Jogamos

Análise: Slime-san (PC) vai te levar em uma divertida e inusitada viagem ao Japão

Com um gráfico pixelado e muita agilidade, o jogo traz uma aventura cômica e inesperada no melhor estilo plataforma.







Por mais estranho que pareça, nenhum japonês esteve envolvido com o desenvolvimento de Slime-san.
Foi com a frase acima que fui recepcionado por Slime-san (PC), jogo de plataforma desenvolvido pela Fabraz Company e publicado pela Headup Games que chega ao Steam amanhã (7). E é realmente difícil acreditar em tal afirmação, pois as referências à língua e cultura pop japonesa são inúmeras e não se restringem apenas ao honorífico de tratamento –san utilizado no título do jogo. São mechas, dojos, maid-cafés, lámen, sakê, yokais e, claro, animes e mangás. Uma verdadeira Tóquio dentro da barriga de uma minhoca gigante, com um visual retrô encantador e uma trilha sonora marcante. Slime-san bebe da água de muitos clássicos e nos leva em uma viagem pixelada a um Japão inigualável no controle de uma gosma verde e seu pequeno companheiro pássaro.

Bem-vindo a Slumptown

A corrida contra o tempo é uma esfera comum em jogos plataforma, seja para resgatar a pessoa amada ou salvar o mundo da destruição. Agilidade é peça chave, sempre acompanhada de fatores como estratégia e cautela. Essa freneticidade é, por vezes, elevada a níveis extremos quando se trata da corrida pela própria sobrevivência, e é aí que Slime-san entra em cena. Sua corrida começa antes mesmo de clicarmos no botão Iniciar, ao acompanharmos a minhoca gigante perseguindo nosso protagonista gosmento e seu companheiro voador, Birdie, na tela inicial.

Talvez aflição seja a palavra adequada para definir esse tipo de cenário, mas não é o caso de Slime-san. Ao finalmente clicar em Iniciar e me tornar o real culpado por fazer com que ele e Birdie fossem engolidos pela grande ameaça, só pude rir. Rir por me dar conta que, em questão de segundos, aquela gosma verde e fofa agora se encontrava ao lado do órgão excretor da minhoca. Rir por também perceber que, se o jogo permitisse, eu poderia simplesmente virar para o lado e fugir daquela situação, mesmo que de uma maneira nada agradável. Assim, cabia a mim, causador desse infortúnio, conduzir Slime-san na sua corrida contra o tempo, enfrentando os violentos órgãos da minhoca e evitando ser diluído pelo seu suco gástrico.




Como se ser engolido por uma minhoca gigante e passar imune por seu sistema digestivo não fosse inusitado o bastante, acompanho Slime-san e Birdie na descoberta de que eles não são as únicas refeições sobreviventes. Recepcionados por letreiros japoneses cintilantes e indivíduos das mais variadas espécies, eles se vêem em meio a uma enorme cidade construída do nada, repleta de lojas, bares, Arcades e até automóveis. Uma cidade que não dorme, vivendo sob a permanente ameaça de serem enfim digeridos pela minhocona. 

Apesar de toda essa agitação e do iminente perigo, o clima é completamente oposto à densidade da situação e o jogo apresenta uma atmosfera serena e cômica, seja através das cores fortes e vibrantes dos cenários (que, vale destacar, fazem uso de uma paleta de apenas cinco cores) ou dos diálogos dos personagens. Vários cidadãos até se esqueceram da adversidade imposta pelas minhocas. Algumas, inclusive, convivem pacificamente com as suas vítimas em Slumptown. Despretensão é uma constante no jogo e é por saber brincar com essa realidade hostil que Slime-san me cativou logo de cara. 

Tomemos como exemplo a raposa Kitsune-Miku (qualquer semelhança com o nome de uma certa Vocaloid não é mera coincidência) ou o vendedor da barraca de lámen que fala Datte Bayo; ou ainda a cobra da fábrica de sakê querendo mais Sssssuke (ou seria Sasuke?) ou a Maid te recepcionando com um “Okaerinasaimase Goshujinsama”; é com toda essa sutileza que essas referências surgem e tornam esse buraco da minhoca o que eu chamo de uma Tóquio peculiar. 

A trilha sonora também têm um papel crucial na construção da atmosfera dessa metrópole nipônica. Foram mais de 10 compositores que contribuíram com o total de 20 músicas que trazem melodias marcadas por batidas eletrônicas fortes e instigantes, algo que dialoga muito bem com o ritmo acelerado do jogo. Elas ainda provocam a nostalgia e músicas como Wormhole e Organ Donor me remeteram a trilha sonora clássica de Sonic, o que também casa perfeitamente com a proposta retrô de Slime-san. Há uma sala disponível em Slumptown unicamente para ouvi-las e passei um bom tempo nela curtindo o som do jogo. 

Embora o foco de público seja evidente no que concerne essa grande metrópole, essa não é a essência de Slime-san. Sua alma encontra-se nas suas fases e jogabilidade, o que de forma alguma o restringe aos mais aficionados por cultura pop japonesa. Ainda assim, o propósito da cidade está longe de servir apenas como um alívio cômico entre uma fuga e outra. 

A possibilidade de customização é o ponto chave de Slumptown e é nela que Slime-san poderá adquirir novas habilidades, roupas, fundos para o cenário e até sombreamento. Destas, a primeira é a que afeta mais diretamente o fator gameplay. E, por mais que Slumptown seja convidativa, é chegada a hora de retomar a fuga e tentar escapar do infortúnio que é viver dentro de uma minhoca gigante.

Corre, Slime-san, corre!

Toda fuga exige agilidade, estratégia e cautela (um lugar comum nos jogos plataformas como ressaltei acima) e Slime-san consegue balancear esses fatores com precisão. Com controles bem intuitivos e mecânicas simples, a pequena gosma verde consegue pular, grudar nas paredes, correr em disparada (o famoso dash) e até se metamorfosear conseguindo, assim, atravessar alguns obstáculos que não contenham ácido gástrico vermelho. Tão simples que já nas primeiras fases sentia que dominava os controles completamente. 

As demais habilidades e formas que podem ser adquiridas em Slumptown contribuem como um elemento dinamizador dessa mecânica simplória e, apesar de apresentar uma variedade consistente, quase não se fazem necessárias no jogo. São mais de 100 fases que compõem o corpo da minhoca, cada uma contendo a sequência de quatro mapas, totalizando 400 no geral. Todas elas divididas em cinco grandes mundos, da cauda à boca, apresentando os mais criativos e variados puzzles. Algumas delas, inclusive, chegam a trazer easter eggs como mapas no estilo Tetris.

Confesso que as fases poderiam ter sido melhor distribuídas. Mesmo com puzzles variados e nada repetitivos, a concentração de 20 estágios por mundo tornou a experiência um tanto cansativa de tal modo que eu não conseguia jogar mais do que cinco fases seguidas; precisava raciocinar demais em cada uma delas e daí a necessidade de dar aquela pausa, curtir Slumptown mais um pouco ou fechar tudo e ficar a toa na internet antes de voltar ao jogo. Isso poderia ter sido amenizado com inclusão de mais mundos.

 Ainda diante dessa enorme quantidade de estágios, imaginei que em algum momento seria desafiado a mudar de forma e aderir outras habilidades, mas fiquei só na expectativa. Intrigado, decidi ir à Slumptown e adquirir algumas novas formas, como o Kawaii-san (que salta mais alto e flutua levemente) ou o Evil-san (que não consegue andar, mas pula mais alto e também realiza o dash mais rápido). Não consegui me acostumar com nenhum deles e voltei a ser o simples Slime-san. Conclui, tardiamente, que esse era o objetivo: conceder total liberdade ao jogador, oferecendo diferentes formas de vivenciar o jogo. Logo, acalmei minha ansiedade e continuei avançando as fases no estilo padrão. 




Para minha surpresa, já na reta final da minha fuga, me vi totalmente incapacitado de prosseguir. As habilidades do Slime-san já não eram mais suficientes. Cheguei a dar rage quit diversas vezes até que me encontrei de volta ao dilema anterior: ir a Slumptown, adquirir todas as formas e testar cada uma delas. Dessa vez funcionou e o Kawaii-san tornou tudo transitável. Mesmo assim, a sensação final foi a de um aproveitamento precário das demais habilidades por parte dos desenvolvedores. O jogo ainda transmuta repentinamente entre algo bem fluído e com dificuldade razoável para algo desnivelado e bastante punitivo.

Muito fácil, só que não

A agonia de estar sempre a mercê do tempo já é por si só um grande desafio. Somado a isso, temos as maçãs que podem ser coletadas em cada mapa (quatro por fase) e que servirão de moeda de troca em diversas lojas de Slumptown (inclusive as das formas e habilidades). Nesse quesito, também não poderiam faltar as passagens secretas, nas quais encontramos vítimas perdidas que podem ser resgatadas para a cidade, além de fichas que te darão acesso aos minigames do Arcade. Diante disso, fases que não levariam mais que dois minutos podem vir a durar 10, 20 e até 30 minutos, e foi justamente o meu caso nos mundos finais em praticamente todas as fases.

Slime-san é um jogo de tentativa e erro e, diante disso, montei instintivamente uma sequência para reduzir ao máximo meu número de mortes por fase: passar o olho por todo o mapa, visualizar os obstáculos e inimigos, localizar a maçã e por fim a placa que me permitiria seguir adiante. Tudo isso em questão de segundos antes de sequer me mover. Contudo, a morte nos primeiros momentos era praticamente inevitável e, por vezes, fundamental para conhecer melhor o mapa e repensar minha estratégia.



Durante os três primeiros mundos percebia que, mesmo que desse uma leve escorregada (literalmente) aqui e acolá, ainda conseguiria avançar no mapa com certo esforço. Meus deslizes eram perdoáveis. Para os mais hardcores talvez isso seja desmotivador, mas para um jogador mais casual como eu isso era instigante. Apesar disso, acabo ficando entre aqueles que gostam de um desafio a mais. No caso de Slime-san, só avançava na fase se conseguisse pegar no mínimo todas as maçãs. Nos dois últimos mundos, no entanto, o quadro mudou completamente. Parei de me importar com as maçãs; parei de me importar com o tempo, moedas ou passagens secretas. Cada mapa da fase em si já era um desafio ao extremo.

É bem comum as fases finais elevarem o nível dos jogos e os inimigos e chefes ficarem mais desafiantes. Aproveito para ressaltar o quão criativos, desafiadores e variados esses chefes são, mesmo tratando-se apenas dos órgãos da minhoca. Mas o Slime-san não apenas elevou o nível, ele se tornou punitivo. Punitivo ao ponto que não tive receio de ir a Slumptown e comprar as fases com as maçãs para poder pulá-las. Aliás, a existência de tal elemento revela que isso já era esperado por parte da Fabraz Company, o que gera certo alívio apesar de toda frustração.









Ainda tive que lidar com dois pequenos bugs que me impediam de avançar momentaneamente: um na fase Frogtastic Fantasy (66) e outro na Looping Lasers (67). Ao reportar o ocorrido no fórum Steam, os desenvolvedores relataram que os problemas haviam sido corrigidos na versão 1.0 do jogo, o que não ocorreu, pois essa era exatamente a versão que estava jogando e mesmo assim enfrentei os problemas. Todavia, a Fabraz disse que uma nova atualização seria lançada essa semana para evitar bugs do tipo no lançamento.

Depois de resetar o jogo, consegui prosseguir sem  mais problemas técnicos. Porém, o sentimento ainda era de que estava sendo penalizado na reta final por não ter explorado o suficiente as outras formas e habilidades, bem como por questões de domínio de tempo e sincronização. Algo que só não fiz e não me habituei antes porque o jogo não proporcionou esse desafio de maneira compassada no decorrer de toda a aventura.

Uma viagem para ser lembrada

Slime-san oferece uma experiência rica em detalhes com muito bom humor. Seja pelas cores, cidade, personagens, puzzles ou chefes, todos esses aspectos se sobressaem perante problemas apresentados na reta final. O jogo ainda propicia incentivos para que se retorne a ele, com New Game +, troféus nas fases, desafios no dojo e minigames do Arcade. Uma viagem que, de tão inusitada, merece ser lembrada e jogada. 

Talvez não seja a melhor opção para jogadores mais casuais do gênero, mas para os mais empenhados Slime-san pode vir a ser um delírio. Já para os que, como eu, ficam no meio termo, esse jogo certamente será um dos maiores desafios que você irá enfrentar no formato plataforma.

 Gambatte kudasai!

Prós

  • Jogabilidade balanceia muito bem agilidade e cautela; 
  • Puzzles muito bem elaborados e diversificados;
  • Visual agradável em cinco cores e com diversas customizações retrô;
  • Trilha sonora marcante e bem variada; 
  • Referências cômicas à cultura pop japonesa e geral.

Contras

  • A distribuição enorme de fases em um único mundo pode tornar a experiência cansativa;
  •  As diferentes formas do Slime-san, que deveriam dinamizar mais a jogabilidade, tem pouca utilidade;
  • Reta final bastante punitiva; 
  • Pequenos bugs que, não sendo corrigidos na versão final, irão atrapalhar a experiência propiciada pelo jogo. 
Slime-san — PC — Nota: 8.0

Revisão: Pedro Vicente

Marcell Solano é graduado em Letras pela Unisinos e entrou para o Blast como Redator com o intuito de unir duas coisas que ama fazer: escrever e jogar. Além de jogos, coleciona umas action figures e uns mangás com chamequinho transparente. Pode ser encontrado no Facebook e no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook