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Análise: GUTS (Multi) é uma divertida e hilária matança com desmembramentos

O jogo brasileiro de luta da Flux Game Studio diverte bastante, mesmo com pouca variedade de elementos

Há tempos, jogos de luta enfrentam uma realidade difícil: a falta de inovação e as tentativas frustradas de fazê-las. Os grandes nomes desse gênero atualmente são marcados não por suas inovações, mas sim pelo aprimoramento das mecânicas já estabelecidas para o gênero. Um pouco contra a maré, GUTS (Multi) consegue inovar de modo criativo e gratificante em mecânicas de combate que se diferenciam dos recursos tradicionais dos jogos de luta. Tudo isso com muito humor, muita cor e muito sangue. Preparados para uma disputa repleta de mutilações?

Um mundo distópico hilário

GUTS tem uma premissa bem interessante para um jogo focado em combates e desmembramentos. Mesmo que com um peso bem forte no humor, sua história é complexa e trabalha bastante a relação entre os personagens. Num estilo que lembra um pouco a franquia Street Fighter, cada lutador é de uma nacionalidade distinta, mas de um futuro distópico onde o mundo é palco de uma guerra entre facções: há aqueles que amam as comidas e aqueles que amam o condicionamento físico perfeito. Essa premissa não dita o jogo, mas serve como pano de fundo interessante para a interação entre alguns personagens.



O que realmente conduz o jogo é o reality show Gore Ultimate Tournament Show (GUTS), um programa de auditório que leva os participantes a se enfrentarem em cenários hostis em um combate focado em desmembramentos, de maneira espetacularizada para agradar os telespectadores. Tal base lembra o enredo da franquia Jogos Vorazes, mas não se engane: as semelhanças param por aí, pois GUTS tem um estilo e uma personalidade próprios que não são facilmente comparáveis.

Um aspecto muito bacana da ambientação completa do jogo é o modo história diferenciado para cada um dos personagens. Isso acrescenta bastante em sua experiência, pois induz o jogador a completar a campanha várias vezes para conhecer todos os personagens e suas hilárias histórias. O tom de humor do título é ácido, mas nada muito problemático. É possível que algumas pessoas possam achá-lo ofensivo, mas ele não se propõe a ser ofensivo, pois suas caricaturas e frases são escrachadas no ponto certo.


Mecânicas inovadoras, leves e divertidas

Uma coisa que GUTS sabe fazer é divertir. Com cores vivas, boas músicas, frases engraçadíssimas e histórias muito cômicas, toda a aura do jogo incita risos, desde o exagero proposital até as caricaturas e movimentos dos personagens. Além dos aspectos estéticos, as mecânicas de jogo também corroboram com essa leveza e foco na diversão. Para começar, GUTS se diferencia bastante dos demais jogos de luta por não possuir contador de tempo e barras de vida. Como o jogo é focado em desmembramentos, são eles que ditam as vantagens e desvantagens dos lutadores.

Os comandos básicos são divididos entre os quatro membros dos personagens. Cada botão controla um membro, enquanto outros quatro  são responsáveis pelos movimentos especiais de cada um. Para vencer a luta, os chamados GUTS move são essenciais, uma vez que eles causam uma mutilação instantânea, caso acertem o alvo. Vence o jogador que arrancar os quatro membros do outro e aplicar uma finalização primeiro. Mesmo que não seja ideal jogá-lo no teclado pela quantidade de botões necessário de serem usados, todos esses aspectos tornam o título bem divertido e dinâmico, com jogabilidade rápida e combos interessantes.



A ausência de elementos como vida, tempo e o tradicional game over no modo campanha tornam GUTS uma experiência bem mais suave que os outros jogos de luta, mesmo que sem perder a competitividade e a ação que o gênero pede. O game é uma boa pedida para os amantes de jogos focados no humor, mas também agrada qualquer amante de jogos de luta, por conta da excelente combinação de mecânicas divertidas, leves, mas também competitivas e focadas na ação.

Seu calcanhar de Aquiles é a variedade

Como se trata de um jogo independente, GUTS surpreende bastante com a quantidade de modos de jogo, design e qualidade de narrações, efeitos sonoros e capturas de movimento. Partidas multiplayer on-line e off-line, campanhas diferenciadas para cada lutador e modos de jogo variados no versus local são elementos muito bons que aumentam a vida útil do jogo, além de dinamizar a jogatina. Entretanto, toda essa variedade de modos de jogo não foi acompanhada pelos cenários e personagens; e isso tem certo impacto na experiência.



Com nove lutadores jogáveis, o modo campanha não sente tanto o peso da pouca quantidade de personagens, muito por conta das histórias próprias de cada um. Entretanto, quando vamos para o multiplayer essa baixa variedade é sentida. É possível cansar de tal modo depois de poucas horas e muito disso se deve à pouca quantidade de personagens inseridos em apenas cinco cenários distintos.

Entretanto, quantidade de fato não é qualidade, mesmo que aqui tenha certo peso na experiência de jogo. A pouca variedade é recompensada em GUTS com personagens cheios de personalidade e identidade próprias, fáceis de serem identificados e memorizados. Além disso, os cenários são também interessantes, com elementos de armadilha nas arenas que servem para atrapalhar ou ajudar os jogadores, dependendo da estratégia de jogo.


Ótimos desafios, mas com curva estranha

Outro ponto muito interessante do jogo é seu nível de dificuldade. GUTS é desafiante e certas lutas vão deixar até os mais experientes no gênero apertados com determinados combos dos personagens. Entretanto, mesmo que a curva de aprendizado do jogo seja bem instintiva e tênue, a que diz respeito ao desafio, por sua vez, oscila demais devido a personagens dificílimos no meio do caminho e chefes finais que não são tão ameaçadores assim. Isso pode incomodar um pouco durante a experiência da campanha.

Além disso, a AI dos personagens é um pouco problemática. Mesmo que com ótimos combos e habilidades de desviar e impedir seus ataques, é possível que vez ou outra os adversários com inteligência artificial se mantenham em apenas um golpe ou então simplesmente não se movam se você não se mover primeiro. Isso não prejudica, de fato, a experiência do jogo, mas deixa a desejar um pouco, pois tais problemas são perceptíveis.


Uma ótima forma de desmembrar o tédio

Independente dos pontos fracos que GUTS possa ter, o jogo cumpre o prometido e diverte bastante. Num gênero cheio de mesmices, o jogo brasileiro consegue se impor de certo modo, com criatividade, carisma e humor. Além disso, como um dos desenvolvedores do jogo falou em entrevista para o GameBlast, existem planos de aumentar a quantidade de personagens e ambientes de jogo em DLC gratuitas, então é possível que alguns contras do título atual possam ser sanados no futuro.

Resta esperar que a Flux Game Studio continue fazendo um ótimo trabalho com GUTS, atualizando-o e aumentando seu conteúdo. Ainda assim, é possível dizer que, sem dúvidas, este é um jogo que mostra como o desenvolvimento independente no Brasil tem melhorado bastante nos últimos anos.

Prós

  • Mecânicas de jogo leves e divertidas;
  • Gráficos coloridos e agradáveis;
  • Humor bem encaixado na trama;
  • Histórias individuais aumentam o fator replay da campanha;
  • Personagens caricatos combinam com o tom do game;
  • Ausência de tempo e barra de vida inovam na jogatina;
  • Mecânica de mutilação inova e diverte com sucesso;
  • Cenários interativos bem-feitos;
  • Diversos modos de jogo dinamizam a jogatina.

Contras

  • Pouca quantidade de cenários e personagens;
  • Alguns problemas com a AI dos inimigos;
  • Curva de desafio oscila bastante.
GUTS — PC/PS4/XBO — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: João Pedro Boaventura
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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