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Análise: The Sexy Brutale (Multi) — homicídios e viagens no tempo

Com uma trilha sonora excelente, visuais cartunescos e ambientação macabra, The Sexy Brutale é divertido e inesquecível.


Uma das melhores partes de ser um fã de videogames hoje em dia é a possibilidade de ser pego de surpresa por jogos de diversos tamanhos que são lançados despretensiosamente. The Sexy Brutale (Multi) chega para nos lembrar disso — uma semana atrás, eu não sabia de sua existência e, hoje, penso que estará presente entre meus favoritos do ano.

The Sexy Brutale é um jogo de puzzles cercando diversos homicídios. O jogador deve utilizar elementos do ambiente (uma enorme mansão-cassino-hotel) para evitar as mortes dos hóspedes. Com a ajuda de um relógio de bolso, o protagonista, Boone, pode voltar no tempo até o meio-dia e revisitar todos os eventos daquela tarde macabra. A ideia não é original, sendo claramente influenciada por jogos como The Legend of Zelda: Majora's Mask (N64), no qual os personagens têm rotinas que podem ser exploradas nos próximos ciclos (além da abundância de máscaras), e de Ghost Trick: Phantom Detective (DS), um cult classic da Capcom em que um fantasma manipula objetos do cenário para evitar as mortes de personagens. O conceito não ser original não é nenhum demérito: pelo contrário, acho uma pena quando uma ideia de jogabilidade bacana é deixada de lado apenas porque "ela já foi feita antes". The Sexy Brutale aproveita a proposta de uma maneira que é única, nunca por um momento parecendo uma cópia.

A jogabilidade principal é similar a um point-and-click sob perspectiva isométrica. Devemos atravessar portas, interagir com objetos, olhar através de fechaduras e ouvir sons e conversas para conseguir montar um mapa (mental e literal, graças ao mapa dinâmico da tela de pause) de onde e quando cada coisa acontece durante o dia. Também devemos evitar contato direto com os outros personagens, nos escondendo em outras salas e dentro dos armários — ao estar na mesma sala que outro personagem, uma animação mostra a máscara daquele personagem perseguindo Boone, mas sempre tive tempo suficiente para fugir antes de ser pego. É um exemplo de mecânica que não serve necessariamente para deixar o jogo difícil, mas sim para que o jogador saiba que não pode interferir diretamente com o assassino ou a vítima, tudo deve ser feito em segredo.



Sem dúvida é muito divertido começar a desvendar um dos homicídios — sem saber onde os personagens começam ou dia ou acabam morrendo — e aos poucos poder ter uma ideia sólida do ocorrido. Na verdade, recomendo passar o primeiro ciclo sem interagir com nada além das cartas colecionáveis (que podem ser divertidas de coletar por si só), para poder entender a estrutura da cena do crime e testemunhar a morte de fato: todas elas são bem diferentes e, atráves de uma ótima direção visual e sonora, são grandiosas e tensas. Nas primeiras vezes, eu não segui esse conselho e, por duas vezes, acabei resolvendo o mistério antes de poder entender por completo o que estava acontecendo, o que foi um pouco decepcionante.

Após estabelecer o mistério por trás da morte do hóspede, é hora de vasculhar a região atrás de pistas e objetos que podem ajudar a evitar o homicídio. Precisamos encontrar falhas nos planos do assassino, ou desfazer algum elemento crucial que foi preparado para permitir o assassinato. Cada caso é resolvido de formas vastamente diferentes e um pequeno detalhe pode ser a diferença entre descobrir ou não a solução para o quebra-cabeças. Ao concluir o segmento e evitar o homicídio, Boone adquire a máscara do hóspede que ele salvou, abrindo para o jogador um novo poder, que permite acessar novas áreas da mansão.



Nesse sentido, acredito que o que mais me fascinou foi a direção sonora do jogo. Além da trilha sonora excelente, que preenche cada região da mansão com um swing empolgante (além da dramática transformação na hora de testemunhar uma morte), a repetição diária é um aspecto fundamental da sonoridade. A primeira morte, por exemplo, ocorre às 16h e foi causada por um tiro de escopeta; em todos os ciclos diários subsequentes, ouvimos o tiro ocorrendo no mesmo horário. Quase todas as mortes dão algum sinal sonoro do evento, que nos deixa curiosos para saber o que está acontecendo na mansão. Em alguns casos, esses sinais funcionam como dicas para resolver um mistério, quando notamos a importância dos horários em que as coisas acontecem.

A combinação do estilo point-and-click com a mecânica de viagem no tempo é sempre muito interessante. Não basta encontrar os itens e usá-los nos lugares certos, é necessário saber quando pegá-los e usá-los para evitar o contato direto com os personagens. Infelizmente, apenas uma vez senti que há uma complexidade maior nesta sequência: na maioria dos mistérios, bastam duas ou três ações nos momentos certos para que os destinos das vítimas mudem. Também pode ser um pouco chato quando sabemos que uma ação precisa ser feita às 15h30, mas o relógio só nos dá a opção de pular para 16h ou 20h.



Ao redor de todos os homicídios, há uma narrativa que conecta tudo. Tornando-se aparente no decorrer do jogo, posso dizer que gostei de seu desenrolar e conclusão, mas dizer qualquer coisa além disso seria um spoiler, assim como dar detalhes de cada morte. Nessa altura, no entanto, a narrativa apenas complementa um jogo que se sustenta perfeitamente em suas mecânicas, visuais e construção de momentos dramáticos e empolgantes.

Não posso deixar passar que o jogo ainda tem alguns probleminhas técnicos, como ocasionais quedas de framerate ou momentos em que o controle se comporta de forma estranha. Considerando o estilo do jogo e a baixa necessidade de comandos extremamente precisos, não chega a incomodar, mas sempre é melhor quando essas questões são evitadas.

The Sexy Brutale traz um conceito pouco utilizado de uma maneira única e divertida, aproveitando sua estética e sonoridade para proporcionar momentos memoráveis e quebra-cabeças divertidos. É uma pena que algumas soluções sejam simples demais; um pouco mais de complexidade teria beneficiado muito a satisfação de resolver os mistérios. Ainda assim, várias das soluções são satisfatórias e, em todos os casos, a sensação de descoberta em trechos é bastante empolgante.

Prós

  • Trilha sonora excelente;
  • Visuais e sons produzem cenas de morte grandiosas e memoráveis;
  • Conceito principal é pouco explorado em games e é bem aproveitado aqui;
  • Progressão é ditada pelos poderes das máscaras dos hóspedes;
  • Colecionáveis divertidos de adquirir aumentam a longevidade do jogo.

Contras

  • Alguns dos mistérios são resolvidos muito rapidamente;
  • Às vezes, não há o que fazer senão esperar até um determinado horário;
  • Alguns pequenos inconvenientes de controle e taxa de quadros.
The Sexy Brutale — PC, PS4 e XBO — Nota: 9.0
Plataforma usada para análise: PS4
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do GameBlast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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