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Análise: Victor Vran Overkill Edition (Multi) - caçando demônios ao som de Motörhead

Originalmente lançado para PC em 2015, Victor Vran chega detonando em sua versão mais completa e parruda para consoles.


Em julho de 2015, a produtora Haemimont Games trouxe para os PCs Victor Vran, um RPG de ação feroz com visão isométrica, perfeito para aqueles que gostam de jogos “tipo Diablo”. O sucesso foi imenso, com o jogo possuindo uma taxa de aprovação de 89% no Steam atualmente. Desembarcando agora no PlayStation 4 e no Xbox One, a Overkill Edition não apenas expande as plataformas onde Victor caçará demônios, mas também engloba duas expansões previamente anunciadas pela produtora, assim como todos os extras lançados até o momento.


Assumimos o papel de Victor Vran, um caçador de demônios que está em busca de seu amigo Adrian após receber um chamado do mesmo da cidade de Zagoravia. Parte da Ordem dos Caçadores, Vran é peculiar por possuir poderes demoníacos dentro de si, sendo um dos mais poderosos caçadores de demônios na luta contra o mal. Em sua chegada a Zagoravia, o caçador percebe que a cidade-fortaleza foi invadida por criatura das trevas. Sua jornada de busca muda constantemente de objetivo a cada descoberta realizada.

A história de Victor Vran é contada de maneira simples, através de diálogos em cenas de corte praticamente estáticas e narração de fatos. Detalhes podem ser encontrados em entradas de códice no menu de Opções e em conversas com outros personagens dentro dos níveis, principalmente no hub do jogo, o Castelo de Zagore. A jornada que encaramos com Victor Vran consegue ser satisfatória, tendo algumas reviravoltas e mistérios interessantes. Não chega a ser extraordinária, mas é eficaz, despertando sutilmente a curiosidade em quem joga, principalmente por que a história não é o foco principal do título.

Com a exceção de Victor Vran, os personagens que encontramos não são exatamente os melhores, apesar de muitos cumprirem bem seu papel dentro do jogo. Não há muito por que criar simpatia com o vendedor de armas, por exemplo, e em nenhum momento o jogador se vê forçado a isso. As conversas que temos com personagens secundários são pontuais, excetuando-se aqueles que contam fatos importantes da história. Talvez a que mais se destaque positivamente seja a caçadora Irene, sendo esta uma personagem que demonstra ser misteriosa e interessante, mas que o jogo não se dá ao trabalho de desenvolver da maneira correta. Os mistérios de Irene permanecem ocultos ao fim do jogo. Teria sido interessante ter a caçadora ao nosso lado durante a jornada.



Se, por um lado, Irene se destaca positivamente, o mesmo não se pode dizer da voz que acompanha Victor Vran em sua solidão durante a matança de demônios. Por vezes a voz se assume como um narrador dos fatos que estão acontecendo na tela, por vezes como alívio cômico. Como narradora, é possível aceitar a presença daquela voz, mas como alívio cômico, é doloroso e um tanto quanto fora de tom. Victor Vran é sisudo e carrancudo, sério em basicamente todo o jogo, assim como a temática de caça aos demônios que, penso eu, não combina com alívios cômicos. A voz tenta cativar o jogador até mesmo com referências à cultura pop/nerd, com falas que referenciam Star Wars e Skyrim, por exemplo; por fim, acaba valendo mais pelos easter eggs do que pela qualidade do humor. De qualquer maneira, seria preferível a presença solo de Victor e seus pensamentos momentâneos.

Belo chapéu, Victor!

Na parte visual, Victor Vran não faz feio. Os cenários e personagens possuem um nível alto de detalhes, principalmente na movimentação do personagem principal. Ataques de foice, por exemplo, levantam um rastro de poeira e folhagem a cada golpe. O game é um espetáculo de luzes e cores nas batalhas, com poderes de Victor e dos monstros preenchendo a tela belissimamente.

A ambientação é bem variada, levando os jogadores à lindas cavernas de gelo com formações naturais, até a centros industriais empesteados de magia negra. Alguns cenários são curtos e mais lineares, enquanto outros são mais amplos e permitem uma exploração maior. Infelizmente, suas disposições são previamente definidas, não oferecendo variações que incentivem o jogador a voltar e conhecer mais daquele lugar, principalmente se já tiver encontrado todos os segredos escondidos.


A arte de caçar demônios

Para enfrentar as hostes do mal, Victor Vran tem diversas armas à sua disposição, como martelos, espadas, espingardas e até mesmo armas de raio que disparam arco-íris (versão Lendária de uma simples arma de choque). Cada uma delas está em uma classe de armas que dá uma maior liberdade ao jogador para escolher um estilo de jogo preferido. É possível optar por combate corporal ou a distância, ou mesmo balancear o uso de ambos graças ao sistema de troca para arma secundária em tempo real. Cada classe de arma possui três habilidades distintas, oferecendo estratégias de combate variadas ao jogador. Além disso, as armas possuem propriedades especiais que vão além de suas propriedades-base. Equipe uma foice que execute Morticínio com mais facilidade para enfrentar mortos-vivos. A partir do momento que uma arma é equipada, ela compartilha suas propriedades especiais com a outra. Cabe ao jogador decidir o que prefere fortalecer.

Vran possui também ferramentas secundárias de caça, como bombas flamejantes e poções de fortalecimento e vigor. Aliado a isso, temos os poderes demoníacos do caçador para causar ainda mais dano aos inimigos. É possível utilizar poderes defensivos, como a aura de diamante, que cria uma pele dura em Victor e aumenta sua resistência por um curto período de tempo, ou poderes ofensivos, como o Meteoro, que causa uma chuva de pequenas rochas flamejantes nos inimigos.



Temos à nossa disposição o sistema de Cartas de Destino. Tal sistema permite que Victor Vran seja equipado com cartas especiais que o fornecem condições passivas únicas, como maior velocidade de movimento ou maior chance de encontrar itens mágicos. Cada carta possui um custo de pontos e ocupa um espaço de carta de destino, sendo possível aumentar os pontos e espaços disponíveis ao subir de nível. Subir de nível, porém, não significa apenas liberar pontos e espaço de cartas de destino, mas também ganhar atributos como vida máxima e ter a chance de enfrentar monstros mais fortes em mapas mais avançados no jogo. Para desafiar ainda mais os jogadores, é possível ligar as Bruxarias, que fazem parte de um sistema que modifica a dificuldade do game, tornando-a um pouco mais hostil e desafiadora, mas oferecendo bônus como aumento de experiência ganha.

Esta é uma das grandes vantagens de Victor Vran como RPG de ação: embora suas diversas mecânicas e detalhes ofereçam um nível de profundidade e complexidade interessante para veteranos, também podem ser aproveitados por novatos no gênero, sem exigir tanta atenção a detalhes.

Desafiador, mas injusto em alguns momentos

Um dos focos principais de Victor Vran como RPG de ação é a aquisição de equipamentos cada vez melhores conforme avançamos e subimos de nível. Os famosos loots compõem o cerne do jogo, ainda mais pela construção do personagem não se dar em telas excessivamente cheias de atributos. É comum em jogos focados em loots o famoso farming, que consiste encontrar hordas de monstros, matá-las em busca de espólios e experiência,  para então repetir o processo e poder melhorar o personagem e evitar passar dificuldades desnecessárias em algumas partes do jogo. Em Victor Vran, temos diversas oportunidades para usufruir do farming para subir de nível e ganhar equipamentos melhores, principalmente por suas hordas de monstros e chefes reaparecerem quando voltamos ao hub do jogo.



O grande porém é que, ao chegar ao nível 50, o jogo fica extremamente mais difícil do que como é apresentado desde o começo. E é preciso considerar que estou falando da dificuldade Normal (é possível alterar a dificuldade geral para o modo Fácil ou Difícil). Como é possível visitar a grande maioria das áreas do jogo sem qualquer restrição, a decisão do jogador de evoluir seu nível mais rápido do que o proposto pelo jogo dá uma falsa sensação de liberdade pois, ao atingir o nível 50, todo o tempo gasto vai parecer ter sido em vão, graças ao poder de ataque imenso que os inimigos ganham.

A ideia é de que os monstros fiquem mais fortes de acordo com o nível do jogador, dando a eles bônus como maior nível de armadura, resistência a dano físico, dentre outros. Infelizmente, há um desbalanceamento muito grande, e em muitos momentos nos deparamos com inimigos absurdamente e injustamente fortes, que simplesmente não dão chance para o jogador nem ao menos respirar.

Fique um pouco mais e mate mais inimigos

Victor Vran oferece belas razões para que o jogador volte a se aventurar por seus cenários. Mesmo que cada área seja previamente definida, há desafios a serem completados em cada uma delas. São cinco por área, e cada um deles oferece uma recompensa diferente, podendo ser bônus de experiência, dinheiro ou equipamentos. Ao finalizar o jogo, os Desafios de Elite são desbloqueados, adicionando mais cinco novas façanhas para se buscar em cada área. É possível também encontrar mapas de tesouros e pistas, levando à caçadas e saques preciosos. Quem se cansar de se aventurar sozinho sempre terá a opção de jogar a campanha em modo cooperativo, online ou na mesma tela. Também é possível testar habilidades contra outros jogadores em sua arena Jogador vs Jogador, chamada de “O Circo”.

Duas belas expansões no pacote

Victor Vran Overkill Edition não somente traz o game original lançado para PC em 2015, mas também inclui no pacote todos os bônus lançados até o momento, incluindo as expansões Motörhead: Through the Ages e Fractured Worlds. Motörhead é uma expansão completamente inspirada na banda homônima. Lemmy Kilmister, o vocalista, deixa para Victor Vran sua tarefa de eliminar o mal. Para isso, Victor precisa derrotar inimigos poderosos em eras diferentes das suas, como a Segunda Guerra Mundial, e recuperar a vida da arma mais letal criada por Lemmy, o Snaggletooth. Além de oferecer novas classes de armas, equipamentos e poderes, a expansão também permite ao jogador explorar novos cenários e enfrentar novos inimigos, mesmo que sejam apenas variantes de alguns vistos no jogo-base. Para quem é fã da banda, é possível destruir hordas de inimigos ao som de Motörhead, especialmente ao enfrentarmos os desafios dos Monumentos do Rock.



A expansão Fractured Worlds permite ao jogador buscar conhecer mais sobre a origem dos poderes demoníacos de Victor Vran. Temos o retorno de um personagem da história principal para auxiliar Víctor a recuperar o Astrolábio, o artefato capaz de alterar o destino do caçador. A interação entre Victor e seus próprios pensamentos, que começam a se misturar a devaneios e alívios graças ao poder mágico do Astrolábio é interessante de se ver, e muito melhor do que a comédia fora de tom presente no jogo principal. Ao todo, Fractured Worlds oferece quatro masmorras, com mapas que são gerados aleatoriamente a cada dia, incluindo A Fenda, que consiste em uma sequência de andares com novos desafios a cada andar. Com disposições de mapas, desafios e inimigos novos sendo gerados diariamente, o jogador tem razões e sobra para sempre retornar a Fractured Worlds.

Victor Vran Overkill Edition traz uma gama de conteúdos incrível. Enfrentar suas hordas de pestes demoníacas é divertido, mas o excesso de dificuldade após o nível 50 pode acabar espantando os jogadores mais casuais por conta da frustração de morrer frequentemente, às vezes por conta de apenas um golpe. Aqueles que persistirem, porém, terão a seu dispor muitas horas de jogatina frenética, seja para completar todos os desafios e obter todas as estrelas e segredos do jogo, ou para criar um Victor Vran extremamente poderoso com equipamentos cada vez melhores.

Prós:

  • Jogabilidade divertida e fluida
  • Mecânicas acessíveis para novatos e complexas o suficiente para 
  • Alto fator replay, graças à imensa gama de conteúdos

Contras:

  • Dificuldade desbalanceada depois de certo ponto pode assustar jogadores mais casuais
  • Momentos de comédia fogem do tom do jogo
Victor Vran Overkill Edition — PC, PS4 e XBO — Nota: 8
Revisão: Renan Greca

Francisco Camilo escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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