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Análise: Wonder Boy III: The Dragon's Trap (Multi) mostra uma roupagem nova para um jogo antigo

O jogo, originalmente lançado em 1989 para o Master System, é um dos melhores da época e mereceu o remake recebido pela Lizardcube.

Considerado por muitos como o melhor jogo da franquia do período 8-bits, Wonder Boy III: The Dragon's Trap é um dos títulos de plataforma 2D mais importantes da época. O remake, criado pelo time de desenvolvedores da Lizardcube e distribuído pela DotEmu, dá uma repaginada no game da SEGA, mas mantém as mecânicas originais, o que deve agradar aos jogadores veteranos, mas pode afastar os novatos.


A franquia Wonder Boy, apesar de excelente, carece de um certo apelo nostálgico por boa parte do público mundial, ao menos em relação aos seus jogos do período 8-bits, já que eles foram lançados originalmente no Master System, que sofreu com o domínio absoluto do NES nos Estados Unidos. Mesmo no Brasil, onde o console da SEGA fez um enorme sucesso, graças à Tec Toy (hoje Tectoy), a série não é tão lembrada, pois seus sprites foram substituídos pelos da Turma da Mônica. Na Europa, lar dos desenvolvedores do remake, por outro lado, Wonder Boy é lembrado com muita saudade por boa parte dos jogadores da época, incluindo membros da francesa Lizardcube, que declaram paixão pelos títulos do “Garoto Maravilha”, o que refletiu claramente no resultado que encontramos nesta versão de Wonder Boy III: The Dragon's Trap.

A armadilha do Dragão

O remake é fiel ao enredo do título original, com a vantagem de estar todo em português brasileiro, e se passa imediatamente após os eventos ocorridos em seu antecessor —  Wonder Boy in Monster Land —, quando o nosso protagonista, após vencer o Meka-Dragon, é amaldiçoado pelo dragão derrotado e transformado em “meio-humano, meio-lagarto”. Aqui há uma grata adição nesta versão, com a possibilidade de escolher tanto Wonder Boy quanto Wonder Girl.


Nosso herói deve então procurar uma cura, o que envolve explorar Monster Land novamente e enfrentar os seus diversos inimigos, que deixam dinheiro ao serem derrotados, como serpentes, sapos, ciclopes, nuvens malignas, peixes carnívoros, ninjas e samurais (por que não?) e, claro, dragões variados que servem de chefes para cada área diferente do jogo e seguem a sua temática. Na pirâmide, por exemplo, temos o Dragão-Múmia, e no fundo do mar há o Dragão-Pirata.


A cada novo dragão derrotado, a maldição é renovada e o esforçado herói é transformado em um animal diferente. São cinco transformações ao todo — lagarto, rato, piranha, leão e gavião — que mudam drasticamente a forma de jogar, cada uma com vantagens e fraquezas. A forma inicial de lagarto ataca cuspindo fogo e tem um ataque maior, mas precisa se defender atirando, já as demais usam espada e escudo normalmente. O gavião voa, mas não pode tocar na água. A forma de rato permite grudar em paredes específicas, além de passar por áreas mais apertadas, porém tem um alcance muito curto e precisa atingir os inimigos de muito perto. Dessa forma, as habilidades únicas de cada animal permitem alcançar setores diferentes do mundo, bem como voltar em áreas anteriores antes inacessíveis.

Na versão brasileira da Tec Toy, Wonder Boy III dá lugar a “Turma da Mônica em O Resgate”. Em vez de um protagonista passando por diversas transformações em diferentes animais, o jogo alterna entre personagens originais dos quadrinhos da “dentuça” que, no enredo, foi sequestrada pelo Capitão Feio (chefe final) e deve ser resgatada.

Encarando a terra dos monstros

Dragon’s Trap é permeado com muitos segredos e exploração relativamente não-linear (já que algumas áreas não são acessíveis sem a transformação necessária, que vem em ordem fixa). Várias portas secretas estão espalhadas por todo o mundo do jogo, o que permite encontrar lojas com equipamentos exclusivos, hospitais num calabouço complicado, baús de tesouro com dinheiro e itens, ou até mesmo corações extras. Por isso, vale a pena, sempre que desconfiar de uma área diferente, colocar o direcional para cima, pois pode aparecer uma porta quando menos se espera.

Em determinado momento do jogo, as transformações poderão ser escolhidas à vontade e escolher a melhor forma será essencial para passar pelos desafios seguintes. O problema é que a cabine que permite alternar entre animais está um pouco escondida na cidade inicial e pode comprometer quem passar despercebido — então fique ligado.


A mecânica original foi toda mantida e é basicamente um jogo de plataforma 2D com elementos básicos de RPG. Assim, enfrentar os inimigos durante a exploração não será tão fácil, já que os controles não são muito precisos como nos games atuais e acertar os inimigos, por vezes, parece aleatório, principalmente nas lutas contra os chefes. Outro problema é que, ao ser atingido pelo inimigo, o personagem é jogado para trás e não é possível se mover até tocar o chão, não levando dano por isso. O herói acaba sendo jogado de um lado para o outro sem poder fazer nada até que o ataque seja interrompido. A verdade é que os games desse gênero evoluíram consideravelmente com o passar dos anos e os novatos podem não se acostumar facilmente às mecânicas de antigamente.

Previsto para 2017, Monster Boy and the Cursed Kingdom, que é um sequência oficial de da franquia Wonder Boy, também contará com transformações em diversos animais, mas elas serão feitas instantaneamente quando o jogador desejar, após seu respectivo desbloqueio. Além disso, os controles serão modernos, deixando as mecânicas antigas no passado.
Wonder Boy (ou Girl), quando não é um lagarto, conta com espada, armadura e escudo, que melhoram os pontos de ataque e defesa, que podem ser aumentados conforme equipamentos mais caros são comprados nas lojas. Algumas servem melhor a determinado animal, então é necessário confirmar qual vale mais a pena depois de uma transformação. Há também armas secundárias, deixadas por alguns inimigos ao serem derrotados, como bolas de fogo, flechas e bumerangues. Este é o único que não gasta após o seu uso, desde que volte para o herói após o ataque.


O jogo todo só tem uma loja, bem distante, que vende poções para recuperar a vida após perder todos os corações — não há itens para recuperar o HP antes disso. A outra forma de adquirir esse item tão importante é se algum inimigo deixar cair após ser derrotado, o que é bem raro. Por isso, cada empreitada por uma área mais longa pode facilmente acabar em morte. Felizmente, morrer não é tão problemático, já que apenas as armas secundárias são perdidas, e o protagonista aparece na vila principal com o restante do seu progresso intacto, incluindo as equipamentos e dinheiro.
Ao sair e voltar ao jogo, o personagem aparecerá na vila inicial, não importando quão distante esteja de lá. Esse pode ser um bom atalho, já que não se perde absolutamente nada do progresso, sendo mantidos inclusive as armas secundárias. Outra dica é que certos inimigos próximos a uma área de transição dropam itens e o seu reaparecimento é constante. Basta derrotá-los, pega o item, passar para a área seguinte e retornar para repetir o processo.

Visual deslumbrante e músicas cativantes

O grande diferencial deste remake de Dragon’s Trap está claramente em seu visual e músicas. Se levarmos em consideração que a versão original já era um belo jogo para a época, fazendo um excelente uso do hardware do Master System, que era mais potente que o do NES, a versão refeita ficou realmente um trabalho de muito bom gosto. Trata-se de uma mistura entre desenho à mão e pintura que levou muito mais vida ao jogo. Não só os personagens e NPCs ficaram com mais emoção, como os cenários ganharam vida onde antes não havia nada, combinando muito mais com a temática da área. Fica ainda mais fácil de perceber todo esse trabalho primoroso graças à possibilidade de alternar entre o visual novo e o antigo de 8-bits com o simples apertar de um botão do controle — o mesmo vale para as músicas e efeitos sonoros (também é possível misturar tudo, tendo músicas de um e visual de outro).


As músicas do título original, compostas por Shinichi Sakamoto, já eram excelentes. Tão agradáveis que mesmo repetitivas em certos momentos não incomodavam. A versão do remake as recriou utilizando diversos instrumentos, como violino, violão, oboé e bandolim. O resultado ficou tão bom que você se pegará cantarolando trechos das músicas e talvez até as escute em seu tocador favorito. Na galeria, há vídeos documentando parte desse inspirado trabalho.

Um algo a mais

Apesar do jogo funcionar com salvamento automático e contar com três espaços para salvar partidas diferentes, o pessoal da Lizardcube, em um gesto de pura nostalgia, manteve o sistema de senhas — mesmo as antigas, do game original de 1989, irão funcionar normalmente. Outro extra interessante é que, após finalizar o game, ainda há “pedras encantadas” espalhadas pelo mundo para serem encontradas, uma para cada transformação. Cada uma vale um troféu e serve mais como uma diversão extra, já que não há novo chefão para ser derrotado, mas há inimigos comuns mais fortes que o normal.
Quer liberar todas as transformações e equipamentos, além de 8 corações, bastando ir ao último chefe para terminar o jogo em minutos? Apenas use a famosa senha do jogo original, que apareceu em muitas revistas da época: "WE5T ONE 0000 0000". Para usar senhas, basta iniciar um novo jogo e selecionar a dificuldade. Na tela seguinte, em vez de escolher o gênero do personagem, aperte o botão que mostra abaixo para colocar senha (no PS4 é triângulo).
Wonder Boy III: The Dragon's Trap é um desses títulos que marcaram época e que mereciam receber um remake, ainda que praticamente apenas estético. As mecânicas do jogo permaneceram as mesmas, para o bem ou para o mal, já que, por não serem tão modernas, podem não agradar aos novatos, mas certamente os veteranos não se importarão. O pessoal da Lizardcube provou que é apaixonado pela série e refizeram o visual e músicas com tanto empenho que o resultado é um convite tentador para retornar — ou iniciar — as aventuras em Monster Land que deveria ser aceito por qualquer jogador.

Prós

  • Visual desenhado à mão;
  • Músicas refeitas com diversos instrumentos;
  • Todo em português brasileiro;
  • Extras nostálgicos.

Contras

  • Mecânicas datadas.
Wonder Boy III: The Dragon's Trap — PS4/XBO/Switch — Nota: 9.0

Plataforma utilizada para análise: PS4.
Alberto Canen é formado em Direito pela UFRN. Joga videogame desde os tempos do Atari e sempre acompanha as novidades na indústria de jogos. Está no Facebook e no Twitter.

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