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Análise: Night in the Woods (PC/PS4) — triste e feliz

O belo e melancólico jogo é focado em seus personagens, exploração e história.

Quando eu era adolescente, descobri as músicas de um camarada chamado Jeff Buckley, e elas não eram as mais alegres do mundo. De qualquer forma, fiquei bem fã do som do cara. Pouco tempo depois, começando a me interessar pelas músicas dos anos 60/70, fiquei sabendo que o pai do Jeff era um cantor famoso da época. Baixei a discografia do finado músico e, ouvindo as canções, fiquei um bom tempo pensando no nome e na capa de um dos discos. Compreenderia melhor muitos anos depois.


Night in the Woods é uma obra bastante focada em seus personagens, seus temas e ambientes. É basicamente um jogo no qual o central da experiência está no desenvolvimento do enredo e nas interações que realizamos em nossos dias pela cidade de Possum Springs, mesmo que tenhamos uma relativa liberdade em pular por aí e conhecer a cidade. Não é um jogo exatamente feliz.

Controlamos a gatinha Mae, que larga a faculdade (provavelmente em uma cidade grande) e retorna para a casa dos pais, na pequena Possum Springs. A cidade está em processo de decadência, já que a indústria mineradora não existe mais ali há um tempo, levando com ela pessoas, comércios e outras empresas. A maioria dos jovens quer sair desse lugar, e muitos dos mais velhos se agarram em preconceitos ridículos nesse momento de crise. Você controla uma jovem que, mesmo tendo chance de sair dali, largou tudo e resolveu voltar.


O caráter melancólico da cidade e de seus habitantes vai se delineando a partir das interações que realizamos. Algumas dessas são rotineiras (falar sempre com tal personagem aqui, com outro acolá), enquanto outras fogem um pouco desse ciclo. É interessante como a própria personalidade da Mae vai se apresentando ao jogador, já que sua vida está envolta em alguns mistérios desde o começo do jogo.

É conversando com os outros habitantes da cidade que vamos conhecendo mais sobre eles e sobre a própria Mae. A maior parte do tempo nós apenas vamos guiando ela em sua exploração da cidade, conversando com os outros personagens e realizando uma ou outra escolha de diálogo. Em alguns momentos precisamos realizar outros tipos de ação, mas nada que desvie muito do foco na trama.

Night in the Woods aposta no visual e, principalmente, nos personagens e na história para cativar. Aí entra bastante o tipo de enredo e personagens pelo qual o jogador se interessa, mas, do ponto de vista objetivo, não dá para negar que há uma preocupação em criar várias camadas para os protagonistas e, também, para a cidade de Possum Springs como um todo.


Entra também o quanto você se identifica ou não com o problema central da personagem, que é estar em um limbo muito mal definido entre a adolescência e a vida adulta. Uma questão que é bem latente para muitas pessoas, e que inclusive é bastante falada por aí. O que difere Night in the Woods de outras expressões que tratam do tema é que ele faz o jogador controlar e entrar na pele de uma personagem que muitas vezes irrita.

A Mae é simpática e tudo mais, mas por muitas vezes ela é bastante egoísta e imatura. E o jogador precisa participar de interações e escolher opções de diálogo que invariavelmente mostram essa personalidade complicada. Não que o jogo seja duro o tempo inteiro com ela, mas a ideia aqui é criar empatia tanto nos momentos em que entendemos Mae, quanto naqueles em que vemos ações e discursos bem cretinos vindo por parte dela. Em termos gerais, o que acontece em Night in the Woods pode ser algo muito pessoal para você, seja vivendo esses problemas no presente ou lembrando de seu passado, ou pode simplesmente parecer mais uma obra sobre crises existenciais de jovens de classe média que nunca carpiram um mato ou faxinaram uma casa. O legal é que existem personagens que fazem essa crítica ao longo da trama.


Os personagens, todos figuras animais antropomórficas, são simpáticos em seu visual e cheios de angústias, tristezas, alegrias e objetivos. Geralmente suas personalidades também vão se apresentando conforme os dias vão passando e as interações acontecendo.

Os personagens vão se mostrando e, ao mesmo tempo, contrapondo ideias, objetivos e sentimentos, fazendo com que a protagonista tenha que enfrentar seus próprios medos e escolhas. Mae acaba se encontrando com uma jovem que possui um sonho bem específico e que despreza a cidade; com seu melhor amigo da escola super animado que agora é casado com um rapaz extremamente doce e cuidadoso; com uma amiga de infância da qual se distanciou e que possui um sentimento bem forte em relação à Mae ter largado a vida em outra cidade; com seus pais em um momento financeiro delicado.

Usando essa alegoria de animais, o jogo trabalha com uma série de temas como a distinção entre a cidade pequena e a grande, o conflito de gerações, a angústia do trabalho (e da falta dele), a relação com família, amores e amigos, além de uma metafísica interessante em diálogos com algo que o jogador pode tomar como Deus. Tudo isso se relacionando à falta de um norte, e de como as pessoas vão deixando os dias passar mesmo sentindo algo muito incômodo.


Há, além de uma melancolia em diversos desses encontros, um senso de humor com a decadência e com os problemas. Alguns diálogos vão no sentido de piadas de auto-piedade. Entre a forma como conversas expõe a miséria de cada vida e chistes com o currículo-zumbi (aquele que anda por vários lugares, mas já está morto), Night in the Woods vai encontrando alguma graça em momentos possivelmente desesperadores.

Mas ao lado de cada uma dessas histórias tristes, vem também uma boa dose de esperança, ou pelo menos de conexão com algo que faz a vida valer a pena. As amizades são essenciais para que Mae identifique quais são os seus problemas e comece a trabalhar em um processo de solução deles (se é que são coisas que ela realmente pode resolver). Isso também acontece com os outros NPCs que vamos encontrando.

Enquanto um senhor procura nas constelações um passatempo (e muitas estórias), uma pastora tenta ajudar um sem-teto. Há uma jovem que escreve e recita poemas, e outro que cuida de um grande rato nos esgotos. Dentre tanta gente, os amigos de Mae são os que vamos conviver por mais tempo.


Há uma rotina na vida de Mae em sua volta à Possum Springs. Todo dia podemos ter diferentes interações e, ao final, nos encontrar com toda a turma ou com alguém em específico. Esses momentos intercalam o ciclo de conversas e exploração da cidade, fazendo com que sempre exista algo diferente no fim de cada dia.

Geralmente há alguma espécie de minigame ou mesmo algum tipo de ação que nem chega a isso, mas que traz um novo momento na vida da gatinha. As principais mecânicas de jogo (para além de andar pela cidade, pular e conversar com as pessoas) se dão nesses encontros.

Mae e seus amigos ensaiam com uma banda, e em quase todos os capítulos teremos que encarar uma espécie de “Guitar Hero”. As primeiras canções são bem tranquilas, mas mais pro final a coisa fica complicada. Outra atividade recorrente são os pequenos furtos, que são basicamente jogos de mover o analógico quando o olho do atendente não está virado pra você.

Essas diferentes atividades complementam diretamente certos encontros e interações. E o central de Night in the Woods é justamente ir mostrando pro jogador (a partir do interesse dele) a história desses personagens. Mae tem um passado conturbado, além de não sabermos os motivos que a levaram a sair da faculdade. Seus amigos lidam com a vida cotidiana em uma cidade que está morrendo. Seus pais lidam com problemas financeiros. Seus conhecidos caminham em uma corda bamba entre algum tipo de esperança ou alegria e o desânimo total. Sobretudo, a cidade de Possum Springs vai, a partir das histórias de seus habitantes, se revelando aos poucos.
Sentiam-se, ao mesmo tempo, felizes e tristes.
Acostumados com comerciais de margarina e com novelas e filmes estúpidos, geralmente é difícil pra gente pensar que a tristeza e a alegria podem coexistir. Mas a vida vai, aos poucos, nos mostrando o contrário. É comum que não estejamos apenas com um estado de espírito, já que muitas vezes é a morte de algo que abre caminho para o novo. Muitas vezes algo acaba, mas resta a alegria de ter existido. Night in the Woods é sobre a vida de Mae, seus conhecidos e sua cidade. É sobre como é possível achar tristeza na alegria, e felicidade na melancolia. Ou pelo menos sobre como é necessário achar algo pra se agarrar no fim de tudo.

É, sobretudo, sobre nada. Sobre esse estado de indefinição que muitas vezes imobiliza. Sobre como a falta de objetivos claros e necessidades objetivas urgentes cria pessoas em crise. E como existem diferentes tipos de crise e diferentes formas de dar resposta.


E, nesse tom, animais fofos vivem vidas muito parecidas com as nossas. Rotina e atividades extraordinárias se alternam, ao passo que o mundo vai acontecendo para fora da nossa janela. Night in the Woods nos faz viver alguns dias numa cidade pacata, enquanto nossa personagem, e talvez a gente, procura um caminho no meio da morte de algo ou a felicidade no meio da tristeza.

Prós

  • Visual simpático e intuitivo nas interações;
  • Personagens carismáticos e cheios de camadas;
  • Enredo interessante e alegórico;
  • Senso de humor.

Contras

  • Ainda que o senso de rotina seja importante pra narrativa, em muitos momentos o jogo é raso mecanicamente.
Night in the Woods — PC/PS4 — Nota: 8.0
Revisão: Bruno Alves
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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