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Análise: Observer (Multi), uma viagem por memórias fragmentadas

Cyberpunk de terror nos coloca contra nossos piores pesadelos.

Cyberpunk é um subgênero da ficção científica que por si só já possui aspectos distópicos assustadores, agora una essas características com o survival horror e teremos Observer (Multi), da Bloober Team. O título em primeira pessoa da desenvolvedora polonesa traz uma história complexa, assustadora e com grandes críticas ao uso excessivo da tecnologia.

2084 e a nanofagia

O jogo se localiza na Polônia de 2084, onde uma praga digital conhecida como Nanofagia matou milhares de pessoas e resultou em guerras e o uso de drogas. O jogador é o protagonista Daniel Lazarski, um detetive neural conhecido como Observador, encarregado de vasculhar a memória de seus alvos através do hackeamento dos implantes cerebrais que a população utiliza.

O enredo central faz referência a grandes clássicos literários e cinematográficos da ficção científica. Em um dos cômodos, é possível encontrar uma cópia do livro distópico 1984, de George Orwell. Outro exemplo é um dos personagens do jogo ter o sobrenome Sagan, menção ao cientista estadunidense Carl Sagan. O próprio desenrolar das histórias e algumas das ideias principais da trama lembram filmes como Controle Absoluto (D.J. Caruso, 2008) e Transcendence: A Revolução (Wally Pfister, 2014).


Surrealismo futurista

Os gráficos estão muito belos. A ambientação de um futuro decaído e solitário está impecável no quesito imersão. Durante todo o jogo você se sente na Cracóvia de 2084 e que reside nas mãos da Chiron, megacorporação que ascendeu ao poder na Polônia, o futuro da humanidade. O game é majoritariamente composto por cores escuras, contudo, durante a invasão dos implantes cerebrais somos levados a cenários surrealistas e psicodélicos das mentes de viciados, loucos e assassinos.

Devido ao uso de luzes fortes e variadas, Observer emite um aviso prévio para jogadores fotossensíveis. No meu caso, esse tipo de iluminação me causou dores de cabeça e cansaço nas vistas após algumas horas de jogatina. Então, se você for fotossensível ou desacostumado a esse tipo de iluminação (como eu), uma solução é ajustar os tons de cores para algo mais neutro e fazer intervalos regulares para descansar a visão.


O jogo faz um bom trabalho de terror psicológico. A forma e disposição de algumas alucinações lembram Alan Wake (X360/PC), da Remedy, em especial os DLCs The Signal e The Writer , cujas propostas são uma trama de apelo psicológico, repletas de televisores e a transmissão de programas bizarros.

Sendo Observador

A jogabilidade em primeira pessoa de Observer favorece o clima de tensão e confinamento ao qual o protagonista Lazarski é submetido. Todo o jogo se passa em um distrito paupérrimo de Classe C da cidade de Cracóvia. O detetive chega ao local para investigar uma misteriosa ligação de seu filho Adam, um executivo da Chiron que há anos não fala com o pai. Quando o protagonista chega ao local, o sistema de segurança é acionado e todo o distrito entra em confinamento.


Uma vez no distrito, a missão do jogador é investigar o crime cometido no apartamento de Adam, bem como uma série de missões paralelas que igualmente exigem a resolução de pistas e importantes tomadas de decisões. Para auxiliar na tarefa de investigação, Daniel Lazarski conta com a Visão Eletromagnética, para escanear dispositivos eletrônicos, e a BioVisão, que busca evidências biológicas de assassinatos ou acidentes.

Um ponto muito interessante e divertido da jogabilidade é a possibilidade de escolher que caminho tomar. Durante as missões secundárias, bem como no final do jogo, é dado ao jogador a opção de decidir o final de cada história. Assim, Observer possui dois finais distintos e o acréscimo de diferentes desfechos para as tramas paralelas do enredo.


O gameplay também é intenso e exige resoluções de puzzles como senhas e encaixe de itens corretos em determinados maquinários e portas. Em Observer, as respostas não são dadas com facilidade, obrigando o jogador a pensar e pesquisar no cenário a resolução correta para o empecilho que o impede de avançar. No mesmo sentido, o protagonista precisa tomar pílulas regularmente para manter a sanidade, então é importante vasculhar os cenários e coletá-las.

Outro fator louvável é o fato de Observer manter o mistério do assassino e de outros monstros ao longo de quase toda narrativa. O jogador escuta barulhos e vê vultos, mas nunca sabe o que ou quem o está perseguindo. Desse modo, você se acostuma tanto com o silêncio dos lugares que qualquer som de porta ou de um robô zelador limpando o corredor lhe faz saltar de medo.


Também nunca há o enfrentamento direto com as criaturas sinistras, cabe a Lazarski contornar a situação através de estratégias e sempre no modo silencioso. Por exemplo, nas fases que envolvem o uso do Devorador de Sonhos, o protagonista enfrenta um monstro específico cuja única forma de vencer é trilhar o caminho se escondendo.

Apesar de tantas qualidades, o jogo sofre com o atraso de carregamento de certos pontos de interação. Quando o jogador vai direto a determinado objetivo, muitas vezes o personagem não interage com o item ou cenário, obrigando o gamer a dar uma volta por outros lugares e então retornar para o caminho ou objeto que desejava, agora carregados e prontos para avançar.


Observer também possui casos de travamentos, porém eles são contornados inteligentemente pela estética do game. Repleto de efeitos de glitch e outras técnicas que fazem menção a interfaces tecnológicas, quando tais erros ocorrem em Observer é perfeitamente aceitável para o jogador que eles fazem parte do próprio jogo. Um jeito divertido e bem elaborado de camuflar o bug.

Rutger Hauer, a voz da sabedoria

Algo que não pode ser esquecido e muito menos deixado de ser mencionado é a dublagem e a recriação digital impecável do ator britânico Rutger Hauer. Não há como falar de Observer sem falar de Rutger Hauer, o ator simplesmente arrasa no papel do protagonista Daniel Lazarski. A voz de Hauer para o detetive é fenomenal e passa a sensação de cansaço e reflexão do personagem, cujo impacto reverbera através de frases e pensamentos que fazem o próprio jogador refletir sobre o uso excessivo da tecnologia.


Observer é um survival horror cyberpunk fenomenal e digno de reconhecimento. O game tem todo o potencial para se tornar uma obra cult do cenário de jogos eletrônicos e ser referência no gênero. Através de uma história reflexiva, um elenco fabuloso e gráficos horripilantes, o jogo é a opção certa para quem buscar algo mais do que diversão, mas pensar a sociedade.

Prós

  • Arte cyberpunk deslumbrante;
  • Atuação de Rutger Hauer;
  • Bom nível de desafio;
  • Diferentes finais para campanha principal e missões secundárias;
  • História inteligente e reflexiva;
  • Referência a ícones da ficção científica;
  • Sustos que causam medo.

Contras

  • Atraso de carregamento de pontos de interação;
  • Paleta de cores pode causar mal-estar em fotossensíveis.
Observer — PC/PS4/XBO — Nota: 10.0
Versão usada para análise: XBO
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

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