Analógico

Sonic e a saga Adventure: da religião à ciência

Os jogos de azulão para Dreamcast não são apenas marcados por boas histórias: há um embasamento muito mais profundo do que se imagina.


Quantos de nós teve a maravilhosa chance de jogar em um Dreamcast (ou até mesmo em um GameCube ou PC) os incríveis games Sonic Adventure e Sonic Adventure 2, quer fosse no conforto de nossa casa ou na lan house mais próxima? Bons tempos aqueles, não? De todos os jogos da série Sonic, a Saga Adventure foi a primeira a demonstrar como se faz um jogo do ouriço com um enredo bem elaborado e consistente. É certo que dá para perceber que desde os jogos para Master System e Mega Drive, o ouriço já possuía enredos em seus jogos (em alguns casos com direito até a cutscenes, como SegaSonic the Hedgehog (Arcade), Sonic CD (Sega CD) e Sonic 3D Blast (Mega Drive/Sega Saturn)) porém, nada que viesse a ter um foco maior ao ponto de possuir diálogos bem elaborados e grandes plot twists.

O primeiro Sonic Adventure já começa com um filme que mostra interações e conversas entre Sonic e as pessoas que o rodeiam, além de expor uma história bem diversificada, em que no final da jornada de cada um dos personagens acabava parando em um mesmo ponto, tendo Super Sonic como o último e único personagem jogável na fase final, como já havia sido concretizado desde Sonic & Knuckles (Mega Drive). Já Sonic Adventure 2 fez uma jogada menos complexa em relação ao anterior (no qual dispensava as Adventure Fields em que as fases eram acessadas por portais nos mesmos), seguindo para a próxima fase de imediato ao findar a anterior, sendo que você era obrigado a jogar com outro personagem na zona seguinte. No entanto, seu enredo foi tido como o melhor entre diversos jogos do Sonic. Mas pode-se perceber que entre estes dois jogos houve uma mudança conceitual em relação aos enredos: iniciada no quesito mais voltado a religiosidade e indo para algo mais voltado à ciência! Iremos explicar detalhadamente:

Nota: o texto abaixo contém SPOILERS sobre os jogos citados além de outros da franquia, portanto leia por sua conta e risco.

Sonic Adventure: conceito místico e religioso


No primeiro Sonic Adventure presenciamos o seguinte enredo: “Eggman despertou uma entidade divina chamada Chaos, que em tempos passados havia destruído a antiga civilização Echidna dos ancestrais de Knuckles. O plano de Eggman é fazer com que Chaos destrua toda a cidade de Station Square (lugar em que se passa a maior parte da história) para que, por cima de suas ruínas, o maléfico cientista estabeleça o seu império. Para isso, ele precisará das sete Esmeraldas do Caos e, nisso, Sonic e seus amigos surgem novamente para impedir o terrível vilão, seus perigosos robôs e o monstro que ele despertou.”

Em vários momentos os personagens têm o que poderíamos chamar de “visões sobre o passado”, no qual eles entram num estado de “transe” e têm pistas do desastre que havia ocorrido há quase 4000 anos atrás, em que é possível ver Tikal tentando impedir seu pai, o Rei Pachacamac, de invadir o santuário da Esmeralda Mestre com seus guerreiros (onde se encontram as Esmeraldas do Caos bem como seus protetores: os Chao). Quando você se encontra no modo Adventure Field, o espírito de Tikal (aquela bolinha vermelha flutuante que parece com a fada Navi dos jogos da série Zelda) pode ser encontrado em alguns pontos fixos da área dando pistas sobre onde você deve ir ou o que deve fazer. Por fim, temos os desenhos esculpidos na parede da fase “Lost World” mostrando Perfect Chaos destruindo a civilização do Knuckles Clan, muito semelhante ao mosaico da profecia vista na “Hidden Palace” de Sonic & Knuckles, onde vemos Super Sonic contra a última arma de Eggman na “The Doomsday”.
Tal como religiões do passado, os ancestrais de Knuckles cultuavam a uma grande esmeralda tida como divina

Além disso, a história coloca as Esmeraldas do Caos como relíquias sagradas enviadas pelos próprios deuses como um presente para a humanidade, mas que deveria ser usada apenas para o bem do mundo, nunca por razões egoístas, gananciosas ou maléficas. Há também o culto a Esmeralda Mestre realizado no passado pelos ancestrais de Knuckles, a qual é tida como uma divindade, sendo a única capaz de deter o poder das sete serventes do caos (que são as Esmeraldas). Fica mais do que evidente que todo o enredo gira em torno de uma questão religiosa e teocêntrica, colocando até mesmo o herói Sonic como um cumprimento profético, em que segundo a história ele seria uma espécie de messias que derrotaria Chaos com o poder das sete serventes caso o deus da destruição fosse despertado.

Perfect Chaos, o deus da destruição

Sonic Adventure 2: conceito tecnológico e científico


A partir do segundo jogo, houve uma grande reviravolta no que consistia a primeira aventura: a história deixou de lado os conceitos religiosos e sobrenaturais e agora se embasava muito mais na ciência e estudos biológicos. Vejamos então o enredo: “Pouco tempo depois de sua derrota, Eggman (vasculhando antigos documentos secretos do governo) encontra dados a respeito de um projeto ultrassecreto criado por seu avô: O Prof.º Gerald Robotnik. Denominado ‘Project: SHADOW’, esses dados levam o ganancioso vilão a uma ilha onde a criatura mutante chamada Shadow está hibernando. Este tem uma aparência muito similar a de Sonic, e seus atos criminosos fazem com que todos venha a pensar que Sonic se voltou para o mal. Contudo, o plano de Eggman, juntamente com Shadow e a ladra Rouge, é reativar o antigo Canhão Eclipse na Colônia Espacial da ARK para destruir o planeta caso o governo não se renda a ele. Assim, Sonic, Tails, Knuckles e Amy têm a tarefa de deter o maligno cientista antes que seja tarde”.

Durante o jogo, dá para perceber o quanto a história se embasou num quesito completamente cientificista: a começar pelo novo personagem, Shadow, que é um ser mutante criado em laboratório; ele possui muita semelhança a Sonic, o que levou muitos a acharem de início que se tratava de um clone, em que na verdade o ouriço negro era resultado de um experimento entre um ser da mesma espécie de Sonic com DNA alienígena, logo um cruzamento genético de espécies (este detalhe fica mais explicado no jogo Shadow the Hedgehog (PS2/GC)). Ele foi feito por cientistas exatamente a fim de criarem a forma de vida perfeita através de experimentos genéticos. E vale lembrar ainda de Biolizard (o último chefão do jogo), que foi um espécime protótipo que serviu como base para que Gerald Robotnik criasse Shadow.
Personagens cientificistas, como Tails e Dr. Eggman, mostraram bem mais de suas utilidades neste título

Temos também a ARK que é uma Colônia Espacial, que funciona como um laboratório no espaço, mostrando que a evolução tecnológica não estava restrita apenas às armas e máquina feitas por Eggman, mas que já era algo que a própria humanidade tinha o privilégio de usufruir. A série também amadureceu quanto ao que é mostrado em relação aos inimigos, onde agora não se centra apenas em Eggman, mas também é necessário enfrentar as forças militares da G.U.N. (uma espécie de S.W.A.T. responsável pela ordem no país, ou no planeta pelo que mais deixa evidente). Além disso, as Esmeraldas do Caos, que antes eram apontadas como relíquias sagradas e divinas, agora são usadas como objetos de estudo, tendo como função serem fontes de energia para o funcionamento do Canhão Eclipse. O enredo é de todo centrado no uso da ciência e apresenta uma visão bem mais voltada para antropocentrismo (apesar dos personagens da série terem semblante animal, vale lembrar que eles possuem comportamentos e personalidades extremamente humanas), em que até mesmo Sonic deixa de ser único, precisando da ajuda de Shadow para enfrentar o chefão final (ambos em suas formas Super).

Uma ideia reescrita de nossa própria História

Um caso semelhante a essa transição pode ser vista na própria história da humanidade. Assim como na Saga Adventure, estudamos em História Geral que a raça humana também passou por uma mudança de conceito: do religioso ao científico. Desde tempos mais antigos, o homem sempre teve a necessidade de crer em algo maior que rege a ordem e o caos universal, daí o motivo desse pela busca em depositar a sua fé em um ou mais deuses, que seria sua fonte de proteção e realização de seus desejos, desde que procurasse obedecer à vontade do(s) mesmo(s). Foi assim desde a Pré-história, passando pela Idade Antiga e entrou em seu auge na Idade Média (também chamada de Idade das Trevas), no qual quaisquer atos que desagradassem à vontade da Igreja era considerado pecado tendo até um simples tropeço ao caminhar como um “castigo de Deus”.
A Terra gira em torno do Sol e a ARK gira em torno da Terra

Apenas com a chegada da Idade Moderna foi que os cientificistas puderam expor suas ideias e conceitos com respeito aquilo que a Igreja tinha como única resposta “é obra de Deus” ou “é obra do Demônio”. A partir dessa Idade foi que o conceito do Geocentrismo (no qual a Igreja defendia que a Terra era o centro do universo) foi derrubado pelos cientistas embasado no conceito do Heliocentrismo, em que foi comprovado que o Sol está no centro e a Terra juntamente com outros planetas orbitam ao redor deste. Também nesse mesmo período iniciou-se o Renascimento, no qual artistas passaram a produzir obras muito mais voltadas para uma visão antropocêntrica (tendo o ser humano como elemento principal) e bem menos teocêntrica (que se utilizavam inclusive de mitologias pagãs para suas pinturas e esculturas). Sim, partindo dessa análise fica claro que Saga Adventure da série Sonic nada mais é do que uma releitura de nosso passado.

Sonic e a Filosofia

Muito mais que uma questão a ser pensada, esta saga teve o cuidado de nos fazer refletir a respeito de como o ser humano está numa constante etapa de mudanças que afetam tanto o seu meio quanto a sua própria maneira de pensar. Bem como foi a dualidade entre “Team Hero” (Sonic) e “Team Dark” (Shadow) em Sonic Adventure 2, ainda hoje é muito perceptível a constante dualidade entre religião e ciência, o que de certa forma chega a ser meio sem sentido, pois ambas sempre andaram unidas, apesar das controvérsias humanas em relação às mesmas. Interessante perceber que nos jogos que decorrem posteriores a estes, há uma interligação entre divino e científico: em Sonic Heroes (Multi), por exemplo, Eggman consegue depositar o DNA divino de Chaos para sua criação mais consagrada, Metal Sonic, e como consequência acaba sendo aprisionado por este, que passa a ter total controle de sua mente e seus poderes ampliados ao ponto de conseguir até mesmo mudar de forma. Já em Sonic the Hedgehog (PS3/X360), o rei de Soleanna se apropria de conceitos tecnológicos para estudar e extrair a essência divina de Solaris, o deus do tempo (na forma da “Chama da Esperança”).
Sério, esse sujeito devia ser formado em teologia!

Tomando isso para a nossa realidade, é certo que a humanidade sempre estará em busca de respostas para perguntas como “Quem somos?”, “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, assim como também mostra que você tem a liberdade para acreditar que existem vários deuses, apenas um, nenhum ou ainda que eles eram “astronautas” (extraterrestres), dando-lhe o livre arbítrio para decidir no que crer, ou até mesmo escolher “não crer”. E claro, devemos nos lembrar de que qualquer seguimento numa crença (seja ela religiosa ou científica) não deve ser feita de forma cega, mas sim de forma a relevar o equilíbrio entre ambas, afinal as próprias escrituras antigas de milhões de anos atrás completam a anotações científicas redigidas há alguns anos recentes, da mesma forma como Sonic Adventure e Sonic Adventure 2 se completam garantindo diversão por muitas horas.

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Áquila Braga escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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