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Análise: Tokyo 42 (PC) e sua elegância visual

O elegante jogo da SMAC Games traz proposta visual impressionante em meio à mecânicas e narrativa mornas.

São bastante interessantes as possibilidades que surgem das diferenças que cinematografia e videogames possuem em relação à obras visuais estáticas. Com um corte, movimento de câmera ou um simples clique, a composição da imagem mostrada se altera, mudando a perspectiva e talvez nos revelando coisas novas sobre aquele mundo e suas personagens.




Não que a pintura não tenha proposto alterações ou sequências que criem uma narrativa. Um dos exemplos são as obras feitas em trípticos, que geralmente são três painéis em sequência, com os dois mais externos podendo encobrir parte ou toda a pintura do central, e com a possibilidade de que fechado uma outra pintura apareça. Pense em uma janela, existe ela fechada:


E aberta:


Essa breve “viajada”, tomando O Jardim das Delícias Terrenas, de "El Bosco", como exemplo, seria bastante inútil não fosse o principal aspecto de Tokyo 42 durante minha experiência justamente a possibilidade de brincar com a perspectiva e procurar mais da cidade a cada virada de câmera. Tokyo 42 é visualmente elegante e empolgante, e com certeza é esse aspecto que eu vou me lembrar daqui há alguns anos, já que tudo que existe no gameplay é bastante morno.

A reimaginação isométrica de Tóquio em 2042 cativa e atiça a curiosidade. O jogo consegue passar a sensação de uma grande metrópole, mesmo com um mapa de interação razoavelmente reduzido (não que seja pequeno). Entre grandes edifícios e complexos coloridos, surgem pequenos parques ou feiras ao ar livre. Templos, distritos comerciais e um bom fluxo de carros voadores completam a imagem da cidade.


A cada movimento de câmera, podemos pescar mais do que há nessa cidade. Isso se alia ao uso do binóculo para procurar colecionáveis, equipamentos extra e, principalmente, para olhar bem a formação dos inimigos em um local que você precisa atravessar ou realizar uma missão. Mas para além dessas preocupações puramente “videogueimísticas”, eu sempre tentava encontrar uma nova perspectiva daquela Tóquio.

Um casal conversando e olhando a cidade de um parapeito; o interior de uma casa; a movimentação das pessoas em um parque. Possivelmente eu seja um jogador estranho, já que me atrai muito mais pelo caráter visual “estático” da coisa, do que pelas interações proporcionadas pelas missões e atividades. Mas foram essas interações quietas com o mundo justamente o que me marcou.


De qualquer forma, há uma quantidade razoável de atividades para serem realizadas em Tokyo 42. Além das missões principais e secundárias, existem as missões para ganhar reputação junto ao grupo dos assassinos, bem como corridas de moto, buscar colecionáveis e acessar os locais mais remotos da cidade pulando de carro em carro voador.

É possível abordar as missões de formas diferentes, leia-se, ou tornando o jogo um bullet hell ou agindo na furtividade. Para qualquer uma dessas abordagens (ou para uma mais mista), é essencial alternar a câmera e compreender o ambiente a sua volta. Mas se na contemplação da cidade a mudança de perspectiva é tranquila, no calor da ação ela se torna um pouco travada e confusa.

Com um arsenal variado, a opção por ser furtivo ou ser um exército de um só acaba dependendo muito mais do que você quer fazer no momento, ainda que a opção furtiva seja relativamente mais segura, já que em muitas missões existem checkpoints pelo caminho. A ideia aqui é identificar a rotina dos guardas e inimigos, para então planejar sua rota, assassinando ou não os guardas para enfim chegar ao alvo.


A opção violenta, entretanto, acaba sendo mais recompensadora. É bacana ver a chuva de balas diminuindo conforme vamos acertando os inimigos com nossas metralhadoras, pistolas, granadas ou snipers.

A maioria das armas funciona muito bem, com um destaque maior para as granadas e armas de longa distância, já que estas variedades casam bem com a ideia de conhecer bem o ambiente em que estamos e no qual travaremos a batalha, além de colocar em uso aquela prática interessante de ir olhando a cidade para identificar pontos de interesse. A partir daí é preciso desviar e se esconder da chuva de balas e retribuir com o que há de melhor em seu arsenal.


Toda essa matança à céu aberto só é possível porque o mundo de Tokyo 42 possui uma especificidade: as pessoas podem tomar uma pílula que faz com que elas voltem da morte um tempo depois do ocorrido. Essa é a desculpa para o jogador voltar nos checkpoints, além de um ponto que perpassa toda a trama central.

As missões principais colocam o jogador em contato com o submundo de Tóquio e com os temidos assassinos, mas também com grandes corporações e figurões. Controlamos uma personagem que é acusada de um assassinato que não cometeu, e que a partir daí precisa se infiltrar na associação dos assassinos para desvendar o mistério. Naturalmente muito mais entra em cena.


Algumas missões paralelas e secundárias nos apresentam melhor outros personagens e situações, e brincam um pouco com a situação da cidade. Encontramos diferentes personagens e facções que lidam de formas distintas com a pílula que “ressuscita”. Todas essas atividades propõem diferentes desafios, mas não alteram muito a forma como o jogo funciona, o que acaba trazendo uma dose de repetição que cansa. Esse cansaço só não é maior dado o tamanho correto da campanha.

Mesmo com essa premissa interessante do enredo, a narrativa de Tokyo 42 também nunca vai além dos tons mornos das mecânicas e sistemas. Não existe uma conexão profunda entre jogabilidade e trama, o que poderia acontecer de formas mais interessantes a partir da ideia da pílula, e o próprio enredo vai sendo levado através de diálogos que pouco me prenderam.


Tokyo 42 é um empreendimento visual extremamente competente, mas um que nos traz interações jogáveis e narrativas que dificilmente vão ficar na memória, já que não são nem um desastre, e nem exatamente boas. É interessante ver essa Tóquio de 2042 imaginada, e olhar os seus diferentes cantos, mas parece que as atividades são apenas uma desculpa para que continuemos a olhar um quadro móvel.

Prós

  • Visual elegante e atrativo;
  • Uma Tóquio de 2042 interessante e com boa premissa;
  • Arsenal de armas que agrada;
  • O jogo sabe não se estender mais do que deve.

Contras

  • Câmera “travada” durante momentos de ação;
  • Narrativa e mecânicas são mornos e sem muito brilho.
Tokyo 42 — PC — Nota: 7.0
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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