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Análise: TumbleSeed (Multi) — a difícil tarefa de equilibrar sementes

Esse indie mistura puzzle e ação, o que resulta em uma experiência única e difícil.


O conceito principal de TumbleSeed, título indie para PC, PlayStation 4 e Nintendo Switch, é bem inusitado. O objetivo é levar sementes para o topo de uma montanha, desviando de inúmeros obstáculos que aparecem pelo caminho. O diferencial é o sistema de controle que exige o uso das duas alavancas analógicas para equilibrar a semente. Não se deixe enganar pelos gráficos coloridos: o jogo é bem difícil e exige dedicação.

Rolando sementes ladeira acima

TumbleSeed é um jogo de ação 2D no qual temos que levar uma semente para o topo de uma montanha. Para isso, é necessário equilibrar e fazer a semente rolar pelo caminho com a ajuda de uma vinha, representada por uma barra verde na tela. Cada uma das alavancas analógicas do controle altera a inclinação das pontas da vinha e assim conseguimos rolar a semente pelos cenários. A versão de Nintendo Switch conta com um recurso extra via HD Rumble, que indica onde a semente está e sua velocidade de movimentação.


Por algum motivo estranho, criaturas bizarras querem evitar a todo custo que a semente chegue ao topo da montanha. Isso reflete nos estágios, que estão repletos de buracos e inimigos. Sendo assim, precisamos equilibrar a semente na vinha para desviar desses obstáculos. O título utiliza vastamente características do gênero roguelike, ou seja, morte permanente, estágios gerados proceduralmente e desafio acentuado. Cada partida conta com desenho de níveis e melhorias únicos, o que traz desafios diferentes toda vez que se joga. Mas como é comum no gênero, há uma certa sensação de repetitividade depois de algumas partidas por conta do desenho parecido dos estágios. Fora o modo principal, há também uma modalidade de desafios diários com leaderboards.

Rolar para desviar das coisas não é a única ação disponível em TumbleSeed. Vários tipos de sementes estão disponíveis, cada qual com efeitos especiais que podem ser ativados em espaços determinados nos cenários. É possível trocar de semente a qualquer momento, basta apertar um botão. Ativar essas habilidades consomem cristais, que podem ser encontrados pelos cenários ao derrotar inimigos e ao utilizar certas sementes. Toda partida começa com quatro sementes e outras podem ser encontradas pela aventura.



Esses poderes trazem variedade ao jogo e é essencial usá-los com inteligência para sobreviver.  A semente Flagseed, por exemplo, cria um checkpoint para se retornar depois de cair em um buraco. Já Heartseed recupera a energia da vinha. Thornvine cria espinhos em volta da semente para poder atacar inimigos. O tempo todo tive que avaliar qual era a melhor semente para a situação: uso a Crystal para ganhar cristais ou recupero minha vida com a Heartseed? Planto agora um checkpoint com a Flagseed ou crio espinhos protetores com a Thornvine? Os poderes criam dilemas e sempre precisei criar estratégias para utilizá-los de forma eficiente.

Tudo isso é representado com direção de arte colorida e simpática. Cada semente tem visual bem único que representa bem seus poderes, e os cenários são bem elaborados e bonitos. De vez em quando é meio difícil saber exatamente o que é obstáculo e inimigo por conta da grande quantidade de elementos na tela, felizmente isso acontece com pouca frequência. A trilha sonora é minimalista, sem deixar de combinar com a proposta do visual e da ambientação.

Uma experiência difícil de dominar

Alguns roguelikes podem ser brutais e TumbleSeed é um desses por conta de vários fatores. O primeiro deles é relacionado aos controles, que não são nada intuitivos e um pouco travados. Demorei muito tempo para entender e dominar as nuances de equilibrar a semente na vinha, principalmente por conta da física dos objetos. É muito comum eu tentar mudar a direção da semente e acabar exagerando, fazendo ela rolar loucamente descontrolada para algum lado (normalmente de encontro a um obstáculo). Depois entendi que é necessário movimentos calculados para avançar — manobras bruscas não funcionam bem em TumbleSeed.

O outro problema é a quantidade excessiva de perigos: todos os cenários estão repletos de buracos, com algumas partes que exigem navegação extremamente precisa para prosseguir. Para piorar, existem muitos inimigos e boa parte deles faz questão de perseguir a semente. Mesmo dominando razoavelmente bem os controles, fiquei o tempo todo com a sensação de que não há muito espaço para reagir rapidamente a certos perigos, principalmente aqueles que aparecem de surpresa, por conta da demora ao mudar a direção de rolagem da semente. O jogo, às vezes, não me dá a agilidade necessária para reagir aos problemas que aparecem.


A soma desses fatores resulta em um jogo muito difícil, pois é tanta coisa para desviar que a morte vem muito rápido quando acontece algum deslize, o que deixa as coisas bem frustrantes. A curva de aprendizado é bem acentuada, principalmente pelo fato de que a primeira área da aventura não dá espaço para o jogador entender bem como tudo funciona com a presença de vários obstáculos. Mesmo já sabendo as regras do jogo, não é raro eu morrer rapidamente já no início da partida por puro azar na organização dos elementos. Acredito que jogadores menos experientes ou impacientes vão se frustrar rapidamente e dificilmente continuarão a aventura, porém aqueles que gostam de um bom desafio vão se divertir muito com o jogo.

Eu demorei um bom tempo para entender como o jogo funciona. Depois de morrer muito, consegui dominar razoavelmente bem os controles e consegui equilibrar melhor a semente pelo caminho. Entendi, também, que é mais um puzzle que um jogo de ação: preciso sempre pensar com cuidado a minha rota, levando em consideração os buracos, poderes das sementes e inimigos, sempre pensando em possíveis surpresas. Quando passei a fazer isso, consegui chegar mais longe. Porém, mesmo assim, foram vários os momentos que bastou um único deslize para perder completamente a partida. Jogar TumbleSeed, para mim, é um misto de alguns momentos de diversão (quando eu consigo dominar a situação) e de frustração (quando morro por conta de um único erro, mesmo tendo muitas vidas).


Uma aventura para poucos

TumbleSeed se destaca por sua ideia principal interessante. Equilibrar diferentes sementes com poderes únicos por um caminho repleto de obstáculos traz uma mistura curiosa de puzzle, ação e estratégia. Por trás do visual colorido, está escondido um jogo brutalmente difícil, que exige muita dedicação do jogador para dominar as mecânicas. A dificuldade é acentuada e conta com alguns momentos desbalanceados, o que e pode frustrar os menos dedicados. TumbleSeed é para aqueles que procuram uma experiência bem desafiante e intensa.

Prós

  • Mecânicas de jogo únicas e inusitadas;
  • Ótimos visuais e música;
  • Conteúdo gerado proceduralmente garante boa rejogabilidade.

Contras

  • Curva de aprendizado acentuada;
  • Dificuldade desbalanceada em alguns momentos;
  • Sensação de repetitividade após algumas partidas.
TumbleSeed— PC/PS4/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos.

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