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Análise: A Nova Califórnia (PC) é uma breve e diferente forma de se contar história

O jogo brasileiro desenvolvido pela Game e Arte é uma experiência curta, mas adapta com criatividade um conto literário para os games.

Que jogos contam histórias, isso não é novidade para ninguém que já jogou um jogo dos anos 1990 para frente (ou até antes). Entretanto, muitos educadores e desenvolvedores pensam em formas de tornar o ensino mais interessante para as novas gerações através de jogos e educação digital. Mesmo que não seja sua intenção necessariamente, A Nova Califórnia (PC) é um jogo independente brasileiro com uma pegada educacional muito forte. Adaptando o conto de mesmo nome escrito por Lima Barreto no século passado, o game tem uma jogabilidade bem diferente do que comumente aparece por aí, além de uma simplicidade que atrai bastante.

Enredo digno da literatura brasileira

Basicamente o enredo de A Nova Califórnia já existe desde 1910. Originalmente este é um conto de Lima Barreto, um famoso escritor da literatura brasileira. A história acompanha vários personagens habitantes da cidade que dá o nome à trama quando a chegada de um novo morador cria um desconforto geral com suas práticas estranhas e origem desconhecida. Dentro deste núcleo, temos o Boticário da cidade, que ouve uma ideia mirabolante e questionável deste novo morador de como fazer dinheiro fácil. A trama toda gira em torno de mensagens como as de ganância, preconceito e ética.



No jogo, toda essa aura do conto de Barreto foi devidamente respeitada e adaptada com maestria. Mecânicas de jogo diferenciadas fazem com que os textos e diálogos tornem-se essenciais para o avanço da aventura, o que torna a apreensão da história em seus mínimos detalhes divertida e obrigatória na jogatina. Entretanto, transformar um conto de duas páginas de 1910 em um jogo independente em 2017 tem seu preço: A Nova Califórnia é extremamente curto. Isso não atrapalha em nada a diversão que o título proporciona, mas os amantes das várias horas gastas em um único título podem se frustrar com essa simplicidade.

Um dos pontos mais interessantes das histórias apresentadas ao longo da jogatina é o extenso conteúdo depositado em cada um dos simples e rápidos personagens. Com diálogos curtos e resoluções simples, o game mostra posicionamentos e situações próprias para serem debatidas em sala de aula ou em rodas de conversa, o que é uma experiência muito bacana em um jogo, pois aqui a experiência de jogar é livremente completada pelo jogador, que pode interpretar a história passada de vários modos e com opiniões diferentes.


Visual simples com ambientação divertida

Um aspecto curioso de A Nova Califórnia é o fato dele ter sido feito totalmente no RPG Maker. Além disso possibilitar que o jogo seja acessível para praticamente qualquer configuração de computador atual e até vários mais antigos, o jogo agrada por uma ambientação com poucos recursos, mas ótimos detalhes. Elementos como as casas, cidades e até túmulos que aparecem durante o jogo são bastante fiéis àqueles que existiam na época em que o enredo do jogo se passa. A técnica de pixel art combinada com efeitos caricatos para os personagens torna tudo mais leve e engraçado, mesmo que a temática da história seja um tanto macabra.

O interessante de não se apoiar tanto no aspecto visual em alta definição para a ambientação foi a abertura para outras formas de adaptar a história, como através das músicas e dos textos do jogo. As falas fora da norma culta do português quando os escravos interagem com os personagens, a cantiga do “marcha soldado” que é cantarolada pelos policiais quando eles estão marchando pela cidade e outros detalhes deste nível fazem com que o conteúdo artístico do game se torne ainda mais interessante.



Entretanto, para realmente apreciar essas características do jogo, é preciso certo conhecimento do jogador ou, então, um contexto determinado para que o ato de jogar ocorra. Uma pessoa jogando despretensiosamente em casa pode não se atinar para todos os detalhes, críticas e morais que a história do Boticário e da cidade têm a oferecer, o que torna a experiência do jogo mais indicada para contextos educacionais ou que tenham a possibilidade de conversas depois.

Mecânicas de jogo diferenciadas

A Nova Califórnia é um game basicamente de aventura, mas é bem difícil enquadrá-lo nas fórmulas tradicionais do gênero. Ao contrário da maioria, este é um game com alguns aspectos de stealth mesclados à aventura, além do já citado foco em diálogos como parte da resolução de puzzles dentro das fases do jogo. Existem fases que basicamente o jogador precisa conversar com as pessoas na cidade e isso acaba se tornando bastante interessante, pois é a partir daí que a história é de fato contada e você consegue conhecer melhor os personagens. 



Além disso, existem fases nas quais o protagonista precisa roubar e arrombar túmulos, fugindo dos moradores, policiais e outros elementos. Estes são os ápices de ação do jogo e o torna ainda mais divertido. Entretanto, existe um problema aqui: como ele possui um único nível de dificuldade, os ávidos por desafios podem se frustrar bastante, pois o game é demasiadamente fácil de se superar. Claro que o foco é o “contar uma história’, mas um nível de desafio maior nas missões de arrombar túmulos seria bem-vinda para a jogatina.

Parte do desafio acaba ficando em explorar a escura cidade Nova Califórnia, que em alguns momentos propicia uma falta de iluminação tamanha que o jogador é passível de se perder nos caminhos e não entender exatamente como ele pode passar de um lugar para o outro, ou onde é uma escada ou uma parede.


Simplicidade como faca de dois gumes

O ponto principal de A Nova Califórnia, enquanto jogo, é a sua simplicidade. Em alguns momentos ela é muito bem-vinda, como nos controles, gráficos e quantidade de textos, fazendo com que o divertimento seja garantido e a interação com a história seja acessível para qualquer perfil de pessoa, incluindo idade, escolaridade e acesso à tecnologia nesse caso. Entretanto, em outros momentos essa simplicidade é sentida como um defeito, como no tamanho da aventura, quase inexistência dos menus de jogo e baixo nível de dificuldade.

Mesmo com essa oscilação entre qualidades e defeitos, A Nova Califórnia vale a pena, principalmente pela experiência diferenciada em questão de mecânicas e uso do gênero aventura; mas principalmente para conhecer de uma forma interativa e divertida um conto da literatura brasileira, que geralmente é visto por muitos como algo chato ou entediante. Qualquer um pode jogar este título, mas é impossível não deixar a dica para os professores de plantão, pois é uma oportunidade incrível de utilizar videogames brasileiros em suas aulas.


Prós

  • História bem adaptada;
  • Cenários bem feitos, mesmo que com pouca iluminação;
  • Trilha sonora boa;
  • Missões criativas e adaptadas ao conto original;
  • Mecânicas de jogo diferenciadas;
  • Visual caricato agrada;
  • Indicado para aplicação em escolas;
  • Controles simples o tornam bastante acessível.

Contras

  • Nível de dificuldade baixo demais;
  • Navegação pelo mapa confusa em alguns momentos;
  • Menu simplista pode desagradar alguns.
A Nova Califórnia — PC — Nota: 8.0
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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