exatamente o foco aqui, o que temos já é o suficiente para guiar toda a aventura.

Ambientes repletos de beleza e desorientação

Um dos principais desafios de se fazer um ambiente complexo inserido em uma bolha é justamente fazer com que ele funcione de modo orgânico para nós, seres que não estamos habituados a espaços assim. No quesito artístico, InnerSpace dá um show com construções interessantíssimas e ambientações que misturam rochas, gelo, água, tentáculos e vários outros elementos de forma muito sólida e bela, fazendo um ótimo papel para agregar na contemplação da experiência de jogo.



Entretanto, quando nos focamos em explorar o ambiente, alguns problemas são facilmente sentidos. Primeiramente, os controles do drone chamado Cartógrafo são problemáticos demais no teclado do computador, sendo totalmente desaconselhado utilizá-lo para o jogo. Entretanto, quando utilizamos controles com dois bastões analógicos como o do XBO ou do PS4, as coisas melhoram um pouco, fazendo com que a experiência de controlar o drone seja minimamente adaptável a nós jogadores.

Vencido o primeiro momento de adaptação complicada à jogabilidade, temos outro desafio pela frente: o level design de cada mundo. Sem muitos pontos de interesse para guiar a exploração ou então elementos convidativos em qualquer ponto para que esse reconhecimento de territórios se justifique em qualquer direção, a experiência começa a se tornar frustrante, principalmente em locais menores por conta do limite que temos do controle da velocidade do Cartógrafo, impossibilitando que o jogador simplesmente pare o drone quando quiser. 



Somando-se a isso, algumas características atribuídas aos espaços são confusas e desconexas, fazendo com que o senso de direção e de localização sejam profundamente incompreensíveis e frustrantes. Um simples esbarrão em uma rocha pode desorientá-lo de tal forma que você perde mais alguns minutinhos encontrando novamente o ponto que queria alcançar. Isso tudo faz com que a contemplação do jogo seja substituída por insatisfação e estresse, o que não é nada bom.

Mecânicas de evolução bem estruturadas

Outra das bases da exploração do jogo já acerta bem mais em suas características: a evolução do drone Cartógrafo. InnerSpace, em seus objetivos, é principalmente um jogo de coleta: exploramos os mundos, cidades e espaços-bolha do jogo para coletar relíquias e/ou fragmentos delas, que por sua vez podem contar fragmentos da história da civilização dos Antigos ou então desbloquear determinadas habilidades para nosso drone.



Além disso, temos as feras do Vento que estão adormecidas por todos os mundos do “inspaço”. Essas feras são belíssimas e criativas, com movimentos sempre fluidos e graciosos. Vencer os desafios propostos por cada uma dessas bestas garante outras melhorias para o drone, sem as quais seria impossível prosseguir com a exploração. É uma mecânica que lembra vagamente o embate contra os bosses de Shadow of the Collossus, sem nenhum desafio menor proporcionado por criaturas coadjuvantes durante o jogo.

Essas melhorias, além de mudar completamente o design do drone, proporcionam habilidades realmente relevantes para a aventura, como a capacidade de nadar, quebrar paredes rachadas entre outras. Isso dá acesso a relíquias antes impossíveis de serem alcançadas e encoraja o jogador a retornar a mundos já explorados anteriormente para conferir se essa ou aquela nova habilidade pode ser útil em algum momento.


Enigmas instintivos que abusam da percepção

Não existe exatamente um padrão em InnerSpace seguido por todos os enigmas do jogo. Cada mundo visitado pelo Cartógrafo possui enigmas de formatos diferenciados, o que torna os puzzles bem interessantes de serem explorados, quase como um teste de inteligência interativo. Esses desafios são muito sutis e exploram bastante os sentidos como visão, audição e tato (baseado nas vibrações do controle, mais um motivo para desencorajar o uso de teclados para o jogo).

Desde alavancas ao redor de uma determinada construção que precisam ser dobradas para que algo aconteça, passando por cordas que precisam ser cortadas para gerar um efeito dominó até pássaros de energia que simplesmente precisam ser seguidos por um determinado tempo para que algo aconteça. Tudo que existe no jogo para ser resolvido é colocado de tal forma para que o jogador não perca tempo tentando entender para onde precisa ir, ele apenas vai para algum lugar e as coisas começam a acontecer.



Esses enigmas profundamente instintivos são ótimos e ao longo da jogatina se tornam a melhor característica do jogo, entretanto, o problema com a construção do espaço citado anteriormente acaba por prejudicar essa experiência de diversas formas, pois quando você começa a reconhecer determinados padrões e passa a fazer algumas escolhas para que os puzzles sejam resolvidos, acaba se perdendo; ou então a falta de espaço ou de controle do drone o prejudica de forma frustrante. 

Um show de luz e som, mas sem a devida execução

InnerSpace (Multi) acerta em vários momentos, isso é inegável. Os aspectos estéticos do jogo, ligados a suas cores, texturas e iluminação, são excelentes. Combinado a isso de forma quase simbiótica, temos os efeitos sonoros bastante detalhados e sutis, ao ponto das partes que imitam penas em uma das formas do drone soltarem sons de piano quando fazemos uma curva no ar. Esse tipo de detalhe é gracioso e agrega ainda mais à experienciação do jogo. Mas essa ótima experimentação, infelizmente, é limitada por outros problemas do título.



A estruturação dos mundos em formato de bolha, um dos pilares inovadores do título, não foi executada da melhor forma possível, bem como o uso de seus controles que, mesmo fluidos, são complicados e desorganizados. O jogo não é horrível, na verdade pode entreter bastante. Porém, ele tem defeitos de execução o suficientes para não ser a pérola que ele poderia. Talvez, com um mercado aberto para inovações, a equipe da PolyKnight Games possa continuar inovando de formas mais robustas futuramente.

Prós

  • Gráficos com beleza artística;
  • Efeitos sonoros sutis complementam o visual do jogo;
  • Mecânica de evolução do drone bem estruturada;
  • Enredo básico que serve bem à aventura;
  • Puzzles instintivos muito bem construídos;
  • Bom uso da percepção do jogador através de som, imagem e vibração;
  • Ideia promissora para a construção do ambiente.

Contras

  • Construção do ambiente de jogo não muito bem executada;
  • Mapa proporciona desorientação;
  • Controles muito mal adaptados para o teclado do PC;
  • Controles problemáticos atrapalham senso de exploração.
InnerSpace — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: João Pedro Boaventura
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook