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Análise: Rogue Trooper Redux (Multi) — um bom jogo, porém ultrapassado

Jogabilidade datada, problemática e conjunto de bugs dividem espaço com a nostalgia e a nova roupagem desta remasterização.


Rogue Trooper é uma adaptação dos quadrinhos de mesmo nome da editora 2000 AD. Originalmente lançada em 2006 para Xbox, PlayStation 2, Wii e PC, a versão em jogo de Rogue Trooper chega agora para Xbox One, PlayStation 4, Switch e PC sob o título de Rogue Trooper Redux, uma versão que conta com gráficos melhorados e em alta definição, novas configurações de dificuldade e um sistema de cover aprimorado.

The Trooper

O protagonista é Rogue, o último Genetic Infantryman (GI), uma espécie de soldados desenvolvida em laboratório e modificada geneticamente para suportar as condições atmosféricas hostis de Nu Earth, um planeta onde ocorre uma densa guerra entre os Norts e os Southers. Chips eletrônicos especiais são implantados nos bebês GI com seis meses de idade, e aos nove meses já estão completamente aptos a receberem treinamento militar. Se o corpo de um GI sofrer dano letal, sua vida pode ser salva desde que seu chip seja implantado em algum equipamento GI dentro de 60 segundos, tornando-o uma espécie de vida artificial.

O esquadrão de Rogue é abatido pelos Norts em uma operação de investida, e Rogue consegue salvar seus companheiros e implantá-los em sua arma e sua mochila de combate. Ao fazer isso, ele não apenas salva seus companheiros como os coloca em funções novas. Gunnar opera a mira de suas armas e Bagman fica responsável por criar itens e manejar o inventário de Rogue. Tirando os nomes convenientes dados aos personagens, a implementação de mecânicas de jogo à narrativa da história é um ponto a ser elogiado. O game possui um sistema de mira automática, mas ele não está ali apenas por ser uma mecânica, mas sim porque Gunnar executa essa função. Faz parte da história.



A trama envolve algumas reviravoltas e traições, e ver Rogue envolvido em tais temas sendo um soldado praticamente descartável é interessante. Ele tem uma personalidade forte e voltada para o combate e, juntamente com seus companheiros GI, toma suas próprias decisões e é capaz de questionar as ordens que recebe (seu nome “Rogue” é um tanto quanto conveniente também). A interação com os soldados oferece não apenas pontos de vista diferentes sobre as missões de Rogue, mas também dicas sobre como avançar em certos momentos.

Como uma história de guerra, os eventos que acontecem em tela satisfazem durante as horas de jogatina. O que eu senti falta foi de uma exploração maior da mitologia criada em torno dos GI e de Nu Earth. Sabemos que são modificados para sobreviver ao ambiente natural hostil, mas teria sido enriquecedor ver isso melhor explorado, tanto por parte das capacidades dos GI quanto pelas características do planeta, buscando mostrar sua vida selvagem, por exemplo.

Uma mistura de problemas e ritmo lento

Rogue Trooper Redux é focado em tiroteios em terceira pessoa. Rogue tem uma bela seleção de armas disponível, indo desde seu tradicional rifle de assalto até morteiros, lança-foguetes e granadas pegajosas. A cada fase completada liberamos melhorias para serem fabricadas por Bagman usando salvage (sucata), a moeda do jogo. Salvage pode ser coletada em inimigos mortos ou em pontos específicos do cenário, marcados no radar com um ponto branco. E não apenas melhorias são compradas com salvage, mas também munição e kits médicos, e dessa forma buscá-la e coletá-la se torna importantíssimo e faz o jogador percorrer e explorar os cenários em busca de suas fontes. Não tira totalmente a linearidade do jogo, mas é uma oportunidade de conhecer algumas paisagens de Nu Earth.

Os tiroteios de Rogue Trooper são divertidos e oferecem um certo nível de desafio, principalmente pelo fato de a inteligência artificial ser agressiva. Infelizmente, essa mesma agressividade divide espaço com uma burrice sem tamanho. Não é incomum ver inimigos se matando com granadas próprias ou mesmo por robôs aliados. Em situações de stealth, temos a opção de abater inimigos na surdina com nosso rifle de precisão, e é extremamente comum ver um soldado Nort morrer ao lado de outro e este não sequer dar a mínima para o companheiro abatido. Em outros momentos, o soldado que restou verifica o corpo caído e volta para seu padrão de caminho ou fica parado do lado do corpo sem qualquer outro tipo de reação.



O sistema de cobertura implementado aqui não funciona da maneira como deveria. Ao nos aproximarmos de uma estrutura física, como paredes e muretas, Rogue se coloca em cobertura, permitindo uma proteção maior durante os confrontos. Infelizmente, a mecânica de “murinho” possui falhas que colocam o jogador em perigo. Há situações em que entramos e cobertura sem termos a intenção, e há situações em que não conseguimos nos proteger quando mais precisamos. Além disso, não é incomum tomar tiros mesmo protegido por uma parede, dando a impressão de que estar ali não faz a menor diferença para viver ou morrer.

Rogue não pode correr, o que para mim já é algo estranho principalmente por eu estar familiarizado com os jogos de tiro em primeira e terceira pessoa atuais, em que correr é algo quase tão comum quanto atirar. Houve um certo estranhamento inicial, mas passou rapidamente e não chegou a incomodar. Porém, o que parece não ter rapidez também é o ritmo do jogo. Embora os combates sejam divertidos, eles parecem lentos demais, tanto pela movimentação de Rogue quanto pela dos inimigos. Não há dinamismo. Tal ritmo é quebrado em fases diferentes, como Hoppa Chase, em que o jogador controla uma arma de uma nave enquanto persegue outra como em um jogo de tiro em trilhos, mas são poucas as fases assim. Para completar, a trilha sonora é lenta e suave em grande parte do game. Ainda me lembro de trocar tiros com Norts ouvindo uma música calma e de suspense ao fundo.

Temos a opção de aproximar a mira para termos mais precisão durante os combates. Em teoria, a mira deveria ficar sobre o ombro, como em games como Resident Evil 4 (Multi) ou Gears of War (X360/XBO), mas o game insiste em apenas aproximar a câmera e jogar Rogue no centro da tela em diversas situações, ocultando os inimigos à frente e tornando sua mira precisa um empecilho. É muito mais simples e efetivo atirar usando apenas o analógico de mira, sem aumento de precisão.

Redux

Há de se tirar o chapéu para o trabalho de arte do game. Os cenários exploram algumas localidades de Nu Earth e oferecem uma boa variedade de paisagens para o jogador, como campos devastados e áridos a montanhas, áreas urbanas e florestas petrificadas. Não aprofunda muito em Nu Earth como um todo, mas dá um gostinho de como seria o nosso planeta caso não fôssemos capazes de sobreviver a uma atmosfera diferente e mais hostil.

Efeitos de iluminação trazem uma nova qualidade para a remasterização, criando feixes de luz e sombras convincentes e de alta qualidade. O alcance das sombras pode não ser muito alto, e vê-las aparecendo apenas quando nos aproximamos acontece, mas não chega a ser um defeito gritante. A modelagem dos personagens, principalmente de Rogue e dos GI, é muito bonita e mostra um salto gritante quando comparada aos modelos de 2006, principalmente no que diz respeito aos detalhes. Expressões faciais devem ser ignoradas, mas nem mesmo chegam a fazer falta para os personagens truculentos que o game possui.



Temos a presença também de um modo cooperativo online para até quatro jogadores, com duas modalidades de jogo: Stronghold e Progressive. Stronghold é como um modo de horda, em que os jogadores devem defender um objetivo contra inimigos diversos até o fim da contagem de tempo; já em Progressive, os jogadores devem completar certos objetivos, como ir até um ponto e escapar dos inimigos, em um pequeno mapa escolhido. É possível jogar com um dos quatro soldados do esquadrão de Rogue, cada um possuindo uma habilidade própria, como munição ou kits médicos infinitos, mas nada que seja denso ou estratégico, ao menos. Tais modos funcionam para suas propostas, que é permitir que quatro pessoas joguem cooperativamente, mas são modos simplórios e que não instigam o fator replay.

Rogue Trooper Redux pode parecer um jogo “ruim” pelo que eu disse até aqui. É estranho falar sobre as características que considerei negativas no game, pois eu consegui me divertir mesmo com todas elas. Foi como se eu tivesse voltado para meus tempos de PlayStation 2, quando eu não me arriscava em textos de análises e simplesmente não conseguia enxergar defeitos em quase nada. Há uma simplicidade em Rogue Trooper que me agrada, que me diverte, talvez por ser nostálgica. Enfim, a conclusão que cheguei é de que Rogue Trooper Redux é um excelente jogo para duas gerações de console atrás, mas ultrapassado para a geração atual, mesmo possuindo uma roupagem nova.

Prós:

  • Trama competente e interessante;
  • Implementação de elementos narrativos como mecânicas de jogabilidade;
  • Tiroteios divertidos;
  • Boa seleção de armas;
  • Bom trabalho de remasterização gráfica.

Contras:

  • Ritmo lento em grande parte do game;
  • Controles ultrapassados;
  • Mecânica de cobertura problemática;
  • Inteligência artificial estúpida em vários momentos.
Rogue Trooper Redux — XBO/PS4/PC/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Vitor Tibério 

Francisco Camilo é formado em Serviço Social pela PUC-MG e até hoje não entende a verdadeira razão de ter feito tal curso. Apaixonado pelo mundo dos jogos eletrônicos, tem em sua mente um futuro ideal cuja existência é incerta e o leva a questionar se o que imagina é parte de um sonho ou ilusão. Pode ser encontrado aqui principalmente em análises e buscando troféus na PlayStation Network.

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