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Análise: PES 2018 (Multi) é um sólido simulador de futebol, mas precisa trabalhar os seus diferenciais

A mais nova versão e Pro Evolution Soccer tem uma infinidade de méritos a nível de gameplay, mas o tratamento que a Konami dá para o material exclusivo ainda é decepcionante.


Apesar de FIFA dominar o mercado mundial dos simuladores de futebol, o jogador brasileiro ainda tem alguma justificativa para continuar a pelo menos dar atenção ao título da Konami. A diferença principal para Pro Evolution Soccer 2018 (Multi) em relação à concorrência é o licenciamento da liga nacional naquele que é (ou melhor, voltou a ser) considerado o país do futebol. Enquanto o jogo da EA Sports até conta com o licenciamento dos times em si, os jogadores estarão representados com nomes genéricos, além da ausência de Corinthians, Vasco e Flamengo, três clubes de peso deste desporte bretão no panorama nacional. PES, por sua vez, tem todos os times que disputam a série A agora em 2017 (mais o Internacional), mesmo que os jogadores de alguns ainda tenham nomes genéricos, mas facilmente corrigíveis de forma manual.


Se esse licenciamento dos times não for o motivo para uma eventual migração de jogadores, não será dessa vez, mesmo que PES 2018 consiga apresentar uma jogabilidade sólida e diversidade tática o suficiente para fazer frente ao FIFA. Fazendo um comparativo, essa nova versão funciona mais como uma atualização do que uma revolução, algo que realmente aconteceu entre os títulos de 2015 e 2016 e seria provavelmente o momento mais propício de angariar novos públicos.

Se uma palavra pode descrever o gameplay do título, podemos ficar com “agilidade”. Apesar de soar negativamente, essa suposta rapidez não diz respeito a um jogo alucinante e frenético, cuja chave do sucesso é ter os futebolistas mais rápidos no plantel, como acontecia em versões anteriores (principalmente porque PES agora está mais lento do que realmente já foi no passado), mas porque o sistema permite um jogo cadenciado que age de forma a desestimular aquela partida enrolada de quem faz um a zero e fica enrolando o resto dos noventa minutos esperando o contra-ataque.


Do Tiki-Taka ao Cucabol

A parte tática, aliás, é provavelmente a principal chave de compreensão de PES, visto que agora, mais do que antes, as capacidades individuais dos futebolistas contam e os jogadores (os da vida real, não os do game) precisam entender as características de cada um e adaptá-los a seu estilo de jogo, tal qual um técnico da vida real. Alguém que prioriza jogadas pelas laterais em velocidade dificilmente fará com que um jogador como o Douglas (o último camisa 10), do Grêmio, ou o Danilo, do Corinthians, rendam alguma coisa, visto que ambos são relativamente mais lentos e que se adaptam melhor em times que priorizam a posse e o toque de bola cadenciado na área do adversário, só esperando o momento certo de estufar as redes.

Essa valorização tática em detrimento das capacidades dos jogadores também é importante na hora de enfrentar o time adversário. Ao encarar um time contra o Real Madrid, que age de forma agressiva com seu tridente de ataque formado por Benzema, Bale e Cristiano Ronaldo, o ideal é impedir que qualquer um deles sequer consiga a bola nos pés. Assim, jogadores como os já citados Douglas e Danilo funcionam como uma luva quando combinados com um bom volante, porque realizam a manutenção do jogo e tais craques pouco têm a oportunidade de aparecer em campo.

Dito isso, os únicos problemas que encontro com a jogabilidade são em relação à defesa, que parecem mais abertas do que antes, o que me forçam a jogar com dois volantes em vez de um só, como uma forma de reforçar a zaga. O mesmo vale para os goleiros. Embora seja possível ver uma evolução considerável nesse quesito, principalmente embaixo dos três paus, não é incomum eles avançarem para fora da área para enfiar uns chutões gratuitos ou cabecear para fora de uma maneira exagerada como se todos fossem um Manuel Neuer. Isso incomoda porque em vários lances seria possível simplesmente dominar a bola e continuar o jogo em vez de simplesmente matar uma jogada e, consequentemente, a fluidez da partida.


É hora de brincar de PSG

Deixando o dentro de campo um pouco de lado agora, não há muita diversidade nos modos de jogo propriamente ditos em relação às versões anteriores, mas certamente há novidades neles. O modo Master League continua lá e as negociações sofreram alterações consideráveis na forma de serem conduzidas. Na versão anterior, o jogador pouco tinha influência nos valores acordados, sugerindo apenas abaixar o preço da transferência ou aumentar o seu salário para convencê-lo a trocar de time. Aqui, apesar da primeira investida ser completamente dependente da IA, visto que é a equipe adversária que irá estabelecer um primeiro preço, é possível trabalhar as renegociações de uma forma mais direta, estabelecendo contrapropostas mais realistas e conseguindo estabelecer uma simulação interessante na divisão dos interesses do time em questão e do próprio jogador a ser comprado.

Tendo isso em vista, é notável também a dificuldade de concretizar as negociações de uma forma propriamente dita, a começar pelo fato de o país de destino para onde irá o jogador visado também influenciar na probabilidade da transação ser um sucesso ou não, criando uma verossimilhança maior com a realidade. Em termos simples, fica muito mais difícil um jogador europeu ser comprado no Brasil ou outro país sul-americano, por exemplo. Outro recurso interessante que foi incorporado no sistema de negociação e é fortalecido por essa diferenciação das vontades dos clubes e do futebolista é a possibilidade de pagar a multa de rescisão do contrato, da mesma forma que o PSG fez em relação ao Neymar. Assim, se o jogador tiver interesse, o time não vai poder ficar no caminho e impedir a transferência de se realizar.

Na prática, o resultado é a formação de uma dinâmica interessante na hora de montar o plantel do modo Master League. Fica bem mais complicado praticamente reformar o time todo em uma única janela de transferência, meio que forçando a tomada de decisões importantes, além de estimular a concepção de estratégias, como ter sempre uma carta na manga na hipótese de determinado futebolista pelo qual o jogador é obcecado simplesmente não querer trocar de time de jeito nenhum, forçando a contratação de um similar, o que exigiria, teoricamente, uma outra negociação correndo em paralelo e que esteja praticamente já engatilhada, principalmente nas últimas horas da janela.

Isso dá um dinamismo maior no modo Master League. O modo Rumo ao Estrelato, em que o jogador assume o papel de um futebolista individual, continua o mesmo. Há algumas alterações no modo MyClub, em que o jogador monta seu próprio time, misturando os mais diversos futebolistas de diferentes ligas no intuito de criar a sua própria equipe perfeita e jogar contra outros jogadores online, mas nada que realmente mude a forma de jogar.


Pouco caso com as parcerias

Ainda assim, não dá para jogar alguns problemas para baixo do tapete. Considerando que os times do Campeonato Brasileiro são um diferencial para o jogo, eu acho que seria válido da parte da Konami dar um pouco mais atenção a eles, principalmente às equipes exclusivas. Têm certas coisas que não fazem sentido, como é o caso do Cássio, goleiro do Corinthians, que está na melhor temporada da sua vida agora em 2017, ter seu overall diminuído em relação aos anos anteriores. Aliás, o nível dos times brasileiros é muito baixo como um todo. As classificações gerais dos jogadores poderiam ser um pouco maiores. Dessa forma, a liga brasileira passe a compensar a compra porque os jogadores daqui passem a oferecer mais competitividade em modos como o MyClub.

Considerando os prós e os contras, a experiência de jogo proporcionada por PES 2018 ainda é interessante. É claro que fica um pouco esquisito ver o Neymar em todo o material de divulgação (o que provavelmente vai fazer com que a Konami mude toda a estratégia de marketing nos próximos anos), visto que o Barcelona é o time-propaganda de capa, mas aos poucos isso vai sendo relevado porque o título em si acaba entretendo como um todo.

Prós

  • Times brasileiros licenciados;
  • Jogabilidade concisa;
  • Novidades no modo Master League.

Contras

  • Konami pouco se lixando para os times brasileiros com quem tem exclusividade;
  • Mais uma atualização do jogo anterior do que um jogo novo, de fato;
  • Atualizações dos times deveriam ser mais constantes.
Pro Evolution Soccer 2018 — PC/PS3/PS4/X360/XBO — Nota: 8.0 Versão utilizada para análise: PC
 Revisão: Ana Krishna Peixoto
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e está quase terminando sua pós-graduação para poder ser chamado de especialista em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa). Aficionado por conceitos teóricos, não vai perder uma oportunidade de usá-los para delimitar se algo é ou não um jogo. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular, onde utiliza suas presas para destilar seu veneno e não deixar o ódio dentro de si morrer.

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