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Análise: Cosmic Star Heroine (Multi) é um dinâmico e nostálgico JRPG

Homenageando Chrono Trigger e Phantasy Star, o novo título da Zeboyd Games consegue ter cara própria, com virtudes e defeitos.

Ainda que Cosmic Star Heroine esteja olhando e homenageando uma era, e principalmente o ano de 1995, ele consegue ser um jogo moderno e com cara própria. Em seu caso, não apenas no bom sentido, mas também nos problemas. Se por um lado ele é bem competente em resgatar e repensar a era, por outro ele é bastante tosco, quase amador. De qualquer forma, o título é bastante agradável para quem gosta de um JRPG dinâmico, com sistemas inteligentes e uma história leve.


Noventa e Cinco é o ano de referência para CSH pelo fato de que os dois títulos que compõem seu DNA, e aos quais ele presta homenagem, são Chrono Trigger e Phantasy Star IV. Enquanto o primeiro é bastante influente em questões mecânicas e de sistema, o segundo se faz mais presente no enredo e na ambientação, ainda que CT também incida bastante sobre esses aspectos.

Controlamos Alyssa L’Salle, uma heroína da Agência de Paz Interplanetária que acaba encontrando um novo dispositivo em uma de suas missões, o que a faz descobrir uma conspiração em sua própria agência. A partir daí ela se torna uma fugitiva e, ao lado de um grande grupo de personagens, deve resolver os mistérios, enfrentar os vilões e salvar a galáxia.


A premissa é simples, e a história vai acontecendo de forma bem dinâmica. Há, também, uma preocupação em criar missões paralelas para que os personagens tenham mais tempo de exposição no enredo, e para que recebam equipamentos específicos. Alguns desses personagens do grupo entram de forma bem aleatória na equipe, e, mesmo com essa preocupação em criar situações, eles nunca são muito bem desenvolvidos.

Eles possuem uma personalidade bem estereotipada e não crescem durante a jornada. Alguns tipos funcionam, como o alívio cômico Clarke ou a própria heroína Alyssa, mas todos são tratados de forma bem rasa, deixando o desenvolvimento do enredo mais à cargo dos desdobramentos da própria trama.

A trama é simples, mas funciona muito bem. O perigo que enfrentamos vai crescendo e existem algumas viradas no enredo. A parte mais competente da narrativa de Cosmic Star Heroine talvez seja a construção e caracterização de seus três mundos. Ainda é uma apresentação pouco aprofundada, mas dá para ver que houve um esmero em diferenciar esses locais culturalmente, e isso acontece através dos arcos de história que ocorrem no lugar, bem como de suas identidades visuais.


Mas se do ponto de vista do enredo Cosmic Star Heroine é bem plano (nunca chega a empolgar ou desapontar, e cumpre seu papel), seus sistemas são bem mais interessantes. Aqui não existem encontros aleatórios ou até mesmo respawn de inimigos. Isso funciona muito bem, já que a ideia é que o jogo seja rápido e não tome muito tempo com tarefas que estendem artificialmente a jornada. É bom deixar claro que essa ideia de rapidez também circula a trama, o que redime um pouco seus estereótipos e diálogos mal escritos.

A batalha por turnos lembra os confrontos de Chrono Trigger, tanto pelo posicionamento da câmera quanto por alguns sistemas, mas Cosmic Star Heroine faz muitas proposições interessantes. O primeiro ponto é o sistema de Style e do Hyper. Existem golpes que aumentam o estilo do personagem (que vai de 0 a 300%), bem como outros que o gastam ou zeram. Quanto mais estilo, maior o dano das habilidades.

O modo Hyper acontece em um determinado turno, que é sinalizado abaixo do HP do personagem. Logo é possível se preparar para estar com um estilo maior, além de buffs, maximizando o dano no turno em que o personagem esteja em modo Hyper. O negócio é que os inimigos também vão aumentando seu estilo, e com isso dando danos cada vez maiores conforme os turnos vão se sucedendo.


É bem interessante a dinâmica que surge daí, já que gerenciar estilo e se preparar para o modo Hyper é essencial. Ao lado disso caminha um fato peculiar: a maioria dos golpes ficam inutilizados após serem usados, só sendo recarregados quando o personagem gasta seu turno para se defender e recarregar. Outro ponto que adiciona mais camadas de estratégia é a possibilidade de tecer conexões entre os personagens no que diz respeito ao estilo.

Um personagem pode roubar estilo do outro da equipe; há aquele que pode aumentar o estilo do resto do grupo, e por aí vai. Esses sistemas funcionam bem, e são o esqueleto do confronto de Cosmic Star Heroine. Há, ainda, um outro sistema importante, que é o dos escudos.

Cada personagem pode carregar um escudo, e cada escudo possui tanto atributos quanto golpes (programas) que são só dele. Os programas, no entanto, só podem ser acessados se o personagem possuir um dado número do atributo Hackitude. Ou seja, não é qualquer um, em qualquer nível, que vai acessar as melhores habilidades de um escudo.


Há um escudo especial que pode ser empunhado pela Alyssa. Com ele é possível realizar golpes em conjunto com os outros personagens. Os efeitos são bem variados, mas usar esse programa específico faz com que o estilo dos dois personagens vá a zero. Os efeitos são devastadores, então é melhor se planejar para usar de forma mais maximizada possível.

Os personagens possuem habilidades e esquemas diferentes de ataque e regeneração, fazendo com que o roster seja bem diferenciado no que diz respeito às mecânicas de jogo. Esse é um ponto bastante positivo de CSH, e mesmo dentre esse ponto alto do título, eu gostaria de exaltar dois personagens: o robô Clarke e a formiga Psybe.

O robô possui um esquema de se auto-destruir. Ele pode usar uma habilidade que aumenta o ataque do resto do grupo caso ele morra, e depois usar uma habilidade que ele recupera o grupo, ou dá dano nos inimigos, mas se auto-destrói. Pode parecer simples, mas isso faz com que a própria morte do personagem seja uma mecânica interessante de batalha, uma possibilidade de estratégia, e não algo que precisa ser contornado o mais rápido possível.


Já a formiga Psybe pode entoar canções, sendo que apenas uma pode estar ativa por vez (a canção possui seu próprio turno, assim como o drone da personagem Arette). E ele possui habilidades que terminam as canções, mas que causam altos danos, ou recuperação, no turno em que a canção é terminada. São habilidades que se relacionam bem com os esquemas do jogo: o style, hyper, e a forma como as habilidades precisam ser recarregadas.

Há, ainda, mais um interessante sistema tangencial às batalhas. Em dado momento, Alyssa se transforma a capitã de uma nave. A partir daí é possível recrutar personagens de suporte, e ativar um deles para gerar melhorias específicas. São coisas como dano extra, recuperação maior, mais experiência, etc.

Já as dungeons e os desafios dos cenários são um aspecto menos interessante e mais regular. Assim como o enredo e os personagens, não compromete ou desmerece a experiência, mas também não faz empolgar. Novamente, são aspectos que foram pensados para que o jogo fosse dinâmico, dessa forma, torna-se bem difícil aprofundá-los sem que a jornada fique maçante. É difícil, mas não impossível.


De qualquer forma, Cosmic Star Heroine traz cenários bem simples, sem desafios que se alternam muito. Há identidade visual forte, entretanto. O jogo é bonito, mas infelizmente o produto final não veio com o nível de detalhes que era demonstrado nos trailers. Dessa forma, alguns locais destoam dos outros nesse aspecto.

Há uma série de referências à locais e situações de Chrono Trigger. Desde uma feira muito parecida com a milenium fair, até referências visuais à batalha na Magus Tower, passando por outras. Também há uma homenagem ao primeiro Resident Evil, além das recorrentes referências à série Phantasy Star. Eu não costumo gostar da referência pela referência, mas sendo Cosmic Star Heroine um título que abertamente quer homenagear esses jogos (além de ser bem competente em seus sistemas), achei simpático.

Já a trilha sonora original do jogo é memorável. Desenvolvida pelo HyperDuck Soundworks, ela acompanha muito bem a temática. O tema de uma das batalhas finais é uma das peças mais agradáveis que ouvi em jogos nos últimos anos.


E assim, entre aspectos que justificam a existência do jogo em 2017, sistemas interessantes e bem feitos, derrapadas de design, problemas toscos (como não haver um loop na música) e uma infinidade de bugs nessas primeiras versões, Cosmic Star Heroine consegue ser um título que exemplifica bem os problemas e as possibilidades de se voltar para o passado.

Prós

  • Sistema de batalha competente e bem pensado;
  • Sistemas tangenciais interessantes;
  • Trilha sonora memorável;
  • Dinâmico, não quer criar longevidade artificial;
  • Referências simpáticas;
  • Personagens interessantes e carismáticos.

Contras 

  • Que não são muito bem desenvolvidos;
  • Trama simples e também sem muito desenvolvimento;
  • Muitos bugs nessas primeiras versões;
  • Cenários belos, porém repetitivos.
Cosmic Star Heroine — PC/PS4 — Nota: 7.5
Plataforma utilizada para análise: PS4
Em português? Não
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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