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Análise: South Park: A Fenda que Abunda Força (Multi) dignifica e consolida a série nos games

A linguagem deste texto é metida a besta. Todas as opiniões são péssimas colocações com direcionamento parcial e não devem ser lidas por ninguém.


Desde seus primeiros anos de exibição, South Park sempre flertou com os videogames, recebendo uma infinidade de adaptações como foi o título para Nintendo 64 lançado em 1998 (e, posteriormente, PlayStation e PC no ano seguinte), Chef’s Luv Shack (Multi), de 1999, South Park: Rally (Multi) em 2000 ou até mesmo com Let's Go Tower Defense Play! (XBLA), de 2009.


No entanto, nenhum desses foi suficiente para fazer com que a série consiga, de fato, engrenar como uma franquia transmídia e que fosse bem representada nesse universo dos jogos eletrônicos. Parecia que o cosmos conspirava contra South Park. Até mesmo The Stick of Truth (Multi), que foi muito bem aclamado pela mídia, sofreu durante seu desenvolvimento por conta de sua produtora, a THQ, ter falido no meio do processo, fazendo com que a IP fosse a leilão e eventualmente sendo comprado pela Ubisoft, que finalmente o publicou.

A maldição foi quebrada. O novo RPG acabou se tornando um sucesso ao conseguir reproduzir o estilo da série de TV sem abrir mão da essência do que é ser um jogo. Isso foi responsável para que houvesse o aval tanto dos criadores quanto da Ubisoft para a produção de uma sequência, esta que veio se tornar A Fenda que Abunda Força (Multi).


O enredo dá sequência ao protagonista — identificado apenas como Novato e apelidado como “o Bundão” — introduzido em The Stick of Truth, que acabou de se mudar para a pequena, porém conhecida, cidadezinha no estado do Colorado. Sendo coroado como o Rei Bundão no jogo anterior, a história começa com as crianças brincando com a mesma temática medieval até que Cartman, vestido como o Guaxinim (um de seus conhecidos alter egos), surge, avisando que é de extrema importância que mudassem de brincadeira e, assim, poderiam utilizar o novo pretexto para resgatar um gatinho desaparecido.

O dinheiro da recompensa seria usado como investimento inicial na produção de um universo expandido da franquia de super-heróis em questão, mas divergências criativas (exploradas no quarto episódio da vigésima primeira temporada, “Franchise Prequel”), fazem com que certos heróis debandem da equipe original do Guaxinim e Amigos para formarem o próprio time chamado Amigos da Liberdade. A história, no entanto, logo deixa de ser uma simples brincadeira de criança para atingir proporções inimagináveis que, eventualmente, acabam manipulando até mesmo o tecido do espaço-tempo.

Muito do mérito de A Fenda que Abunda Força se dá na capacidade de compreender o que tornou o primeiro título tão revolucionário e, a partir desse caminho pavimentado, melhorar a fórmula utilizada. Dessa maneira, nota-se que o que há de novo aqui não passa de um aprimoramento prático de tudo o que já foi visto anteriormente, solidificando o que já era bom.



Esse tipo de estratégia é arriscado e poderia facilmente cair na impressão de “mais do mesmo”. A principal sacada para evitar que tal fracasso ocorra foi simplesmente mudar a temática de fantasia medieval para a de super-heróis, aproveitando justamente para fazer paródia dessa nova onda no cinema e ainda resgatar elementos já utilizados no próprio show há tempos, como o próprio Guaxinim ou Mysterion (o alter ego do Kenny).

Com tal compreensão, essa facilidade de trazer um novo frescor às adaptações de videogame da série pode fazer com que ela dure indefinidamente, visto que a mecânica pode permanecer praticamente a mesma. Aliás, até a história foi repetida, visto que a estrutura ainda segue a ideia de duas facções que brigam entre si, com a diferença de que aqui o jogador não tem o poder da escolha em relação a qual lado quer ficar, ao contrário do primeiro jogo.

A principal diferença técnica entre os dois títulos se dá no combate. Enquanto o primeiro seguia um RPG mais tradicional e a estratégia dependia apenas da compreensão da mecânica que definia a ordem dos personagens, em A Fenda que Abunda Força ele ganha um novo sistema que é responsável por diversificar as táticas ao delimitar o campo de batalha em células e deixando o gameplay próximo ao de um Fire Emblem ou Disgaea.



O domínio desse novo estilo de batalha acontece quando o jogador passa a compreender a forma como cada ataque, seja do Bundão, seja dos seus parceiros, se adapta nesse sistema, bem como ele afeta os inimigos. Alguns têm alcance de uma linha de células inteira, mas afeta apenas um inimigo à escolha do jogador. Outros afetam as quatro células cardeais em volta do personagem que irá efetuar o golpe, além de empurrar os oponentes para espaços mais distantes. O segredo está em saber como cada técnica funciona e na melhor forma de organizar cada personagem no tabuleiro.

Assim como em The Stick of Truth, o Novato Bundão tem acesso a diferentes classes de personagens. Enquanto no primeiro título só era possível escolher apenas uma entre as quatro disponíveis (lutador, mago, ladino e judeu)  no começo do jogo, aqui é possível adquirir os poderes de mais de uma ao longo da história, dentre as técnicas de dez classes presentes, sendo três delas iniciais (brutalista, velocista e energista) e as outras seis (elementalista, inventor, ciborgue, mentalista, assassino, plantomante e artista marcial) liberadas ao longo da narrativa.

O principal defeito do de A Fenda que Abunda Força, no entanto, é que ele pena em oferecer alguma dificuldade factual. Por mais que haja tanto um nível de personagem quanto uma escala de poder recomendados para cada missão, não é difícil realizá-las estando abaixo do sugerido. Mesmo a suposta batalha secreta contra o Morgan Freeman é facilmente vencida com uns itens extras e alguma estratégia que se foque em nulificar seus ataques mais poderosos.



A meu ver, o aspecto mais difícil do jogo, é o achievement das privadas. Explicando: há diversos vasos sanitários em South Park e uma das conquistas envolve justamente borrar cada um desses artefatos de porcelana. Para tal, o jogo inicia um mini-game rítmico cuja dificuldade varia de privada por privada. Apesar de a maioria ser relativamente tranquila, a repetição exigida em cada etapa chega a ser chata. A dificuldade, portanto, não se dá na exigência de uma habilidade, mas na capacidade do jogador em reunir a paciência necessária para se para fechar tal objetivo. O mesmo vale para outras missões paralelas, como a de recuperar os gatos perdidos do Al Gayzão ou de colecionar todas as artes de Yaoi que ilustram o relacionamento do Tweek e do Craig espelhadas pela cidade.

Outro ponto do jogo responsável por tornar o título um pouco mais enfadonho são os quebra-cabeças que envolvem a assistência de outros personagens, cujas habilidades, em conjunto do poder flatulento do Bundão, servem para remover obstáculos, acessar certas áreas e ter acesso a novos objetos. O processo de chamar cada um dos seus colegas e passar pela animação e por um quick time event em todas as vezes que for necessário é chato, principalmente na reta final do jogo, onde seria bem mais interessante se houvesse combates mais diversos. Essa inversão de ideias acaba acontecendo com maior destaque na fase do laboratório do Doutor Mephesto, uma das últimas do título.

Ainda assim, nada disso tira a legitimidade de South Park: A Fenda que Abunda Força como um jogo, de fato. Ao contrário de uma infinidade de outras peças como Metal Gear Solid, aqui há uma combinação real e eficaz de história trabalhada pelo próprio gameplay, em vez de ilustrá-las com horas e mais horas de cutscenes.



A impressão é que os momentos jogáveis e os não jogáveis acabam se organizando e harmonizando de maneira fluida, onde os momentos jogáveis e os apenas assistíveis acabam até mesmo se confundindo, efeito conseguido principalmente pela mimetização bem-sucedida do estilo de animação da própria série de TV. O resultado disso é um jogo que incita as mesmas sensações tanto em quem joga quanto em quem assiste ao jogador, seja para o bem, seja para o mal — isto é, os momentos entediantes para o jogador também vão entediar o espectador.

A Fenda que Abunda Força chega como um trabalho licenciado eficaz e responsável por consolidar de vez South Park no universo dos games. Por mais que haja defeitos, é nítido o esmero e atenção na construção do produto final, capaz de orgulhar os fãs da franquia com as infinidades de referências aos mais de vinte anos da série de TV, ainda mais o brasileiro, visto que o conteúdo está todo em português, tanto no texto quanto na dublagem — que conta com alguns problemas, mas como a ideia é que ela seja o mais tosca possível (e isso vem lá do desenho original), a gente até acaba relevando. O que importa é que o resultado final é divertido, imersivo, empolgante e viciante.

Para quem não concordar com isso, a única coisa que me passa pela cabeça é f*da-se você, eu vou para casa.

Prós

  • Estilo artístico e história dignos do material original;
  • Nova temática traz frescor ao título em relação ao anterior;
  • Sistema de combate aperfeiçoado;
  • Diversidade na escolha das classes e dos poderes;
  • Características da série muito bem reproduzidas na transição para o videogame;
  • Dublagem com a maioria das vozes originais;
  • Tradução e adaptação inteligentes de determinadas piadas mais específicas.

Contras

  • Quebra-cabeças e missões que envolvem colecionáveis entediantes;
  • Gameplay arrastado em alguns momentos.
South Park: A Fenda que Abunda Força — PC/PS4/XBO — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e está quase terminando sua pós-graduação para poder ser chamado de especialista em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa). Aficionado por conceitos teóricos, não vai perder uma oportunidade de usá-los para delimitar se algo é ou não um jogo. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular, onde utiliza suas presas para destilar seu veneno e não deixar o ódio dentro de si morrer.

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