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Análise: Light Apprentice (PC) une quadrinhos e games em uma história emocionante

Jogo indie dinamarquês inaugura um novo gênero.

A arte gráfica sequencial das histórias em quadrinhos é usada como recurso de narrativa em alguns games, como o jogo de tiro em terceira pessoa Max Payne (Multi), da Remedy. Contudo construir um game completo utilizando a mecânica e estética das revistas de ação é algo inovador. O jogo indie dinamarquês Light Apprentice (PC), da Amazu Media, traz a mistura bem feita de quadrinhos e jogos eletrônicos.

Além da superfície

Light Apprentice conta a história do aprendiz da luz Nate, cristalizado por 300 anos, ele é liberto pela feiticeira exploradora Tlob. Juntos, eles procuram pelo restante dos aprendizes mágicos, seres escolhidos para proteger o mundo das trevas. Para isso, eles devem enfrentar a força bélica do Império Yhrosian e defender o mundo de Ethenia da corrupção.


A história de Light Apprentice é um dos pontos fortes do jogo. O game vai muito além do tradicional bem versus mal, mas apresenta uma trama com diversos desdobramentos e consequências. Não apenas para os personagens principais, como também às figuras secundárias e terciárias. O jogo trabalha com temas como corrupção, escravidão, totalitarismo e preconceito.

Porém, nem tudo é drama e tristeza. Apesar do ambiente inóspito e quase pós-apocalíptico por conta de uma guerra de 300 anos que esgotou os recursos da Terra, Light Apprentice possui uma veia de humor muito bem distribuída e que serve para equilibrar o drama com momentos engraçados. A começar pelo personagem principal, Nate, que é ingênuo e otimista o tempo todo; ao contrário de sua companheira racional que tenta o colocar na linha, a exploradora Tlob. Em adição, também temos Mya, aprendiz do fogo que se orgulha de sua beleza e é super fã do cantor Letrov Lebard; e K-Ken, um humano amaldiçoado com uma metade de um monstro, o personagem mais sério do grupo de heróis.


No comando de Nate e sua party, somos introduzidos a um mundo rico em magia e criaturas distintas, como orcs, animais falantes, humanos, entre outros. Ao viajarmos pelas fases, temos contato com diferentes regiões e culturas, os quais enfrentam seus próprios desafios frente a resistência ao Império Yhrosian. Cabendo ao jogador se envolver ou não nas batalhas pessoais de determinados grupos ou pessoas.

Fases e capítulos

Classificado como comic book game, Light Apprentice possui um bom fundamento para este híbrido de mídias. O fundador da desenvolvedora indie, o artista brasileiro Igor Noronha, é um ilustrador de história em quadrinhos. A partir de sua bagagem cultural e o conhecimento como artista, Noronha uniu os quadrinhos ao videogame resultando em novo gênero de jogo eletrônico.


A arte de Light Apprentice merece destaque especial. O jogo é uma história em quadrinhos com elementos de RPG e com gráficos em estilo de desenhos à mão. Razão pela qual a lineart dos personagens é mais evidente e as cores e brushes usados, no cenário e criaturas, imitam o estilo de pintura e desenho tradicional, realçando luz e sombra que lembram um desenho feito com giz de cera ou lápis de cor.

Tal qual nos quadrinhos, Light Apprentice se apresenta como o Volume 1 das aventuras de Nate. O jogo possui quatro capítulos em que o jogador experimenta uma jogabilidade que mescla a arte sequencial dos quadrinhos com batalhas em turno e sistema de progressão de um RPG, como atributos de velocidade, inteligência, força, possibilidade de aprender novas técnicas e usar diferentes poções.


A jogabilidade segue uma narrativa verticalizada no qual o jogador acompanha a história de Light Apprentice no estilo de uma história em quadrinhos. Essa linearidade é quebrada nos momentos de escolha, combates ou no modo aventura, no qual o jogador tem liberdade para guiar o personagem pelo cenário e explorar em busca de itens como vida, armadura e armas mais fortes.

Matar ou perdoar?

A mecânica que mais me chamou a atenção em Light Apprentice foi a opção de em todo combate poder optar entre matar seus inimigos ou perdoá-los. Os personagens da party são personalizáveis, bem como passíveis de serem evoluídos durante a campanha, assim, a cada escolha entre matar ou perdoar, Nate progride em um estilo específico: como atacante ou pacifista.


Ao optar entre agir sem misericórdia ou perdoar de bom coração, o jogo agrega um valor adicional a história. Afinal, a maioria dos games vai pelo caminho óbvio de matar os vilões, mas em Light Apprentice, o jogador pode escolher entre tirar uma vida ou poupá-la. Isso cria um posicionamento diferente do protagonista, ele não mata para não perpetuar a tradição de vingança e também por não desejar ser inflexível como seus inimigos. Uma excelente mensagem a ser pensada.

A mecânica de matar ou perdoar não gera resultados apenas em batalhas, mas também está ligada ao rumo da história do personagem, bem como aos momentos de escolha de caminhos a serem seguidos. Quando o jogador opta entre matar ou perdoar um inimigo, outros personagens reagirão a sua decisão, positiva ou negativamente. Da mesma forma são os pontos de escolha.


Durante a campanha, há vários momentos de escolha que resultarão na aquisição de diferentes poderes de acordo com a abordagem escolhida pelo jogador. Se o gamer fizer um gameplay no modo pacifista obterá um resultado diferente daqueles que jogarem no modo atacante. Essa diferença pode resultar em aliados ou inimigos em fases futuras do jogo, por isso é importante pensar antes de agir.

Outro fator que não pode deixar de ser citado é a trilha sonora, o comic book game de fantasia possui uma trilha sonora belíssima com músicas medievais que combinam com os ambientes e momentos do jogo, sejam cenas de calmaria ou de ação e drama.


Comic book game, um novo gênero

Apesar de todas as qualidades, Light Apprentice sofre de alguns problemas técnicos que prejudicam a jogabilidade. Por exemplo, no quarto capítulo no modo aventura, toda vez que o jogador constrói uma barricada, o game sofre um bug no qual o cursor desaparece e você precisa sair do jogo e reiniciar o ponto de salvamento para dar continuidade as suas tarefas.

Algo recorrente também são telas ou páginas, da história em quadrinhos, totalmente pretas e sem som, bem como alguns travamentos durante as batalhas que resultam no menu de ações ficar sobreposto sobre a história em quadrinhos. O bug só desaparece quando o jogador entra no modo batalha novamente ou prossegue para uma nova fase que necessite de um carregamento maior, do contrário, há batalhas jogadas inteiras com a tela de opções travada sobre sua party.


Light Apprentice inova em seu gênero e mecânica de comic book game, bem como nos presenteia com uma história envolvente, divertida e reflexiva. O jogo é apenas o Volume 1 de um arco que promete se estender até o Volume 3. Posso dizer com toda certeza que estou ansiosa pela continuação da jornada do aprendiz da luz e seus amigos.

Prós

  • Arte no estilo desenho tradicional;
  • Escolha entre matar ou perdoar inimigos;
  • Gênero de comic book game muito bem acertado;
  • História envolvente;
  • Opção de caminhos a serem seguidos;
  • Personagens carismáticos e cativantes;
  • Sistema de progressão com elementos de RPG;
  • Trilha sonora bela;

Contras

  • Bug de desaparecimento do cursor, forçando a saída do game;
  • Telas pretas e sem som em algumas fases;
  • Travamentos periódicos.
Light Apprentice — PC/Android/iOS — Nota: 9.0
Versão usada para análise: PC
Revisão: Diogo Mendes
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

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