Os 25 anos de Virtua Racing e seu legado para os jogos de corrida em 3D

Clássico dos arcades e consoles dos anos 1990, primeiro título tridimensional da Sega mostrou o potencial do realismo no gênero.




Se você é um daqueles jogadores que eram fascinados pelas máquinas de fliperama (arcades) que enchiam os shoppings e lojas de eletrônicos dos anos 1990, deve se lembrar da emoção que era quando entrávamos nas cabines dos jogos de corrida, totalmente adaptadas com aceleradores, freios, direção e até mesmo apresentando o formato dos veículos. Uma maravilha para as crianças e um prejuízo considerável em fichas para os pais.


No meio desses aparelhos magníficos, havia uma máquina que apresentava um jogo de corrida da Sega com carros de Fórmula 1 em perspectiva 3D. Estamos falando de Virtua Racing, título de 1992 que marcou a infância de muita gente, seja nos arcades ou na versão para Mega Drive, e que comemora 25 anos em 2017. Neste especial, iremos nos aprofundar na história e nas contribuições do game para gênero, bem como suas adaptações para os consoles da casa de Sonic. Pise fundo no acelerador e embarque nessa viagem pelos primórdios dos jogos de corrida em 3D.

A evolução que redefiniu os jogos de corrida

A máquina original era o Sega Model 1 e foi a primeira a oferecer jogos totalmente desenvolvidos com tecnologia 3D, muito além do que a Sega já fazia em títulos que apresentavam o chamado “3D falso”, com sprites em 2D mudando de tamanho na tela. Também foi o primeiro arcade da empresa a utilizar a nomenclatura Virtua, que posteriormente se tornaria mais popular com o lançamento de Virtua Fighter, Virtua Cop e Virtua Tennis. Bons tempos ein!

Bateu aquela vontade de jogar em uma dessas, não é?
Em Virtua Racing, era possível correr em três circuitos diferentes, cada um representando um nível de dificuldade (Begginer, Medium e Expert), competindo com outros 15 veículos controlados pela inteligência artificial. Outra característica herdada das máquinas da Sega era o contador de tempo na tela e a inserção de checkpoints.

Bater em obstáculos ou em outros veículos ocasionava pequenas animações do carro perdendo velocidade ou rodando na pista. O modo multiplayer possuía o sistema rubber banding, no qual os veículos que estivessem atrás do líder tinham desempenho melhor na corrida.

A primeira tentativa da Sega nos jogos 3D rendeu o sucesso que Virtua Racing se tornou nos arcades
Mas o que afinal Virtua Racing trouxe de novo aos jogos eletrônicos? O uso de gráficos 3D poligonais já não era novidade para outras desenvolvedoras, como a Namco e seu Winning Run (1988) e a Atari, que lançou Hard Drivin’ em 1989. A contribuição do título da Sega –– além de ter tido a participação do designer Yu Suzuki, o mesmo que projetou o aclamado Out Run (1986) –– alcançou novos horizontes na evolução do gênero.

Em termos de contagem poligonal e de elementos em 3D na tela, Virtua Racing superou seus concorrentes, bem como aprimorou a resolução de veículos e cenários e apresentou aos jogadores o sistema de troca dos ângulos de câmera com quatro opções que alternavam de acordo com a proximidade do carro em relação à pista, inclusive a visão em primeira pessoa. Hoje é praticamente impossível imaginar os jogos de corrida sem essa mecânica.

O título foi um dos primeiros a utilizar o sistema de troca de câmera durante as corridas
Outro elemento importante foram os NPCs (non-player characters) estruturados totalmente em 3D. Eles geralmente apareciam momentos antes da corrida, quando a animação mostrava os mecânicos fazendo os últimos ajustes no carro para o início da prova. A união desses elementos ajudou muito a popularizar os jogos que trabalhavam a perspectiva tridimensional, servindo de base para títulos futuros, como o próprio Virtua Fighter.

Os NPCs eram estruturados totalmente em 3D, uma novidade para a época
Um dos fatores que mais se destacaram em Virtua Racing foi o trabalho da Sega em relação à sensação de velocidade. Enquanto os títulos das outras desenvolvedoras apresentavam o 3D com veículos um tanto quanto lentos na pista, Virtua Racing era capaz de oferecer uma experiência a 60 frames por segundo (FPS) de modo fluido e altamente imersivo. Jogadores que optassem por jogar com uso de transmissão manual –– com câmbio de sete marchas –– certamente tinham uma experiência inesquecível. Após o título da Sega, os jogos de corrida que propunham uma jogabilidade em 3D sabiam exatamente em quem se inspirar.

Progressão fluida e muita velocidade, principalmente ao jogar com câmbio manual

Cabines e mais cabines

O sucesso foi tanto que Virtua Racing manteve sua popularidade por vários anos em diferentes versões, sendo inclusive nomeado para o Game Awards de 1992 no Japão nas categorias de melhor jogo de ação, melhor direção e melhores gráficos. Só não recebeu a premiação pois havia concorrentes de peso entre os arcades da época, a exemplo de Street Fighter II: Champion Edition e Art of Fighting.

Versão de luxo trazia cabine especial com tela widescreen e utilização de airbags para tornar a experiência mais realista
A versão mais popular de Virtua Racing trazia uma cabine dupla, permitindo aos jogadores ter uma experiência conjunta do game, mas outros modelos também ofereciam a cabine única. O diferencial estava mesmo por conta da Virtua Racing Deluxe Cabinet Type, versão de luxo com tela widescreen e o uso de 6 airbags que inflavam de acordo com as curvas praticadas pelo jogador, além de um airbag extra para o efeito de frenagem.

Se isso já era muito, Virtua Formula, versão mais parruda de Virtua Racing, lançada em 1993, trazia a experiência definitiva com uma réplica de carro de Fórmula 1 acoplado a uma tela de 50 polegadas. Sim, estamos imaginando a sensação de estar sentado numa dessas.

A Sega sabia exatamente como mexer com nossos desejos
Todas as versões de arcade podiam ser ligadas por cabos de fibra óptica até um total de 8 jogadores, com direito a telas extras fixadas acima das cabines e que mostravam replays de cenas empolgantes ou como estava o andamento da corrida. Pura ostentação!

A chegada ao Mega Drive

Não demorou muito para que a Sega desenvolvesse uma versão de Virtua Racing para consoles. Em plena guerra contra a Nintendo, as duas desenvolvedoras lutavam ao máximo para trazer títulos que apresentassem o efeito 3D no SNES e Mega Drive. Como ambos os consoles de 16-bits não conseguiam processar tamanha informação, a solução foi adaptar o código dos jogos aos famosos chips que turbinavam as capacidades dos aparelhos.

A disputa entre Sega e Nintendo deixou sua marca no desenvolvimento dos primeiros jogos em 3D para consoles
Em 1993, a Nintendo lançou Star Fox (SNES) e obteve muito sucesso ao conseguir apresentar de forma satisfatória a renderização de polígonos com a ajuda da tecnologia Super FX, desenvolvida num chip que vinha acoplado no interior do cartucho. Tal estratégia não era novidade no mercado, pois a própria Nintendo já havia utilizado chips do tipo na era NES através dos Memory Management Chips (MMCs) que permitiam efeitos de tela dividida em Super Mario Bros. 3 e melhorias em Castlevania 3.

Como resposta, a Sega desenvolveu o Sega Virtua Processor (SVP) para dar mais poder de processamento ao Mega Drive e equilibrar a disputa. Um fator considerado negativo pela empresa, contudo, era o alto custo para o desenvolvimento dos chips na época, tanto que a casa de Sonic criticava a Nintendo por inserir tal tecnologia em seus jogos e lançá-los a preços acima do padrão de mercado. O cartucho de Donkey Kong Country (1994), por exemplo, era vendido a 70 dólares nos EUA. Para efeito de comparação, o salário mínimo no Brasil era de 65 reais no primeiro ano do Plano Real, quando a moeda valia o mesmo que o dólar.

Apesar do preço salgado, a versão de Virtua Racing para Mega Drive chegou em 1994 com o uso do chip SVP
Mesmo com as dificuldades de custo, a Sega seguiu em frente e lançou, em março de 1994, a versão de Virtua Racing para o Mega Drive com uso do chip SVP. Menos potente que a versão arcade, o jogo rodava bem no console, que conseguia renderizar 6,5 mil polígonos por segundo com ajuda da força extra, bem como utilizar efeitos de programação que o permitiam simular mais cores do que o próprio hardware era capaz de apresentar.jamais se dedicou a manter os investimentos no chip para baratear os custos de produção ou inseri-lo em outros jogos. Em vez disso, a empresa lançou um periférico que dava mais poder de fogo ao Mega Drive: o 32X, que também recebeu uma versão de Virtua Racing.

Embora menos potente que nos arcades, a versão para Mega Drive fez bem ao conseguir processar gráficos tridimensionais

Versões para 32X e Saturn

A versão de Virtua Racing para o Sega 32X, chamada Virtua Racing Deluxe, chegou às lojas poucos meses depois que o título para Mega Drive, e

No entanto, o preço do título nas lojas chegava a incríveis 100 dólares, vendendo pouco mais de 260 mil unidades no Japão. Um fato curioso é que a Sega, por mais promissora que a tecnologia SVP significava no início da era dos jogos 3D, m outubro de 1994. O ganho considerável de hardware através do acessório permitia ao console rodar Virtua Racing quase em pé de igualdade com a versão de arcade, além de incluir dois novos veículos e dois novos circuitos (Highland e Sand Park).

No 32X, a Sega inseriu mais pistas, veículos e deixou a versão bem próxima do que era oferecido no arcade
A adição de 16-bits extras ao Mega Drive realmente fez bem para Virtua Racing Deluxe. Maior fluidez nas corridas, mais cores e jogabilidade superior à versão lançada meses antes. Muitos o consideram o port definitivo de Virtua Racing nos consoles e o jogo que os fãs esperavam que o Mega Drive fosse capaz de rodar sem a ajuda do acessório.

Ainda em 1994, a Sega colocou mais uma carta na mesa: o lançamento do Saturn, que oferecia um hardware totalmente dentro da geração 32-bits e compatibilidade com CD-ROMs. Não demorou muito para que Virtua Racing fosse levado ao novo console em sua versão Virtua Racing Saturn (1995).

Lançado em 1995, Virtua Racing Saturn apresentou melhorias na jogabilidade e adicionou novos conteúdos
O título trouxe a inclusão de mais dois circuitos, totalizando sete provas, e quatro novos veículos. Dessa vez, o jogador podia acessar o modo Grand Prix para correr as pistas e acumular pontos. A novidade ficou por conta de um CD com a trilha sonora do game.

Os veículos especializados da época parabenizaram a Sega pelas capacidades que o Saturn pode oferecer à quarta versão de Virtua Racing. Em 1996, o título apareceu na lista dos 100 melhores jogos de todos os tempos da revista americana Next Generation. A também americana IGN classificou Virtua Racing entre os 10 jogos de corrida mais influentes, atrás apenas de Pole Position (Arcade, 1982) e Gran Turismo (PS, 1997).

Legado

Apesar de não exibir o primor gráfico que a tecnologia 2D conseguia em meados dos anos 1990 –– numa época em que os jogos tridimensionais iniciavam seu processo de evolução –– o título 3D de Fórmula 1 da Sega mostrou que era possível oferecer uma experiência muito próxima das corridas reais. Isso definitivamente atraiu os olhares de muita gente e revelou o potencial dos jogos tridimensionais não apenas para o gênero de corrida, mas para toda a cultura dos videogames.

Após Virtua Racing, a Sega manteve a fórmula e colocou no mercado um de seus títulos de corrida mais famosos: Daytona USA (Arcade, 1993), praticamente absorvendo os elementos de sucesso do predecessor, mas com uma roupagem tridimensional mais bem trabalhada.

Sucessor de Virtua Racing, Daytona USA teve enorme sucesso nos anos 1990 e é um dos mais lembrados pelos jogadores
A fama desses jogos praticamente invadiu os arcades e consoles ao longo da década, com outras desenvolvedoras lançando suas versões em 3D para Ridge Racer (Arcade, 1993), Cruis’n USA (Arcade, 1994), The Need for Speed (Multi, 1994), Destruction Derby (Multi, 1995) e Wipeout (Multi, 1995).

O próprio Virtua Racing retornou aos consoles em 2004 como parte da série Sega Ages 2500 sob o nome Virtua Racing: FlatOut no Japão e incluso no Sega Classics Collection nos EUA e Europa em 2005, ambos lançados para PS2.

Em 2005, Virtua Racing ganhou melhorias e chegou ao PS2 em versões comemorativas de clássicos da Sega
E o legado do jogo não parou por aí. Nos últimos anos, vários projetos que buscavam resgatar o estilo dos jogos de corrida dos anos 90 chegaram às mãos dos jogadores. Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Aquiris, Horizon Chase (Multi, 2015), que traz uma verdadeira homenagem aos jogos daquela época, sobretudo em relação à série Top Gear (SNES), utiliza efeitos com gráficos poligonais bem semelhantes aos cenários de Virtua Racing.

A Lucky Mountain Games, fundada por Trevor Ley, ex-funcionário da EA, Sony e Rockstar, planeja levar ao Switch o verdadeiro sucessor espiritual de Virtua Racing: Racing Apex. O título traz de volta todos os efeitos e cenários poligonais do game da Sega em grande estilo, aliado às mecânicas de jogabilidade atuais. Ainda não há uma data de lançamento confirmada. Produzido desde 2016, o jogo também terá uma versão para Wii U.

Racing Apex promete trazer de volta a nostalgia dos clássicos da década de 1990, com forte inspiração em Virtua Racing
Desembarcando de nossa viagem, fica o agradecimento à Sega por ter nos proporcionado ótimas experiências com Virtua Racing e ter mostrado o caminho a ser seguido para a evolução dos jogos de corrida em 3D. E você leitor, tem alguma lembrança de Virtua Racing? Não deixe de compartilhar sua história e nos revelar, caso saiba, se ainda existe alguma cabine desse clássico escondida em algum canto do Brasil.

Revisão: João Paulo Benevides
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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