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Análise: Juanito Arcade Mayhem (PC) é mais do que uma simples homenagem aos games clássicos

Jogo consegue aproveitar a nostalgia dos títulos retro sem perder a originalidade.



O mercado de videogames vem sofrendo uma forte onda nostálgica nos últimos anos. Jogos que fizeram sucesso nas décadas de 1970, 1980 e 1990 estão mais atuais do que nunca e o público interessado por esse tipo de conteúdo só cresce. Não à toa, personagens das antigas são trazidos de volta e é cada vez maior a quantidade de lançamentos que utilizam os estilos gráficos de 8 ou 16-bits. No meio de tanta novidade retro, existem alguns títulos que conseguem mesclar a nostalgia com uma experiência inédita e Juanito Arcade Mayhem entra facilmente nesta lista que mistura passado e presente.


Desenvolvido pelo estúdio argentino Game Ever, o título está disponível para PC através da Steam. Na aventura, assumimos o papel de Juanito, garoto que tem a habilidade de jogar Space Invaders como se fosse profissional. A princípio, o dom da criança pode não parecer tão interessante, mas é por causa desse diferencial que ele é convocado pelo alienígena Gluk para salvar o mundo dos games antigos de uma invasão de clonocells - bolotas verdes e gosmentas. O enredo passa longe de ser profundo, mas, na verdade, o título nem precisa de uma história tão elaborada. Afinal, quais eram as tramas por detrás de Pac Man, Arkanoid ou Tetris? Assim como nos clássicos, Juanito Arcade Mayhem se destaca bem mais pelo seu fator diversão.
O campeão de Space Invaders

Atire para cima

Como Juanito é um dos melhores do mundo quando o assunto é Space Invaders, praticamente toda a jogatina utiliza as mecânicas desse clássico dos arcades. O personagem se movimenta somente para a esquerda e direita na tela e precisa atirar para cima e acertar as clonocells, que ficam pulando pelo cenário e vão se tornando mais perigosas com o prosseguimento da aventura. Cada missão é concluída após todos os inimigos serem eliminados. Além de sua arma, o garoto executa somente mais um movimento, que é a deslizada. Com isso, os controles se baseiam em quatro botões: o gatilho, a derrapada e mais dois de movimentos para um lado ou o outro.

Conforme a aventura vai se desenrolando, as fases exigem precisão cada vez maior nos movimentos. Mesmo nos momentos mais complicados, os controles não me decepcionaram e responderam perfeitamente àquilo que eu pretendia executar. No entanto, a ação de deslizar quase não é explorada pelo jogo e foram diversos os períodos que até acabei me esquecendo que existia tal possibilidade. Somente um dos chefões realmente me obrigou a ficar derrapando, no entanto, fora esse desafio, não é necessário dominar a técnica para superar os demais obstáculos.
O objetivo é acabar com as clonocells de todas as fases

Também senti falta de um botão para pular, pois com a possibilidade de saltar várias mortes seriam evitáveis, principalmente, quando as clonocells começam a atirar em direções diagonais. Mas, no geral, os controles são bastante simples e acessíveis, funcionando muito bem para superar os desafios apresentados pelo jogo.

Revisitando cenários antigos

A jornada para restaurar a tranquilidade no universo dos clássicos é dividida em oito mundos, sendo que cada um deles faz referência a algum game do passado. As missões passam por Tetris, Arkanoid, Adventure Island, Pac Man, Ice Climbers, Kung Fu, Pong e Donkey Kong. Dentro dos cartuchos existem nove fases que precisam ser concluídas antes de se enfrentar o boss na décima. Muito mais do que simplesmente servirem de cenário, cada mundo conta com características dos títulos que os inspiram.

Por exemplo, no cartucho de Tetris é preciso derrotar as clonocells e, ao mesmo tempo, ter cuidado com as peças que vão descendo do topo da tela. Já em Pac Man, os inimigos só podem ser aniquilados quando o personagem consome as grandes pílulas de energia. Assim, quem conhece os games antigos e está familiarizado com suas mecânicas, vai ter certa vantagem ao se arriscar em Juanito Arcade Mayhem.
Pega essa referência


O aproveitamento das características dos jogos antigos é fundamental para evitar que o game se torne cansativo ou enjoativo. Como as missões se baseiam em simplesmente acabar com as clonocells, ter o desafio extra proporcionado pelo mapa é importante para criar obstáculos diferentes de um mundo para o outro. Assim, há variações na jogabilidade e a vontade de prosseguir é constante. Durante toda minha experiência eu fiquei bastante curioso para saber como as coisas se desenrolariam no próximo cartucho a ser visitado.

O uso de conceitos do passado só não foi totalmente explorado nos chefões de cada mundo. Todas as lutas contra boss são bastante desafiantes e divertidas, apesar de serem muito semelhantes entre elas. Para vencê-los, Juanito deve acabar com as clonocells e evitar seus ataques especiais. A única batalha em que essa mesmice é quebrada e acontecem alterações significativas no gameplay é no cartucho de Pong, em que o confronto consiste em uma partida do jogo contra a máquina. Seria bastante interessante se isso fosse mantido nos outros mapas, por exemplo, em Donkey Kong tentar resgatar Pauline enquanto escalamos as plataformas ou em Pac Man procurar os fantasmas no labirinto.
Encontrando Donkey Kong no mundo de Tetris?

Nada de engasgar

Durante toda a jogatina, será comum fases com quantidades absurdas de clonocells. Me chamou atenção que mesmo nesses momentos em que existiam dezenas de elementos se movimentando na tela, o jogo não perdeu desempenho nenhum. É comum nos videogames ocorreram quedas de framerate quando aumentamos demais o número de objetos em cena, porém isso foi algo que não aconteceu em Juanito Arcade Mayhem.

Admirável mundo novo

O que mais me agradou foram as excelentes direções artística e sonora. O game tem visual de desenho animado, com quadro de movimentos tão completos que dá impressão de que realmente estamos assistindo a uma animação na TV ao invés de estar jogando. É interessante perceber também que enquanto o personagem principal tem cores vivas e movimentos fluidos, os cenários são mais opacos e sem vida. Deixando bem claro que Juanito é um estranho no ninho dentro daquele mundo.

A grande lição que o game deixa para outros projetos que pretendem surfar na onda retro é que esse tipo de jogo não precisa, necessariamente, apostar sempre em pixel art. O estilo gráfico que tenta trazer o passado de volta tem sim seu charme, mas está sendo demasiadamente explorado por títulos que querem ter um visual mais antigo. Juanito Arcade Mayhem prova que é possível homenagear muito bem os clássicos sem precisar ser parecido com eles.
Até existe uma fase com a temática bug


A trilha sonora do jogo segue o capricho da parte visual. Todas as músicas são remixagens dos temas originais de cada clássico. Vale muito a pena repetir a mesma fase por mais de uma vez para ficar ouvindo as novas versões das antigas composições.

Um toque de humor

O nível de dificuldade de Juanito Arcade Mayhem varia entre moderado e difícil. Em algumas das fases, fiquei encalhado por algum tempo até conseguir concluí-las. Em nenhum momento senti necessidade de diminuir o nível de dificuldade, no entanto é possível colocar o jogo no fácil se alguma parte parecer intransponível.

Além da habilidade, muitas vezes, o jogador precisa contar também com a sorte para receber no momento certo alguns itens que melhorem as habilidades. Os materiais, que vão sendo desbloqueados conforme o avançar da jogatina, são indispensáveis para o sucesso na jornada e surgem de maneira completamente randômica.
Uso de armas especiais, como o laser, é fundamental para o sucesso


Para aliviar um pouco a tensão de ficar encalhado em determinado trecho, o game está repleto de piadinhas bem engraçadas. Por exemplo,na primeira aparição de um certo gorilão, ele diz que se chama Trevor e o alien Gluk complementa: “Achei que seu nome fosse outro, mas entendo que não queira violar os copyrights”, se referindo a prática da Nintendo de perseguir qualquer uso sem autorização de suas propriedades. Em outro momento, quando surgem inimigos de gelo e fogo, o extraterrestre questiona se eles não estão perto de encontrar um trono de lâminas, em clara alusão às Crônicas do Gelo e do Fogo.

De volta para o futuro

O game conta com sistema de estrelas nas fases. Dependendo de seu desempenho, você recebe de um a três ícones por etapa concluída e para desbloquear os mundos seguintes é preciso colecionar certa quantidade desses itens. Depois de finalizar o game pela primeira vez, a tarefa secundária é conseguir todas as estrelas disponíveis, o que vai ficando mais fácil conforme novas armas são desbloqueadas. Outro modo liberado após o encerramento é o Hard, em que o personagem tem apenas uma vida para conseguir acabar com as clonocells.
Mais três estrelas para conta


Já quem não estiver afim de reviver toda a aventura, o game oferece um modo de sobrevivência. Quanto mais tempo o jogador consegue deixar Juanito vivo, melhor será a pontuação conquistada. Os números podem ser comparados com os de outros jogadores através de um ranking online. Além disso, o título apresenta uma extensa lista de conquistas para serem desbloqueadas na Steam. Para quem gosta de completar 100% de seus jogos, Juanito Arcade Mayhem representa facilmente mais de 15 horas de diversão.

Viva o passado!

Em um mercado repleto de games autodenominados retros e cheio de remakes, é bom quando surge algo que foge da mesmice. O título consegue se destacar não por ter criado a roda, mas sim por encontrar outra maneira de fazê-la se movimentar. A simples iniciativa de reciclar e misturar mecânicas que fizeram sucesso no passado, adicionando gráficos e trilha sonora atualizadas, é o suficiente para ter como resultado um projeto original. Juanito Arcade Mayhem é mais do que recomendado tanto para quem ama os jogos retro quanto para aqueles que preferem algo mais moderno.


Prós

  • Animações e trilha sonora extremamente caprichados;
  • Controles simples e que respondem muito bem;
  • Mecânicas de domínio fácil, porém divertidas e viciantes.

Contras

  • Batalhas contra boss poderiam explorar melhor as características dos clássicos;
  • Movimento de deslizamento pouco aproveitado.
Juanito Arcade Mayhem — PC — Nota: 8.5
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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