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Análise: Valkyria Revolution (Multi) - Doses cavalares de repetição

A receita da Sega em seu mais novo JRPG não consegue agradar da melhor forma o paladar dos jogadores.


O reino Jutland, situado no continente da Europa, sofre os resultados do domínio do Império Ruz por todo o continente. Bloqueios econômicos impedem o avanço e prejudicam a sobrevivência do povo de Jutland, que se vê preso debaixo da tirania do Imperador Klaudiusz e de sua busca ferrenha pelo poder. Para libertar a si e Europa da tirania de Klaudiusz, Jutland inicia uma revolução e declara guerra ao império de Ruz.



A trama de Valkyria Revolution é simples, mesmo tendo presente em si um forte teor político. Como é típico de JRPGs, há um forte toque de fantasia atrelado à história principal. Ruz tem sob sua tutela a própria encarnação da morte, chamada de Valkyria. Para combater a Valkyria, o império de Jutland cria em seu exército o Esquadrão Anti-Valkyria, cujos membros são alquimistas especializados na manipulação de mana, fortes o suficiente para manejar armas especialmente projetadas para canalizar mana e enfrentar a poderosa Valkyria.



As coisas demoram um pouco a engrenar, mas não chegam a ser desinteressantes. Existe uma boa dose de mistérios para deixar o jogador intrigado, mas as motivações para a guerra são insossas. O Imperador Klaudiusz busca o poder e está disposto a alcançá-lo a qualquer custo, e a princesa do reino de Jutland acredita em um reinado baseado no amor. Simples e direto, mas não deixa de ser clichê. Há certas pitadas de vingança para colaborar com a existência da revolução, e talvez essa seja a parte mais intrigante.

Os personagens principais tomam para si quase todo o tempo em que a história é contada. Os protagonistas, Amleth Grokjaer, capitão do Esquadrão Anti-Valkyria, e Ophelia, Princesa de Jutland, são típicos demais. Ele, o “caladão mas poderoso”. Ela, a ingênua que acredita na bondade de tudo e de todos.

Os personagens secundários, por sua vez, têm suas histórias contadas através de fragmentos de memória que podem ser acessados em um dos menus do jogo. Eles poderiam ter tido um melhor desenvolvimento e mais envolvimento dentro da história principal, com seus passados e motivações incluídos de outra maneira que não fosse vídeos em um determinado menu. É claro que é possível conhecer mais de cada um deles conforme avançamos na história principal, bem como através de círculos de conversa dentro dos curtos momentos de exploração do game, mas nada que cria uma ligação com o jogador, ou que o faça se importar por aqueles personagens.

Tempo real com uma pitada de turnos

As batalhas de Valkyria Revolution ocorrem em tempo real. Os inimigos são encontrados dentro dos mapas de cada missão, e podem ser atacados ao pressionar o botão de ataque principal, desde que a barra de ações esteja cheia. Infelizmente, para se ter um combate em tempo real de qualidade é preciso variedade, e os ataques principais dos personagens se resumem a um movimento apenas, tornando as ações repetitivas e cansativas de se ver.

As habilidades e magias, aqui chamadas de Ragnites, são utilizadas através de uma roda de comandos e habilidades. Ao acessá-la, o tempo é paralisado, permitindo ao jogador selecionar as habilidades mais adequadas para derrotar os inimigos que está enfrentando. As Ragnites são divididas em danos elementais: Fogo, Água, Vento e Terra, com algumas especiais de Luz. Apesar de oferecerem uma ampla gama de opções, as Ragnites não contam com diferenças visuais chamativas, às vezes mudando apenas a cor do ataque com base em seu dano elemental. Valkyria Revolution peca por não abraçar sua própria fantasia e trazer para suas batalhas efeitos exagerados e que saltem aos olhos do jogador. O que muda de verdade e afeta as batalhas são as estatísticas de cada Ragnite, que oferecem habilidades passivas aos personagens, exigindo que o jogador pense e utilize aquelas que combinem melhor com seu estilo de jogo e personagens.



O sistema de level up está aqui de duas formas: da forma convencional, com o ganho de experiência ao completar missões, ocasionando no aumento de nível do personagem e consequentemente de seus atributos básicos; e através de um sistema de upgrades das armas, muito parecido com as esferas de Final Fantasy X (Multi). Através de uma grade de habilidades para as armas principais de cada personagem, o jogador utiliza as Ragnites que obtém para comprar melhorias como mais poder de ataque físico e aumento da proficiência com habilidades de fogo. As Ragnites possuem níveis, e quanto maior for o nível da Ragnite, maior será o seu valor para utilizar na compra das melhorias das armas.

É possível desenvolver armas secundárias para os personagens, que vão desde rifles a metralhadoras, bazucas e granadas de fumaça. Podem até possuir um valor estratégico nas batalhas, mas são uma tentativa de mascarar o fato de que cada personagem só possui uma arma principal, não sendo possível alterar os estilos de luta de cada um.

Ataque, defenda, defenda, defenda e, se o jogo permitir, avance na história

Valkyria Revolution não é um JRPG com um vasto mundo para exploração. Poucas são as áreas que podemos visitar e explorar, e mesmo assim são pequeninas. Para compensar a falta de exploração, o jogador pode acessar áreas de combate através do mapa mundi no Quartel General. Através do mapa, é possível atacar regiões através das Free Missions, que consistem em pequenas missões de quatro tipos diferentes: Annihilation, Takedown, Reconnaissance e Maneuver. Cada tipo oferece objetivos diferentes, mas todos envolvem enfrentar diversos inimigos no cenário atacado.

Há também missões de defesa de território. De tempos em tempos, forças do império de Ruz atacam territórios conquistados por Jutland durante as missões principais. A defesa de tais territórios é importante, não apenas para manter a força do reino de Jutland, mas também para manter o estoque de itens das lojas cheio e com novidades. Cada região oferece aos vendedores de Jutland certos tipos de itens, e a perda de territórios pode ocasionar na falta de tais itens. É uma ideia interessante, mas que sufoca o jogador ao oferecer as missões de defesa com extrema frequência. Pelo menos é uma boa maneira de fortalecer os personagens, ganhar experiência e novas Ragnites.

Cada missão possui uma barra no topo chamada “Estado de Guerra”. Cada ação realizada pelo jogador contra as forças de Ruz, como derrotar um capitão inimigo, capturar uma base ou causar pânicos e medo nos soldados inimigos, faz com que a barra cresça e fortaleça o exército de Jutland naquela missão, aumentando a moral do esquadrão de personagens do jogador. O aumento de moral faz com que as ações do jogador possam ser realizadas com mais frequência graças à velocidade de aumento do preenchimento da barra de ações. As ações dos inimigos contra o jogador também afetam a barra de Estado de Guerra. Sofrer muito dano ao mesmo tempo, ter a morte de um membro da equipe ou a chegada de reforços de Ruz no campo de batalha incrementam a moral do exército inimigo, fazendo as vantagens do jogador regredirem. Se a moral de Jutland chegar a zero, o jogador falha na missão e perde todos os itens e experiência coletados nela.



Acentuando ainda mais o problema de Valkirya Revolution no quesito variedade, os inimigos se tornam repetitivos com pouco tempo de jogo. Temos soldados comuns, brutos com machados, atiradores com diferentes armas. Pode parecer variado, mas quando percebemos, estamos matando os mesmos inimigos que na missão anterior, apenas com cores diferentes e mais difíceis de se derrotar. A exceção fica para os chefes, que podem  ser desde tanques de guerra bípedes pequenos a escorpiões mecanizados que ocupam grande parte da tela.

Durante os chefes, outro problema de Valkyria Revolution se mostra. É comum usar a trava de mira para atacar uma determinada parte de um chefe e causar um dano maior, mas em alguns momentos, a câmera se aproxima muito do chefe e acaba ocultando o jogador. Diversas ações e movimentos se misturam em tela, tornando tudo confuso, o que pode ser bastante problemático em momentos de dificuldade.

Bonito “por linhas tortas”

O aspecto mais chamativo de Vakyria Revolution é sua qualidade gráfica. Com um aspecto de anime misturado a um efeito de imagem que o transforma em uma espécie de pintura ou desenho feito sobre papel, a qualidade gráfica salta aos olhos, principalmente no que diz respeito ao nível de detalhes dos cenários e no design dos personagens.



Como nem tudo é perfeito, mesmo com bonitos visuais, Revolution peca por oferecer animações travadas. Os personagens parecem deslizar pelo cenário em diversos momentos, principalmente durante a navegação nas missões. São detalhes que podem não significar muito em um primeiro plano, mas que enriqueceriam a qualidade técnica do título. É válido dizer também que não é incomum encontrar bordas irregulares carregadas com serrilhados inconvenientes.

Afunilado demais para um RPG

Independentemente de qual ramo do gênero RPG um game seja, sempre associo “RPG” com um aspecto de exploração bem trabalhado. Não há a necessidade de se fazer um gigantesco mundo aberto para ir e vir, mas oferecer ao jogador um cenário denso, com oportunidades para que ele possa conhecer e se familiarizar com aquele lugar. Valkyria Revolution oferece uma boa variedade de locais, como bases militares, vilas europeias e áreas industriais, mas o que poderia ser algo gostoso de explorar acaba se tornando maçante e repetitivo, graças à pequena extensão de cada área. A sensação de repetição se intensifica quando as Free Missions e as missões de defesa de território se passam sempre nos mesmos locais, com as mesmas disposições de inimigos e objetivos. Não é problema algum oferecer um mundo dividido em áreas, desde que as áreas ofereçam oportunidade de exploração.

Valkyria Revolution não é um jogo ruim, apesar de ter apontado aqui diversas falhas. Mas ele se acanha demais em suas propostas. A temática de guerra e atritos políticos poderia ser mais densa se não se misturasse com a temática de vingança. O aspecto de fantasia também acaba parecendo subtrabalhado. É preciso abraçar aquilo que utilizamos como fundações para nossos projetos, e Valkyria Revolution peca por não abraçar sua fantasia e trazer os exageros típicos de produções japonesas para sua composição. No fim das contas, Valkyria Revolution é um jogo com o qual você, se escolher jogar, terá muitas horas de conteúdo e repetições, mas conseguirá ter alguma satisfação; caso escolha deixar passar, não terá perdido uma experiência revolucionária ou memorável.

Prós:

  • Visuais bonitos e detalhados;
  • História interessante, apesar de clichê;
  • Sistema de evolução com Ragnites.

Contras:

  • Pouco desenvolvimento de personagens secundários;
  • Aspecto de fantasia subtrabalhado;
  • Animações fracas e pouco chamativas, principalmente nos combates;
  • Combate repetitivo;
  • Cenários pequenos demais, que não oferecem razão para explorar.

Valkyria Revolution — PS4/PSvita/XBO — Nota: 6
Versão utilizada para análise: PS4


Francisco Camilo escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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