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Análise: Call of Duty: WWII (Multi) retorna às origens de maneira grandiosa

A Sledgehammer Games honra o desejo dos fãs com um jogo de muita qualidade.


Call of Duty: WWII (Multi) chegou com a promessa de renovar a franquia ao retornar às suas origens. Mesmo não alcançando a perfeição, este é disparado o melhor título da franquia nos últimos tempos e um memorando aos fãs de que o Call of Duty que todos aprendemos a amar ainda existe.


“Você está bem longe de casa, garoto”

Com apenas 19 anos de idade, Daniels deixa sua amada Hazel no calor do Texas para desembarcar na Normandia e iniciar a liberação da França e da Europa, ocupadas pelos nazistas. Ao seu redor, espremidos em uma embarcação que os está levando para mais perto da morte, tantos outros jovens que possivelmente nunca seguraram uma arma. Os primeiros minutos de WWII são calmos e criam uma tensão muito grande, impulsionada por diálogos precisos dos dois veteranos no barco. Os alemães, então, começam a atacar os aliados e, quando finalmente estamos pisando na praia, percebemos o horror da guerra estampado da forma mais gráfica possível. Barulho de tiros derrubando nossos colegas e ricocheteando no metal das barreiras na praia se misturam a gritos desesperados de dor e agonia. Corpos caídos contracenam com soldados desmembrados, porém ainda vivos. Não há música neste primeiro contato com o game, a fim de mostrar ao jogador, como a guerra é de fato. É um momento cru, violento e marcante.

Um dos maiores méritos de WWII é apresentar sua história através de um pelotão de soldados que criam entre si um senso de irmandade que lhes dá esperança na guerra. Daniels tem como seu melhor amigo e fiel companheiro Zussman, que pode ser descrito como leal e honesto; Stiles tem em si o desejo de se tornar o maior fotógrafo da guerra e leva sua câmera a todos os lugares; Aiello é o “humorista” do pelotão, provocando com tiradas ácidas a todos do grupo; o Sargento Pierson é um dos veteranos do grupo e aquele que está disposto a cumprir as ordens de qualquer maneira; e por fim temos Turner, líder do pelotão de Daniels e “escudo” dos novatos contra os exageros de Pierson. Turner é um líder experiente e leal ao seu status como soldado, mas possui um lado humano e compreensível na hora de olhar para seus subordinados, entendendo que aqueles são homens que simplesmente não queriam estar ali, e por isso talvez suas fraquezas sejam ainda mais evidenciadas, necessitando assim de um trabalho de apoio e encorajamento maior por parte de Turner.

Os personagens contrastam muito bem entre si, e é difícil não se importar com eles. Ver seus sofrimentos em tela, os dilemas apresentados e os conflitos interpessoais que surgem entre eles, principalmente Pierson e Turner, é de dar um aperto no peito. Infelizmente, o game não chega a tocar em temas como o holocausto de maneira completa, mas quando o fez, foi de maneira forte e que me emocionou. Tudo o que nos é apresentado, ainda que algo seja breve, é bem produzido e fiel à realidade. Não há máscaras por trás de nada e visitar um campo de concentração pela primeira vez no game me trouxe calafrios genuínos.

Contando com a ajuda dos amigos

Call of Duty: WWII traz pequenas modificações em sua tradicional jogabilidade no modo campanha. Diga adeus à regeneração automática. Aqui, temos de utilizar pacotes médicos para curar nossos ferimentos, e eles podem ser encontrados pelo cenário ou em inimigos próximos. Também podemos pedir auxílio aos nossos companheiros desde que suas barras de ajuda estejam completas. Para preenchê-las, basta eliminar soldados inimigos. Zussman nos fornece pacotes médicos; Turner nos dá munição; Stiles nos dá granadas de fragmentação e fumaça; Aiello nos repassa uma granada para chamar suporte de morteiros e Pierson fornece reconhecimento e localização dos inimigos, marcando-os com um contorno branco na tela. Essas adições são muito bem-vindas e podem, de maneira sutil, nos aproximar dos personagens. Recomendo experimentar o game na dificuldade Veterano. Não é tão assustadora quanto em outros Call of Duty e nos permite uma maior imersão dentro do game.



Visitamos diversas locações que serviram de palco para a guerra, desde a praia da Normandia até uma Paris sob comando nazista e uma densa floresta conhecida como “fábrica da morte”. Pequenos momentos de calmaria antecedem os climáticos acontecimentos sempre presentes na franquia Call of Duty, e a grande maioria deles são extremamente marcantes. O único detalhe incômodo é a presença de pequenos quick-time events durante tais momentos intensos, e errá-los pode tornar as coisas anti-climáticas.

Aliste-se, soldado

O modo multiplayer de Call of Duty volta com sua essência preservada, mas com modificações suficientes para dar um frescor à franquia. Temos a adição das Divisões aqui, que funcionam como as classes dos soldados, sendo elas Infantry, Airborne, Armored, Mountain e Expeditionary. Cada classe possui um conjunto de habilidades próprias, que são desbloqueadas ao evoluir a patente das classes e ficam ativas assim que são liberadas. A classe Mountain, por exemplo, é voltada para atiradores de elite e a única que permite segurar a respiração ao mirar com um rifle de atirador; a Armored possui a habilidade de maior resistência a danos explosivos, tornando-se excelente como linha de frente e defesa. Não há restrições de armas e existem também habilidades passivas secundárias comuns a todas as classes, então ainda há uma certa liberdade para o jogador montar um conjunto de equipamentos ideal ao seu estilo de jogo.

As classes citadas acima são extremamente importantes no principal modo adicionado a Call of Duty: o modo Guerra. Aqui, dois times de seis jogadores são colocados em uma partida de ataque contra defesa. Uma série de objetivos devem ser cumpridos e defendidos para que haja progresso durante a partida e, consequentemente, a vitória. O game oferece três mapas: Operation Breakout, cujo objetivo final é destruir as artilharias alemãs; Operation Griffin, em que devemos quebrar as defesas aliadas com nossos tanques; e Operation Neptune; que simula a invasão da praia da Normandia. A mistura de objetivos de ataque e defesa exige um time que saiba se adaptar. Não basta apenas ficar correndo pelo mapa. Saber utilizar um rifle de precisão com a Mountain para defender uma ponte ou escopetas com balas incendiárias com a classe Expeditionary e invadir território inimigo é fundamental para ter sucesso na missão. Montar conjuntos de armamento com habilidades diversas que privilegiam certas situações é outro ponto que deve ser pensado pelo jogador. Há um senso de estratégia nunca antes presente em Call of Duty. Infelizmente, a pouca quantia de mapas torna o modo repetitivo.



Modos tradicionais como Mata-mata em Equipe, Dominação e Capture a Bandeira estão presentes também, porém, seriam melhor aproveitados se os servidores do game não estivessem passando por um caos total. Há desconexões constantes e uma dificuldade grande de se jogar com amigos em grupo, mas quando conseguimos jogar, percebemos o quanto é bom poder voltar aos conflitos “botas no chão”.

WWII trouxe também contratos para serem feitos diariamente e semanalmente. Os objetivos são diretos, como matar um determinado número de inimigos com bazucas ou ganhar uma quantia específica de partidas no modo Guerra. Os contratos oferecem recompensas como créditos e pacotes de suprimentos. Os créditos podem ser usados para comprar cosméticos, como novas roupas e cartões de visita para o perfil do jogador. Os pacotes de suprimentos, que são as loot boxes do game, trazem itens variados, como os citados roupas e cartões de visitas, e também armas e bônus de experiência. Há conjuntos de itens cosméticos que, quando completados, liberam uma arma épica. As armas épicas nada mais são do que variações cosméticas das armas presentes no game. Não há modificadores das características das armas, então não há desbalanceamento. O que há é a chance de ganhar 10% a mais de experiência por cada abate, mas isso não prejudica a competitividade entre os jogadores.

Zumbis Nazistas

O amado modo zumbi de Call of Duty retorna com o Doutor Straub recebendo sinal verde para fazer experimentos em soldados nazistas mortos. O cientista alemão pirado traz um exército de volta à vida, dispostos a comer os jogadores e impedi-los de cumprir os easter eggs escondidos por todo o cenário de O Último Reich. Todos os elementos que tornam o modo zumbi divertido estão de volta: hordas incessantes de inimigos; diversas localidades para serem abertas e exploradas; quebra-cabeças de dar nó no cérebro; variedade de armas espalhadas pelo cenário em conjunto com habilidades especiais que dão bônus aos jogadores que as compram com o dinheiro acumulado nas partidas.



Em Infinite Warfare havia um tom de comédia inserido em seu modo zumbi. Aqui, a comédia é deixada de lado para que os experimentos doentios de Straub façam parte do cenário, chocando o jogador e criando um aspecto de tensão e terror enquanto esperamos os zumbis famintos chegarem. E não apenas zumbis comuns, temos também pequenos mini chefes com serras acopladas no lugar de uma das mãos e brutamontes com lança-chamas. Vê-los em grupo não é a sensação mais gostosa aqui. Há duas rotas de easter eggs a serem cumpridas, sendo a casual a que nos leva a enfrentar o Panzermorder, a criação suprema de Straub e último chefe do modo zumbi. Independente de qual caminho decida seguir, saiba que será preciso uma boa dose de raciocínio, exploração, atenção e habilidade para sobreviver aos inimigos e encontrar todos os objetivos. Alia-se a isso o fato do modo zumbi possuir sistema próprio de experiência e desbloqueios para seus personagens e temos boas horas de diversão, principalmente quando jogamos em grupo.

É possível customizar um personagem com quatro habilidades especiais primárias. Cada uma delas possui uma função diferente, como tornar o jogador invisível para os zumbis ou fazê-los ficar parados e com uma aura vermelha que os enfraquece. Há também habilidades passivas, tal como ser capaz de carregar três armas diferentes ou ganhar um ponto de escudo a cada vez que a habilidade primária Camuflagem é ativada. É como um sistema de classes que jogará a favor do grupo, sendo importante montar conjuntos de habilidades que sejam compatíveis com as habilidades escolhidas pelo restante do time.

De fazer brilhar os olhos

Call of Duty: WWII é um dos games mais belos deste fim de ano. O nível de detalhes é absurdo, os personagens são críveis e bem produzidos e os cenários nos fazem nos sentir como se estivéssemos ao lado de Daniels e seu pelotão. Os fogos de artifício em Paris e a perseguição de carro a um trem-fortaleza alemão são ótimos exemplos da primazia gráfica apresentada. Tal primazia reforça os momentos mais tocantes e emocionantes que presenciamos durante a campanha.



Há, no entanto, ocasionais picos de performance que fazem o jogo dar uma “engasgada” e proporcionar pequenas travadinhas quando muita coisa está acontecendo na tela, mas não chega a ser algo tão incômodo e é possível que seja consertado em atualizações futuras.

Call of Duty: WWII é o retorno merecido e devido da franquia às raízes da série. Sua essência é a mesma, o que não afastará os veteranos, mas as adições que traz o renovam e permitem uma aproximação maior de novatos. Sua campanha pode ser curta, mas possui excelentes personagens e momentos memoráveis e emocionantes, dignos da série. O multiplayer continua delicioso, principalmente em seu novo modo Guerra, e a perspectiva é que tudo esteja funcionando e apenas melhore daqui para frente. O modo zumbis completa o pacote, oferecendo dezenas de horas de exploração e sobrevivência na descoberta de segredos. Pode não ser um jogo perfeito, mas é o melhor Call of Duty que joguei desde 2012.

Prós

  • História marcante com personagens críveis e interessantes;
  • Momentos cinematográficos são de cair o queixo;
  • Excelente campanha, apesar de curta;
  • Adição do modo Guerra e das Divisões traz um senso de estratégia inédito para a série;
  • Modo zumbi com clima de terror e suspense se sai melhor do que o tom de comédia do anterior.

Contras

  • Quick-time events desnecessários;
  • Poucos mapas no modo Guerra;
  • Problemas de conexão com servidores.
Call of Duty WWII — XBO/PS4/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PS4

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Francisco Camilo é formado em Serviço Social pela PUC-MG e até hoje não entende a verdadeira razão de ter feito tal curso. Apaixonado pelo mundo dos jogos eletrônicos, tem em sua mente um futuro ideal cuja existência é incerta e o leva a questionar se o que imagina é parte de um sonho ou ilusão. Pode ser encontrado aqui principalmente em análises e buscando troféus na PlayStation Network.

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