Discussão

A E3 está perdendo relevância?

Maior feira de jogos do planeta enfrenta a forte concorrência de outros eventos organizados por grandes empresas do mercado de videogames.



Em 2017, a Electronic Entertainment Expo, ou simplesmente E3, entrará em sua 22ª edição. Por mais de duas décadas, o evento foi palco dos principais anúncios da indústria de videogames. Entretanto, nos últimos anos, a feira vê o protagonismo ameaçado com grandes empresas optando por apresentações próprias. Em 2016, por exemplo, a EA Games escolheu não participar e organizou a EA Play, que aconteceu dois dias antes da E3. A Activision e a Disney foram outras produtoras que não deram as caras. Já a Sony, apesar de estar na feira, guardou muitos segredos para revelá-los somente no PlayStation Experience, realizado no mês de dezembro passado. Estaria o maior evento mundial de games com seus dias contados?


Para Cliff Bleszinski, criador de Gears of War, a resposta para a pergunta é sim. "A E3 está em um estranho estado de mudanças. Certamente, todos já viram as notícias de que muitas companhias não estarão lá. Se alguém for ao evento, seria melhor estar do lado de fora. Claro que a feira receberá muitos jornalistas e pessoas influentes, será em Los Angeles e terá algumas celebridades e coisas do tipo. Mas, de resto, os dias daqueles espaços enormes estão contados. Não acredito que a feira vai morrer amanhã, mas está com seus dias contados", disse o profissional um mês antes de a E3 2016 começar.

Como se já não fosse ruim o suficiente a ausência de estúdios importantes, o evento também está deixando de ser a primeira opção das empresas no quesito grandes anúncios. A própria Nintendo, que transmite pela internet o Direct ao longo do ano inteiro, abandonou a realização de uma conferência presencial e, nos últimos anos, vem preferindo realizar apresentações via streaming. Além disso, a Big N deu outro indício da redução de relevância da E3 com a maneira que tratou o seu mais novo console. Em 2016, a companhia de Quioto não soltou uma palavra sobre o então NX durante toda sua participação. O projeto “virou” Switch em um trailer publicado no YouTube e os detalhes da plataforma se tornaram públicos em evento organizado pela própria Nintendo e transmitido pela internet.
Nintendo Switch foi revelado ao mundo através de um vídeo no YouTube


Essa foi a primeira vez que um importante console de mesa chegou ao mercado sem anteriormente passar pela prova de fogo da E3, que acontece desde 1995 e serviu como primeiro contato entre os jornalistas e videogames como o Nintendo 64, PlayStation, Xbox, GameCube, PlayStation 2, Xbox 360, Wii, PlayStation 3, Xbox 360, Wii U, PlayStation 4 e Xbox One. E pelos resultados iniciais que indicam boas vendas, parece que não ter participado da feira foi algo sem relevância para o Switch. Agora resta aguardar para descobrirmos se a Nintendo está guardando alguma características ou serviço especial, como o especulado virtual console de GameCube, para ser mostrado na E3 2017 ou se o evento será algo de importância mínima na vida da plataforma híbrido.

Deixando a E3 de lado

Apesar de ser melhor do que um parque da Disney para quem curte jogos, a E3 não era pensada para o grande público, até a edição de 2016. O evento servia como ponto de encontro para os profissionais da indústria fecharem negócios e parcerias, além de aproveitarem a massiva presença de jornalistas do mundo inteiro para divulgarem suas novidades para os cinco continentes. Entretanto, com o avanço da internet, cada vez mais essas atividades podem ser realizadas sem a necessidade de viagens e cansativos deslocamentos. Por exemplo, os executivos da Nintendo podem realizar uma videoconferência direto do Japão com os representantes do estúdio Yacht Club Games, que fica na Espanha, para combinarem a fabricação do amiibo de Shovel Knight.

Além disso, qualquer desenvolvedor indie atualmente consegue adquirir na internet uma lista com os contatos de veículos de comunicação especializados em games para divulgar seus projetos. A popularização da grande rede também é um atrativo para as empresas apostarem que seus eventos próprios terão grande audiência. Voltando a usar a Big N como exemplo, quantos brasileiros não ficaram acordados na madrugada do dia 13 de janeiro para acompanharem em primeira mão as novidades sobre o Switch que vinham ao vivo diretamente do Japão? E quantos fãs da Sony não foram ao delírio ao saber do desenvolvimento de The Last of Us 2 e Crash Bandicoot N Sane Trilogy durante o evento PlayStation Experience 2016?
Sony já tem sua "E3 própria"


Apesar de não ser aberto aos fãs, a Microsoft também vem realizando eventos próprios. É o caso do Xbox Spring Showcase, que aconteceu em fevereiro do ano passado e foi fechado para a imprensa. Nesse encontro foram confirmadas novidades sobre Dark Souls III, Forza Motorsport 6, Gears of War, entre outros títulos. Ter toda a atenção dos jornalistas para si também é outra maneira de explicar a preferência das empresas em realizarem festinhas particulares ao invés de estarem na E3. Enquanto que na feira os profissionais da imprensa ficam divididos entre centenas de notícias, no evento fechado todas as manchetes do dia seguinte tendem a ser sobre o que o organizador do encontro tem a anunciar.

Como voltar a crescer?

Percebendo que a concorrência está ficando pesada, os organizadores da E3 prepararam uma enorme mudança para a edição de 2017: os portões serão abertos ao público em geral. Quem tiver interesse em experimentar diversos títulos que só chegarão ao mercado nos meses seguintes ao evento poderá adquirir ingressos que custam a partir de 150 dólares. Serão disponibilizadas cerca de 15 mil entradas. A medida pode parecer interessante, afinal, os desenvolvedores poderão saber exatamente qual o desejo de seus consumidores através desse contato mais próximo. Entretanto, para que realmente surta os efeitos desejados, será preciso um nível extremo de organização.
Será que cabem mais cinco mil pessoas?


A E3, normalmente, é lotada de jornalistas do mundo inteiro que viajam para os Estados Unidos com o objetivo de fazer a cobertura do evento. Filas enormes em todos os estandes são inevitáveis, principalmente nos da Nintendo, Sony e Microsoft. Agora, imagine acrescentar mais cinco mil pessoas por dia de evento, totalizando as 15 mil nas três datas. O Los Angeles Convention Center, que já costuma ser bem cheio, vai ficar ainda mais abarrotado na edição deste ano. Se a organização não for impecável, é capaz dessa iniciativa de abrir os portões acabar significando um tiro no próprio pé.

A E3 que todos queremos

Quase 100% dos fãs de videogames, com certeza, tem alguma boa lembrança relacionada à E3. A feira faz parte da história da indústria e sua importância jamais será apagada. Por isso, seria muito negativo se o evento perdesse sua relevância e acabasse diluído em várias pequenas apresentações organizadas pelas próprias empresas e transmitidas via internet. A iniciativa de abrir ao público pode sim render frutos positivos e atrair a atenção das grandes empresas de volta, já que nada melhor do que o feedback dos consumidores para melhorar seus produtos e crescer ainda mais. Porém, a organização será fundamental.
Quem nunca sonhou em estar nesse lugar?


Caso os resultados de 2017 mostrem que não foi uma boa ideia retirar a exclusividade da imprensa, a E3 terá mais um ano para tentar se reinventar e chegar renovada em 2018. Fato é que da maneira como o evento está sendo organizado, não vai demorar muito para que a previsão de Cliff Bleszinski se torne realidade e a feira não morra amanhã, mas continue “com seus dias contados”. A torcida é para que nossa querida E3 reconquiste sua força e volte a ser aquele período mágico na vida de qualquer jogador.
E para você, caro leitor, o que achou dessa iniciativa da E3 de abrir os portões para o grande público? Acha que renderá bons resultados? Que outras medidas poderiam ser adotadas para atrair as grandes empresas novamente? Deixe sua opinião nos comentários e vamos discutir o assunto.
Revisão: Luigi Santana
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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