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Análise: Drifting Lands (PC) une bem o shoot 'em up com elementos de hack 'n' slash

O novo jogo da Alkemi une dois gêneros distintos de um modo bastante interessante, mas peca um pouco no ritmo.

O gênero shoot 'em up está voltando com muita força em jogos independentes. Esse gênero é caracterizado por um herói (seja a pé ou em uma nave/avião) que enfrenta com tiros uma quantidade muito maior de inimigos, necessitando assim de habilidades de coordenação motora e respostas rápidas o suficiente para derrotar o máximo de inimigos que puder ao mesmo tempo que desvia e evita todos os seus tiros e obstáculos. Fez bem quem lembrou de games como o clássico Galaga (Arcade) ou do recente Rive (PC/PS4).


Com isso, a desenvolvedora francesa Alkemi, que possui seu foco de trabalho justamente em mesclar gêneros distintos de jogos eletrônicos, desenvolveu um projeto de shoot 'em up que apresenta diversos elementos de RPG e de hack 'n' slash, focado em combate mas com melhorias de habilidades e equipamentos que não competem ao gênero de tiro. Assim surgiu Drifting Lands (PC) que, mesmo com alguns deslizes leves, pode ser considerado um ótimo exemplo para ambos os gêneros.

Ambientação política complexa

Drifting Lands nos apresenta um futuro apocalíptico onde um cataclisma de escala global destruiu o planeta no qual os humanos viviam, fragmentando-o. Entretanto, algum tipo de distorção magnética desconhecida mantém as diversas partes desse antigo planeta próximas, tornando-as uma massa quase coesa. Os humanos que sobreviveram a tudo isso de alguma forma, passaram a residir nesses diversos fragmentos do planeta, se organizando em nações totalitárias com territórios muito bem demarcados.

Nesse mundo separado, determinadas organizações consideradas foras da lei se mantêm neutras e buscam a bandeira da liberdade a qualquer custo. Assim, são formadas por contrabandistas, mercenários e nômades. O protagonista da aventura é justamente um recruta de uma dessas organizações, que desde cedo demonstra uma grande aptidão para pilotar naves.



O interessante da trama é que jogos políticos continuam acontecendo mesmo dentro dessa organização que cultua a liberdade, com personagens tentando manipular uns aos outros por interesses comerciais e competitivos. Você encontra-se justamente no meio de toda essa teia de disputas e, mesmo que essa trama seja apenas o pano de fundo do jogo, ela ambientaliza muito bem a aventura de um modo complexo e profundo. Talvez até demais para um título focado em combate.

Dois gêneros em equilíbrio

O que vemos às vezes em projetos que tentam mesclar dois gêneros de games distintos é a famosa reação “água e óleo”, na qual o jogo possui momentos separados de um gênero ou de outro. Drifting Lands, entretanto, consegue mesclar tão bem as mecânicas do hack 'n' slash com a adrenalina e precisão do shoot 'em up que fica difícil separar os dois elementos para uma análise.
 
É verdade que ambos possuem características em comum consideráveis, principalmente no que tange a velocidade da jogabilidade e a quantidade enorme de inimigos em tela. Essas características chave apresentam-se em em uma qualidade estonteante em Drifting Lands: naves com as mais variadas formas e habilidades se mesclam no decorrer das fases em uma dança desenfreada que obriga o jogador a prestar atenção nos mínimos detalhes de espaço e ritmo.
 


Além disso, levando em consideração características próprias de cada um, vemos que as mecânicas vindas do aspecto RPG muito têm a acrescentar na jogabilidade dos jogos de tiro originados no arcade. As naves possuem classes distintas com árvores de habilidade próprias, além de características específicas como mais defesa, maior mobilidade ou então maior equilíbrio. 
 
Equipamentos também são um acréscimo muito bem vindo ao shoot 'em up. Em Drifting Lands, você pode equipar sua nave usando armas com características variadas, tornando a forma como cada um joga bastante exclusiva. Além disso, com o avanço através das grandes fases do jogo, novas naves são desbloqueadas para cada classe, atualizando suas perícias e modificando as capacidades ofensivas e defensivas delas.


Perspectiva que dá gosto de ver

O visual de Drifting Lands agrada bastante para um jogo com menos de 500 MB de tamanho. Traços que mesclam cartoon e artes mais realistas conversam bem e deixam tudo bastante agradável de se ver. Além disso, a ambientação das fases possui bastante beleza e cores, variando dependendo da hora do dia no qual a fase se passa.
 
O fundo das fases se move bastante e os inimigos não vêm somente dos cantos da tela. Além de aparecerem pelos quatro cantos das duas dimensões que normalmente permeiam jogos de nave desse gênero, eles também entram e saem da tela pelo fundo ou por trás da câmera, deixando tudo muito mais dinâmico e vivo durante as fases.


Um ritmo ótimo e outro não tão bom assim

Ao jogar o novo título da Alkemi por algumas horas é fácil notar que um dos seus pontos mais fortes é a trilha sonora. Com um ritmo eletrônico que mescla um pouco elementos do 8 bits, as músicas que ajudam a ambientar cada fase são energéticas e instigantes, animando os jogadores nos combates aéreos e motivando-os a continuar jogando. Entretanto, uma ambiguidade existe neste quesito.
 
Se, por um lado, a trilha sonora do jogo dita um ritmo acelerado e motivador para a aventura, as fases, ao menos até as 6 ou 10 horas de jogo mais ou menos, não estimulam tanto assim a adrenalina. De fato elas são bem construídas e com recursos de perspectiva muito interessantes, mas o ritmo não é o melhor possível, principalmente quando se trata de uma união de dois dos gêneros mais acelerados que vemos no mundo dos games.
 
Passar pelas fases é custoso e em várias das fases iniciais se passa bastante tempo sem inimigos na tela, o que é um problema. Além disso, a não linearidade das fases no display do centro de comando e o seu esquema de cores invertido pode confundir alguns, deixando em dúvida para onde seguir, mesmo com caixas de texto explicando como tudo funciona no início da aventura.
 
Ao menos o nível de dificuldade acentuado agrada, deixando fãs dos dois gêneros com um trabalho considerável para passar pelas mais de 15 horas de jogo. Os dois modos possíveis de jogo (Normal e Forgiving) permitem que esse desafio seja relativamente opcional, uma vez que o segundo modo retira mecânicas presentes no primeiro que aumentam o desafio como itens quebráveis e perda de equipamentos quando a nave é destruída durante uma das fases.


Apesar dos pesares, um ótimo título

Mesmo com alguns deslizes, o novo game da Alkemi possui qualidades suficientes para agradar principalmente os amantes de shoot 'em up, mas também aqueles amantes de hack 'n' slash que sabem que o gênero não é feito somente por fórmulas como as das franquias Devil May Cry e Bayonetta. É verdade que Drifting Lands peca em um dos elementos mais importantes dos shoot 'em up, que é o ritmo entre fases, mas isso não é um problema grande o suficiente para estragar toda a experiência que o título proporciona.
 
De qualquer forma, fica a dica para uma futura atualização do jogo para a Alkemi, talvez um modo bullet hell com o dobro de inimigos por fase resolva o problema com o ritmo. No mais, o jogo vai tomar boas horas do tempo de quem se propor a se aventurar por batalhas interessantes com mecânicas criativas para o gênero.


Prós

  • Equilíbrio interessante entre dois gêneros;
  • Trilha sonora instigante e de excelente qualidade;
  • Enredo político serve bem como pano de fundo;
  • Mecânicas interessantes enriquecem a jogabilidade;
  • Visual muito bom para o tamanho do jogo;
  • Uso de perspectiva nas fases dá mais dinâmica para inimigos.

Contras

  • Ritmo durante as fases é quebrado por “vazios”;
  • Demora um pouco até o jogo tomar um tom mais acelerado.
 
Drifting Lands — PC — Nota: 7.5
 
Revisão: Renan Greca
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

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