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Análise: Star Ocean: The Last Hope Remastered (PC/PS4) é um ótimo retorno à aventura espacial

Lançado na geração passada, o JRPG da Square Enix ganha um ótimo visual, mas ainda mantém os mesmos problemas de antes.

Os JRPG se tornaram um gênero muito popular fora de sua terra natal, isso não é novidade para ninguém. Que a Square Enix faz ótimos títulos deste gênero também não surpreende. Dentro das diversas franquias que a empresa publica, temos Star Ocean, uma que não é tão conhecida para o público que não segue a fio os lançamentos do gênero, mas que está aí desde 1996, quando seu primeiro capítulo foi lançado para o SNES. Com cinco jogos lançados até então, o último capítulo da série foi Star Ocean: Integrity and Faithlessness, lançado para PS3 e PS4 em 2016.




Agora, oito anos após seu lançamento para PS3 e X360, o quarto capítulo da série, The Last Hope ganha uma versão remasterizada que suporta inclusive a resolução 4K. O jogo ainda é o mesmo de antes, mas com uma roupagem bem mais agradável e texturas melhoradas. Mas se a questão que fica é se ainda vale a pena retornar ao universo de Star Ocean oito anos depois, é possível termos uma resposta bastante favorável, mesmo com alguns probleminhas que poderiam facilmente serem superados.


Lá e de volta outra vez

Desenvolvido em parceria entre a Tri-Ace e a Square Enix, The Last Hope é o quarto capítulo da saga. O enredo do jogo é bastante extenso e com uma boa variedade de personagens jogáveis, mesmo que siga alguns clichês do gênero como o heróico protagonista impulsivo e a extensa quantidade de garotas frágeis e submissas ao líder do grupo. Relevando isso, principalmente por se tratar de uma remasterização, temos uma excelente história de fantasia misturada com ficção científica, que agrada bastante e prende o jogador ao longo das suas quase 50 horas.

A história de The Last Hope acompanha a jornada de Edge como capitão de uma nave em busca da resolução de diversos mistérios acerca de um acidente que acarretou na separação do seu grupo de expedição em várias naves diferentes. Ao entrar em contato com diversas espécies alienígenas distintas, num estilo que até lembra as vezes o estilo narrativo de formação de grupo do anime One Piece, Edge vai aos poucos formando a sua grande tripulação, viajando de planeta em planeta mesclando histórias singulares com um grande enredo bem costurado entre a maioria delas.


Versão nova, mas somente nos visuais

Star Ocean: The Last Hope Remastered realmente consegue atualizar muito bem os gráficos de um jogo lançado na segunda metade da geração passada. A riqueza realmente está nos detalhes, na resolução, na iluminação, tudo está melhorado e melhor polido nesta versão. Assim como as dublagens e efeitos sonoros, trazidos da versão internacional do game também são de primeira. Entretanto, alguns elementos que em 2009 poderíam ser vistos como detalhes ainda, incomodam um pouco agora em 2017.

O principal problema é, sem dúvidas, as paredes invisíveis ao longo de toda a aventura. Com um visual muitas vezes bem rico, lembrando outros excelentes JRPG como a franquia Xenoblade Chronicles, essa versão nova de Star Ocean nem sequer tentou esconder um pouco mais suas paredes invisíveis. Isso faz com que a exploração dos belíssimos biomas criadas para representar os planetas do jogo não fiquem tão imersivos assim. E o visual em 4K que surpreende a primeira vista é levemente diminuído por conta das mesmas paredes invisíveis em locais que não necessariamente precisavam delas.



Por fim, outro ponto problemático nessa atualização é a oscilação entre ambientes altamente ricos em detalhes e ambientes simplistas demais, com texturas únicas e nada para se ver de interessante. Não são poucas as vezes que o jogador sai de uma floresta riquíssima em detalhes e entra em uma caverna que basicamente é uma sala com textura de pedra. Essa sensação é pior ainda quando se entra em bases assim, pois estas, num jogo de ficção científica, deveriam ser ainda mais detalhadas. 

Além da oscilação visual, a oscilação sonora também é sentida em alguns momentos. Em um determinado estágio do jogo, quando finalmente conseguimos uma espécie de montaria, sem a qual a aventura não poderia prosseguir, a ideia seria uma jornada aventuresca, afinal, estamos montando uma criatura inusitada num planeta alienígena indo ao resgate de um companheiro de batalha. Nesse momento, a trilha sonora é absolutamente inexistente, o que chega a afetar a experiência de jogo uma vez ou outra.

As melhores mecânicas de batalha

Se fosse para escolher apenas um elemento que nos fizesse revisitar  Star Ocean: The Last Hope, este seria seu sistema de batalha. Encontrando a interseção ideal entre jogos de batalha baseada em turnos e games de ação, o último capítulo de Star Ocean apresenta uma excelente mecânica de combate de até quatro personagens contra diversos inimigos. O jogador é livre para trocar entre os personagens a hora que quiser, assim como também pausar o combate para invocar magias. É possível também manter os demais personagens atacando automaticamente ou manualmente, o que torna as lutas ainda mais dinâmicas. Some a isso a capacidade de desviar de combates, mecânica adquirida dos games mais voltados para ação e temos um sistema de combate bem robusto e interessante.

Mas além disso, a AI dos personagens que lutam no modo automático é bem interessante, com um senso estratégico aceitável e uso adequado das habilidades. É possível inclusive que jogadores de primeira viagem aprendam a administrar algumas habilidades dos personagens apenas observando como as AI as utilizam, o que não é algo muito comum de se ver em jogos do gênero. Para completar, os embates contra os bosses do jogo são ainda mais divertidos, onde a estratégia realmente faz diferença e o uso coordenado das diversas especialidades do time são cruciais para o sucesso do embate.


Dos ótimos desafios até a repetição

Como todo JRPG tradicional, Star Ocean possui uma jogatina bastante focada no grind (mecânica de jogo onde precisamos enfrentar diversos inimigos repetitivamente para alcançar níveis mais altos e, assim, superar os desafios do momento). Entretanto, ele escapa até muito bem dos clichês do sistema, principalmente com uma ótima variedade de inimigos, os quais diminuem drasticamente a sensação de repetição ao longo da aventura. Somente após cerca de 10 horas de jogatina que é possível observar os primeiros inimigos de coloração diferente, mesmo assim, são bem poucos e com justificativa dentro da história.

A curva de desafio é muito bem estabelecida na jogatina, com inimigos tendo habilidades e até inteligência diversificada ao longo da aventura. Com o passar do tempo, as explorações e combates vão aos poucos se tornando mais e mais desafiadores, mas sempre de uma forma tão orgânica que o jogador só nota essa curva ao olhar para trás e lembrar que há algumas horas estava enfrentando insetos num planeta perdido e agora está combatendo uma raça alienígena altamente avançada com dragões e robôs de guerra.


Star Ocean em 2017

Star Ocean é uma franquia relativamente antiga, sendo pouco conhecida e tendo poucos jogos lançados ao longo dos anos. Mas para quem conhece seus títulos, sabe que é uma ótima franquia que poderia receber bem mais atenção de suas desenvolvedoras.  The Last Hope foi lançado há menos de 10 anos e talvez não fosse o melhor título da franquia para receber uma remasterização agora, mas precisamos admitir que ele seria o mais facilmente adaptado para as novas tecnologias, outros títulos precisariam ser praticamente refeitos, como foi o caso da remasterização de Crash para o PS4.

Alguns elementos de Star Ocean são muito bem vindos em 2017, como as mecânicas de combate repletas de ação, o extenso tempo de campanha, com uma história repleta de reviravoltas e personagens carismáticos e outros aspectos técnicos muito bons, como os visuais e as telas de carregamento extremamente rápidas. Entretanto, outros incomodam principalmente por terem se passado oito anos desde o seu lançamento. Paredes invisíveis não são mais tão facilmente ignoradas, assim como personagens femininos seguindo estereótipos tão problemáticos como fragilidade e sensualidade. Mas entre o saudosismo e aquilo que não precisava retornar, Star Ocean consegue divertir e é uma ótima pedida para os fãs de JRPG, trazendo uma experiência completa e de qualidade, mesmo que não tão atualizada assim.


Prós

  • Gráficos remasterizados muito bonitos;
  • Batalhas mesclam ação e estratégia de forma eficaz;
  • Enredo interessante com boa variedade de personagens;
  • Curva de desafio bem estabelecida;
  • Alguns cenários muito bem estruturados;
  • Boa variedade de criaturas diminui sensação de repetição;
  • Carregamentos muito rápidos;
  • História longa e bem complexa.

Contras

  • Ambientação oscila com cenários com pouquíssimos detalhes;
  • Trilha sonora inexistente em alguns momentos causa monotonia;
  • Tende a ser repetitivo em alguns momentos;
  • Paredes invisíveis incomodam bastante;
  • Esteriótipos femininos problemáticos para um jogo atual.
Star Ocean: The Last Hope Remastered — PC / PS4 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS4
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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