Blast from the Past

JoJo’s Bizarre Adventure - Heritage for the Future: lembranças da era de ouro da Capcom

O título, lançado originalmente para Arcade, ainda é um sólido e divertido jogo de luta, mesmo quase 20 anos depois de seu lançamento original.


Quando JoJo’s Bizarre Adventure: All-Star Battle (PS3) foi anunciado em 5 de julho de 2012, a base de fãs de JoJo entrou em furor, pois aquele jogo de luta, cuja proposta juntava uma infinidade de personagens dos diversos arcos da franquia, era o sonho de todo entusiasta da série que há tempos havia sido negligenciada, não só no ocidente, mas também no próprio oriente. A série não recebia um projeto de grande porte desde o suposto fracasso do filme de Phantom Blood, que, apesar de ter sido exibido nos cinemas, nem versão em DVD acabou recebendo.


No entanto, seria muita injustiça dizer que o fã de JoJo estava mal servido de jogos de videogame. Além de um game do filme citado anteriormente e outro que adapta o quinto arco do mangá, ambos beat 'em up para o PlayStation 2 que nunca chegaram ao ocidente, JoJo’s Bizarre Adventure: Heritage for the Future (Arcade/PlayStation/Dreamcast) é, até hoje, um sólido jogo de luta que se sustenta como tal – ao contrário de uma infinidade de outros que podem até ser divertidos, mas que jamais perdem a estigma de games de anime, ou, nesse caso, de mangá, visto que o anime sairia quase quinze anos depois (até então, apenas uma série em OVA com apenas um pedaço da terceira parte tinha sido lançada).

Lançado originalmente para a placa CPS-3, o último sistema CPS que a Capcom utilizaria para a produção de seus jogos antes começar a desenvolver para a plataforma Naomi, da Sega, Heritage of the Future impressiona. A CPS-3, apesar de pouco aproveitada (foram desenvolvidos apenas seis jogos para ele), era o que havia de mais avançado para a época e isso reflete no jogo, seja tanto na questão visual quanto de gameplay.
Apesar de parecer uma bagunça, com praticamente quatro lutadores em tela - os personagens e suas Stands ativadas -, é bem fácil pegar o jeito do jogo e entender como ele funciona.
Visualmente falando, é um jogo maravilhoso. Observa-se esmero no trabalho dos sprites e das animações, fluidas, vívidas. Tais animações contribuem para suavizar o gameplay, que roda de forma tênue, mas dinâmico e acelerado, baseado na mecânica conhecida de jogos cuja jogabilidade se baseia na combinação de movimentos circulares da alavanca direcional (ou do direcional analógico, se considerarmos as versões de PlayStation e Dreamcast) em combinação dos botões, que aqui são quatro. Três deles dizem respeito aos ataques (fraco, médio e forte) e um deles envolve o sistema de Stand, que amplia as possibilidades de combinações de ataques.

Stand é como se chama o espírito que serve de manifestação do poder do personagem. Pense nas sombras de Blue Dragon (X360) ou nas Personas de Shin Megami Tensei, é algo parecido.  Ao utilizar o botão de Stand, o espírito aparece paralelamente ao personagem e uma nova variedade de ataques pode ser utilizada pelo jogador, além de diminuir o dano recebido (parte dele é revertido no medidor de Stand, que funciona como guard meter), aumentar o alcance e o dano infligido. Também ligados à mecânica de Stand e que colaboram com a solidez do título de luta é a possibilidade dos Tandem Attacks, que envolvem pré-programar comandos durante a ativação da habilidade Stand que irá efetuá-los automaticamente enquanto o usuário pode realizar outras ações separadamente.
Com apenas o mangá como referência, a Capcom caprichou na transposição de cenas icônicas para o modo história.
Além das lutas multiplayer, há também dois modos disponíveis para quem for jogar sozinho. O primeiro é o Story Mode, que segue a história do mangá sob o ponto de vista de cada personagem escolhido. O segundo é o Challenge Mode, um nome chique para Survivor Mode com dificuldade ampliada. Em outras palavras: jogue até perder.

A diversidade do título também se estende aos personagens, cada um com sua personalidade e poderes únicos. A estética detalhada do jogo contribui para que os lutadores sejam únicos à sua maneira, principalmente quando casada com a trilha sonora. Lembrada atualmente pelo mercenarismo, a Capcom na década de 90 não dava ponto sem nó em suas produções e dificilmente entregava produtos aquém das expectativas, o motivo de hoje uma infinidade de seus fãs mais antigos derramar uma lágrima de decepção e nostalgia ao verem o rumo que a empresa tomou. O esmero da produção foi tão grande que até o criador da série, Hirohiko Araki, participou em partes da produção do jogo, criando um design exclusivo para a personagem Midler (que mal havia aparecido direito no mangá) e de uma arte exclusiva para promover o título.
O design da Midler (à direita) foi feito pelo autor especialmente para o jogo.
Em relação aos ports para outras plataformas, é interessante notar que a versão de PlayStation acabou sofrendo um pouco por não ter a capacidade de reproduzir o título da mesma forma que o arcade original. Dito isso, a Capcom também teve a preocupação de adicionar mais conteúdo como forma de compensação, exemplificado pelo Super Story Mode, que concerne em um modo história mais graúdo e que envolve a construção de uma história mais unificada onde o jogador não vai estar limitado ao personagem que escolheu no começo, jogando com vários outros ao longo do enredo.

Há também mini-games que envolvem personagens do mangá que não entraram no roster final de lutadores, no intuito de transformar a experiência mais completa. O principal problema de tal versão, no entanto, é que, devido às limitações do PlayStation em si, a performance do gameplay acabou sofrendo, visto que o jogo exige precisão e o console não podia oferecê-la da mesma forma que as placas do arcade original.
O trabalho que a Capcom fez com os sprites é, até hoje, impecável. 
É válido lembrar que Heritage também recebeu da Capcom uma versão em HD lançada digitalmente para Xbox 360 e PlayStation 3 em 2012 e que contava com multiplayer on-line. Tal port ficou sob a alçada da CyberConnect2, a mesma que foi responsável por desenvolver All-Star Battle. No entanto, devido ao vencimento da licença, o jogo saiu de catálogo em 2014.

Quase vinte anos depois e mesmo com All-Star Battle, o que teoricamente deveria ser seu sucessor moral, Heritage for the Future é um jogo de luta balanceado que ainda tem seu valor competitivo. Ele ainda carrega o valor simbólico de ser um dos últimos bastiões da Capcom em seus tempos áureos, além de, acima de tudo, ser um dos principais responsáveis por apresentar a série aos jogadores ocidentais. É por isso que até hoje o jogo está presente nos corações dos fãs mais old schools da franquia.

Revisão: Jaime Ninice
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e está quase terminando sua pós-graduação para poder ser chamado de especialista em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa). Aficionado por conceitos teóricos, não vai perder uma oportunidade de usá-los para delimitar se algo é ou não um jogo. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular, onde utiliza suas presas para destilar seu veneno e não deixar o ódio dentro de si morrer.

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