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Análise: Dragon Quest Heroes II (Multi) une Musou, ação e JRPG

O novo título traz algumas novidades e refina o que vimos no seu antecessor.

Já fazem alguns anos que eu jogo títulos do estilo Musou, e minha relação com eles talvez dê a entender que eu concordo com a anedota que diz que games do tipo estão estruturalmente fadados a nunca serem grande coisa. Durante anos de Dynasty e Samurai Warriors, passando por jogos baseados em animações ou outros títulos, sempre coloquei essas experiências para momentos de relaxamento, escutando um som e vencendo hordas de inimigos que passam dos milhares. A tal anedota versa que são jogos para jogarmos quase não prestando atenção neles.


Dragon Quest Heroes II, no mínimo, exige bastante atenção do jogador, já que existem confrontos bem difíceis, além da necessidade de dominar os sistemas que permitem melhorarmos nossos guerreiros. Ele representa muito bem esse momento de alterações na fórmula Musou, que já vem ocorrendo há alguns anos e que tem feito muito bem aos jogos da Omega-Force.

No caso de Heroes II, fica a forte impressão de que o jogo caminha muito mais no sentido de ser um JRPG de ação do que um hack’n’slash com milhares de inimigos em uma arena. Das novidades deste segundo título, talvez o mundo aberto seja aquela que dá mais uma cara de aventura ao jogo. Entre uma batalha e outra, é necessário atravessar por regiões, realizando missões, enfrentando inimigos e explorando os cantos do mapa.


Como a maior parte dos JRPGs, essas missões secundários são, infelizmente, sem graça do ponto de vista do enredo, além de bastante repetitivas. Mas em um espectro geral, ajudam a rechear os momentos entre as batalhas e, sobretudo, se colocam como possibilidade de grinding, já que nunca é demais evoluir seu grupo, aumentar as proficiências e conseguir novas habilidades. Aliás, houveram batalhas que exigiram de mim que retornasse para fortalecer meu grupo, algo que não é usual no estilo Musou, mas faz parte da história de Dragon Quest.

Os confrontos estão bem parecidos com o que vimos no primeiro Dragon Quest Heroes. O sistema de batalha flui muito bem, e é bacana ver como funcionam as habilidades e magias, além da troca entre os personagens. Aqui controlamos um personagem, mas podemos alternar a qualquer momento para um dos outros três que compõem a Party. O esquema de hack’n’slash permanece (com os combos usando o ataque fraca e forte em diferentes sequências), mas há uma boa dose de profundidade e tensão em lutas diretas contra chefes ou inimigos mais fortes.


Nessas batalhas, é importante gerenciar bem a equipe, além de saber a hora de defender, esquivar e usar as habilidades e magias de quem está no time no momento. Além dos quatro personagens criados para a história de Dragon Quest Heroes II, temos a adição de vários outros heróis da série, como o Torneko (DQ IV), o Terry e o Carver (DQ VI), a Maribel (DQ VII), Angelo (DQ VIII), entre outros que fazem sua estreia aqui ou que retornam do primeiro DQ Heroes.

É interessante como cada um desses personagens possuem um set de movimentos que o diferencia dos demais, dando uma vasta gama de opções para o jogador descobrir qual gosta ou se encaixa mais. Com exceção dos dois protagonistas, cada personagem possui uma única classe e usa um único tipo de armamento. A maior liberdade fica para Teresa e Lazarel, os dois heróis que devem salvar o mundo.

O reino está sendo ameaçado por uma nova onda de guerras, e cabe aos heróis descobrir quem está por trás dessas maquinações, enquanto tentam prevenir uma desgraça cantada em profecia. Ao lado disso, há também o mistério da chegada de guerreiros de outros mundos (que são os personagens da série que vamos habilitando no decorrer da campanha).


Com situações bastante previsíveis e nenhum grande destaque nos diálogos ou personagens, o enredo funciona como uma boa desculpa para que os heróis cheguem de outros mundos, e para que existam muitas batalhas. Se as mecânicas são competentes, e os heróis variados o suficiente, as batalhas tendem a ser bem mais repetitivas, ainda que seja perceptível uma tentativa de variá-las.

O que talvez seja inescapável ao Musou seja a orbitação dos objetivos em torno de “defenda esse ponto”, “avance por esse” ou “defenda essa pessoa”. No geral, tudo é uma desculpa para o grupo enfiar a porrada em um grande número de monstros, mas há, sim, boas propostas ao longo da campanha.


Dar uma cara diferente aos mapas é a principal delas, seja fazendo um lugar ser mais labiríntico ou termos que ser furtivos em uma prisão sem nossas armas, até propondo puzzles e brincando com o terreno, como quando somos mais devagar em trechos inundados ou deslizamos sobre o gelo. Há ideias, entretanto, ainda mais interessantes.

Em uma das batalhas precisamos passar por áreas pantanosas que nos causam envenenamento. Você pode ir tomando o dano, ou tentar contornar a partir de um outro sistema do jogo: o uso das moedas de monstros. Nesse caso em específico, os slimes verdes líquidos podem deixar cair uma moeda, ao usá-la todo o grupo fica temporariamente imune ao veneno.


Esse sistema funciona bem, e inclusive é uma ótima tática contra inimigos mais complicados. São três tipos de funcionamento das medalhas: chamamos o monstro para lutar ao lado, ele é invocado temporariamente para aplicar dano ou algum efeito, ou nos transformamos nele por um tempo para usar seus golpes. Com um bestiário tão icônico, e jogos tanto na série principal quanto em spin-offs que nos permitem usar os monstros, a situação casa muito bem com o título.

A outra grande novidade em relação ao anterior é a inclusão do multiplayer. É possível pedir ajuda para outros jogadores nas batalhas mais difíceis e, também, nos labirintos extra que são acessados pela taverna. Em batalhas com múltiplos objetivos ou pontos de defesa, é bem bacana poder contar com ajuda.


Não muito distante do primeiro DQ Heroes, e mexendo mais com a fórmula Musou, Dragon Quest Heroes II traz uma experiência agradável ao alternar as batalhas com exploração, missões e evolução dos personagens. É bastante singular ao iterar uma nova forma de explorar o rico universo de Dragon Quest, ainda que esteja em consonância com outros jogos do estilo que estão buscando novas influências e propostas. É possível apenas apertar vários botões enquanto ouvimos as belas peças musicais da série, mas o jogo também propõe situações e sistemas que exigem atenção, fazendo com que sua experiência não seja trivial e automática, mas sim sólida e recompensadora.

Prós

  • Sistema de combate fluido e competente;
  • Diferença entre os movimentos dos personagens;
  • Boas tentativas de variar os cenários de batalha;
  • Exploração quebra o ritmo repetitivo dos cenários de guerra;
  • Sistema de coleta e utilização de moedas de monstros;
  • Multiplayer funciona bem em certas batalhas.

Contras

  • Repetição em objetivos nas batalhas e na exploração;
  • Missões secundárias sem graça.
Dragon Quest Heroes II — PS4/PC* — Nota: 8.5
Plataforma utilizada para análise: PS4
* O título chegou ao PS3, PS Vita e Switch no mercado japonês.
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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