Discussão

O retorno de Atari, Mega Drive, SNES e a batalha pela nostalgia

A reapresentação de consoles consagrados certamente chama atenção, mas também gera dúvidas sobre o que esperar no futuro.




A onda da nostalgia tomou conta dos videogames com o retorno de consoles que fizeram a alegria de muitos jogadores dos anos 1980 e 1990. Hoje, Atari, Mega Drive, NES e SNES possuem suas versões readaptadas para o século XXI, com potencial para atrair o público de antes e também como forma de apresentar grandes clássicos das eras 8/16-bits a uma nova geração. É claro que essa realidade já era possível com os serviços que disponibilizam jogos antigos em formato digital para os atuais consoles, mas o que vemos agora é um forte apelo ao fator nostálgico do hardware e como essa estratégia pode influenciar de forma positiva ou não o mercado de games no futuro.


De volta ao lar

De tempos em tempos, a indústria em geral traz de volta produtos que tiveram grande sucesso no passado ou reciclam ideias antigas para atrair novos consumidores. A prática é mais comum do que imaginamos. Seja na moda com calças, jaquetas e sapatos, no cinema com o reboot de diversos filmes ou até mesmo na música com o recente anúncio da Sony sobre a retomada da produção dos discos de vinil após quase 30 anos. Ao mesmo tempo em que a tecnologia evolui e oferece dispositivos cada vez mais rápidos e potentes, percebemos que uma boa parcela do público ainda encontra lugar para reviver experiências marcantes.

No caso dos videogames, temos uma história relativamente curta em comparação a outros tipos de mídia, porém não menos geradora de bons conteúdos, alguns deles aclamados por terem sido a base que sustenta até hoje a estrutura de diversos gêneros. Lançado no final de 2016, o NES Classic Edition provocou uma verdadeira corrida entre os aficionados pelo console 8-bits da Nintendo. O aparelho traz 30 jogos na memória, entre eles clássicos como Super Mario Bros., Metroid, Pac-Man e The Legend of Zelda. A parte triste é que poucas unidades foram produzidas e muita gente ficou sem ou o encontram hoje a preços exorbitantes na internet.

O Mini NES provocou correria e infelizmente sua produção já vem sendo descontinuada
No mês passado, a Tectoy relançou no Brasil o Mega Drive com 22 jogos na memória (incluindo Sonic 3, Alex Kidd e Altered Beast) e também com entrada para os cartuchos originais. Outra versão, o Sega Genesis Flashback, chega em setembro deste ano aos EUA com 85 títulos na memória e suporte ao cabo HDMI para resolução de 720p. Outra jogada de peso da Sega foi oferecer para celulares uma coletânea de títulos retrô gratuitos. O programa Sega Forever tem em sua primeira leva jogos como Sonic The Hedgehog, Altered Beast, Phantasy Star II, Kid Chameleon e Comix Zone e pretende disponibilizar ainda mais jogos no futuro.

A Tectoy também trouxe ao Brasil o Atari Flashback 7, que é o relançamento do saudoso Atari 2600 com 101 jogos inclusos na memória. A lista contém bons títulos, como Asteroids, Space Invaders, Pong, Jungle Hunt, Front Line e Frogger, embora outros tenham ficado de fora, como foi o caso de Pitfall e Enduro. Uma versão portátil também chegou ao mercado: o Atari Flashback Ultimate Portable, com tela de 3,2 polegadas, 60 jogos na memória e suporte para cartão SD. A linha Atari Flashback é desenvolvida pela empresa desde 2004.

O Atari Flashback 7 é uma verdadeira viagem no tempo

O poder das boas lembranças

É fato que a nostalgia se tornou um investimento rentável e praticamente seguro. Os projetos estão todos já prontos e basta adaptá-los ao mercado atual. Até mesmo planos cancelados há décadas podem receber uma nova luz e tornarem-se realidade. Este foi o caso do anúncio de Star Fox 2, título inédito que sairá direto dos arquivos da Nintendo para fazer parte da compilação de 21 jogos presentes no SNES Classic Edition. O pacote chega às lojas em setembro e a “novidade antiga” certamente chama atenção.

Finalizado, mas nunca lançado, Star Fox 2 coloca nas alturas a expectativa para o SNES Classic Edition
Muitas vezes sem a pretensão de se arriscar em altos investimentos para a criação de novas IPs ou mecânicas de jogo inovadoras, as empresas preferem investir em terrenos consolidados. Ainda existe um público significativo disposto a adquirir títulos lançados para plataformas datadas, seja uma versão portada para um console de nova geração ou os já conhecidos remakes e remasters de sucessos consagrados, a exemplo do alvoroço causado pela Square ao anunciar o retorno de Final Fantasy VII. O remake do título chega com exclusividade temporária ao PS4, mas ainda sem data definida.

Outra movimentação interessante tem sido o apoio direto aos desenvolvedores, via financiamento coletivo, para o lançamento de sequências de jogos antigos. Vimos isso acontecer com Shenmue 3 e sua incrível campanha no Kickstarter, que arrecadou mais de US$ 6 milhões. Quando lançado, em 1999 para Dreamcast, o primeiro título havia vendido pouco mais de 100 mil cópias.

Shenmue 3 e o efeito da nostalgia como impulsionador de campanhas para dar sequência a clássicos do passado
O desejo em sentir novamente a experiência da infância ou juventude vai de encontro ao anseio das empresas em reapresentar conteúdos como forma de garantir a satisfação dos nostálgicos e ao mesmo tempo introduzir títulos consagrados a uma nova audiência, afinal de contas, o público mais jovem de hoje será o público consumidor de amanhã. Muitas vezes, os pais introduzem os filhos aos videogames a partir das mesmas experiências que tiveram na infância, seja mostrando um jogo de Atari ou em partidas de Sonic The Hedgehog (Mega Drive) e Super Mario World (SNES). Tais jogos continuam até hoje convidativos a qualquer tipo de jogador e até mesmo a não jogadores.

As aventuras antigas do bigodudo muitas vezes são passadas de pai para filho, assim como outros títulos consagrados das gerações 8/16-bits
A própria Atari, em teaser anunciado no mês passado, prepara-se para retornar ao mercado com um novo console, até então chamado de Atari Box. Seria essa uma verdadeira máquina do tempo que reúne todo o conteúdo já publicado pela empresa num único console? Aparelhos do tipo existem aos montes no mercado informal, mas essa poderia ser a primeira investida oficial de uma empresa de games ao reunir em um só aparelho a coletânea de vários consoles, algo que tornasse a retrocompatibilidade um fator altamente atrativo. E por se tratar de um produto oficial, a nostalgia não teria limites entre os aficionados, podendo até mesmo chegar ao ponto da retomada da produção de cartuchos (quem sabe?), a exemplo do que acontece com o vinil.

Medida semelhante vem sendo adotada na geração atual com a Microsoft ao oferecer a possibilidade de jogarmos títulos do Xbox Original na linha Xbox One, que já é compatível com diversos títulos de X360. Tal estratégia pode vir a criar no futuro máquinas que sejam totalmente compatíveis com jogos de qualquer aparelho antecessor, independentemente das gerações, diferentemente da realidade que temos hoje, por exemplo, com o PS4, que não aceita os discos do PS3 devido à grande diferença na estrutura de programação dos jogos e arquiteturas de hardware.

A retrocompatibilidade da linha Xbox One com X360 e o Xbox original mostra o potencial que a nostalgia pode oferecer a longo prazo

Desafio à frente

O efeito da nostalgia nos games proporciona lembranças muito mais intensas que qualquer outra forma de mídia devido a seus fatores imersivos e participativos. Derrotar Ganon em The Legend of Zelda: Ocarina of Time (N64) ou sentir a aflição de Jill Valentine ao ser perseguida por Nemesis em Resident Evil 3 (PS), juntamente com a forma de jogar de anos atrás, são experiências atemporais. Podemos também nos lembrar da companhia dos amigos e familiares que estavam conosco nesses momentos. É justamente o efeito da memória que construímos que torna cada título ou aparelho de videogame algo inesquecível.

O problema, contudo, é que o mercado da nostalgia pode enfrentar grandes obstáculos no futuro. A começar pelo público que hoje consome esse tipo de conteúdo. Segundo estatísticas da Entertainment Software Association, a idade média do jogador típico de videogames no início dos anos 2000 estava entre os 25/30 anos. Hoje está em 35 anos. Na maioria dos casos, são pessoas que compartilham a vida gamer com as responsabilidades do trabalho e família.

Aquele momento em que o braço arrepia e o destino do mundo está em nossas mãos. A nostalgia é mais intensa nos videogames
Do outro lado, os novos jogadores estão em contato com diversos tipos de conteúdo e vários dispositivos eletrônicos ao mesmo tempo, sendo os videogames apenas uma parcela deles. Com mais distrações e preocupações para tomar o tempo, o resultado é que atualmente 90% das pessoas que começam a jogar algum título não o jogarão até o final, principalmente se forem jogos com campanhas acima de 30 horas, ou seja, boa parte dos grandes lançamentos.

Tal observação vem sendo feita há anos pelos próprios departamentos de produção de grandes desenvolvedoras, como Konami, Capcom, Activision e Sega. Sem terminar os jogos ou manterem um contato duradouro, esses jogadores poderão interromper o ciclo da criação de novas memórias e experiências marcantes, a base que sustenta a nostalgia. 

Se hoje temos o ressurgimento de SNES e Mega Drive, o que justificaria, daqui a 15 ou 20 anos, para as empresas, investir em um PS4 Classic Edition ou num Switch Retrô se pouquíssimas pessoas tivessem chegado ao final de seus jogos ou preferissem experiências mais casuais? A realidade também nos mostra um direcionamento maior para títulos que não possuem um “final”, mas proporcionam quase que exclusivamente experiências multiplayer.

Apesar do sucesso da franquia, apenas 25% dos jogadores no PC conseguiram derrotar o primeiro chefe em Dark Souls 3

Inovação vs nostalgia

A disputa por este mercado ainda nos coloca diante de um segundo desafio. Quanto as empresas estão dispostas a investir em conteúdos retrô e em conteúdos inovadores? A demanda por novos jogos e mecânicas de jogabilidade também é grande e representa o caminho a seguir para o futuro dos videogames. Arriscar-se e sair da zona de conforto faz parte do mercado.

Embora algumas tentativas não rendam frutos, a exemplo de No Man’s Sky (PS4), outras podem tornar-se grandes hits. Overwatch (Multi), da Blizzard, é um enorme sucesso de vendas e representa o investimento pesado em uma nova IP após quase 20 anos de trabalho apenas focados em títulos consagrados como Warcraft. A Nintendo também deu claros sinais de que está de olho em novos conteúdos com os lançamentos de Splatoon (Wii U), Arms (Switch) e a proposta trazida pelo console híbrido, que se aproxima do perfil de acessibilidade que os novos jogadores vivenciam em seus dispositivos móveis.

Overwatch demonstra que o público também está interessado em jogar conteúdos que proporcionem novas experiências 
A onda da nostalgia também pode ser aplicada de forma a contribuir para o desenvolvimento de novas propriedades. Nesse quesito, as desenvolvedoras indies encontram um ótimo terreno para a criatividade. Shovel Knight (Multi) é um claro exemplo de projeto estruturado em cima de conceitos artísticos retrô que ao mesmo tempo apresenta inovações na jogabilidade. O mesmo pode ser dito sobre TowerFall (Multi), Titan Souls (Multi) e os indies brasileiros Chroma Squad (Multi) e Horizon Chase (Multi), que usam e abusam da arte pixelada para oferecer novas experiências de jogo.

Inovação e nostalgia trabalham lado a lado em Shovel Knight
Existe espaço para as duas demandas serem desenvolvidas em harmonia. O que não pode acontecer é uma se sobrepor à outra e afetar o futuro da indústria. Da mesma maneira que adoramos contar com a presença de Mario e Sonic ao longo das gerações, também precisamos olhar quem serão os novos protagonistas e o que eles poderão nos oferecer.

Não deixe de comentar e expor sua opinião sobre o que representa hoje a disputa pela nostalgia nos games e como isso pode afetar ou não o processo de inovação entre as desenvolvedoras.

Revisão: Vitor Tibério
Renan Rossi escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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