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Análise: Stories Untold (PC) é uma das melhores experiências de terror em anos

Andando em uma fina linha entre usabilidade e imersão, apesar de deslizes, Stories Untold entrega uma das experiências mais sólidas do gênero.

Terror é um gênero complicado de se criar. Em uma mídia que por muitas vezes é tratada apenas como uma janela para uma fantasia de poder de seu público; como justificar fazê-lo se sentir indefeso, solitário ou assustado? Não é a toa que por algum tempo, com os jogos focando cada vez mais em uma ação frenética, o terror foi deixado de lado por grandes desenvolvedoras. Podemos ver uma esperança no horizonte da volta de grandes títulos de horror com Resident Evil 7 e outras promissoras novas franquias; mas mesmo neste contexto, há riscos que apenas os indies podem se dar ao luxo de correr, e Stories Untold certamente é uma aposta arriscada.



Casas abandonadas são assustadoras, certo? Navegar por uma foi a premissa da tão bem recebida demonstração de Resident Evil 7 (Multi); e de certo modo de P.T, se você abranger bem seus conceitos de casa abandonada. E navegar por uma casa através de texto? Quem jogou adventures de texto sabe que havia uma boa quantidade de jogos de horror e o quão imersivos eles eram; mas para quem não jogou ou até mesmo para fãs que não se mantiveram no gênero, é difícil acreditar que eles consigam se manter tão imersivos, e é disso que Stories Untold tenta nos convencer a princípio. Com uma abertura à Stranger Things em trilha sonora e logotipo; uma boa capa de VHS no título e um daqueles computadores “trambulhão” em seu primeiro jogo, Stories Untold nos convida em um primeiro momento a apostar na nossa nostalgia; mas nos mostra em pouco que não é bem esse o seu apelo.

Para dar uma visão geral do jogo sem soltar nenhum spoiler, Stories Untold se trata de 4 curtas histórias contadas de diferentes maneiras. A primeira delas através de um jogo de aventura em texto, as duas seguintes de uma forma que acho difícil de descrever; sendo quase que um jogo de seguir instruções e regras, que o mais próximo que consigo pensar para ilustrar seja o que a jogabilidade de Papers Please (PC) oferece, e no último, fechando as histórias, uma amálgama do que foi visto nos 3 episódios passados.

Cada um desses episódios nos traz uma virada mostrando que eles acabam sendo mais do que aparentam, e é impressionante como esse jogo consegue ficar interessante em questão de pouco tempo. No primeiro episódio, você espera que a aventura em texto siga de uma forma muito mais tradicional do que ela segue; e é nesses momentos que as coisas ficam incrivelmente interessantes, pois Stories Untold nos deixa tão imersos que o medo surge visceralmente dessa quebra de expectativa

Imersão ou Intuitividade?

Stories Untold apela estoicamente para a imersão e essa aposta é um dos riscos que o jogo não tem medo de correr. Não só temos o barulho do teclado de dentro do jogo, nos remetendo a uma atmosfera muito particular, mas temos também a representação de detalhes mais ousados; como o fato de que equipamentos aparentemente ultrapassados têm controles ultrapassados, telas “ruins” tem problemas com imagens, documentos escaneados em uma tela nem sempre têm a melhor legibilidade e jogos em texto não eram livres de problema.

Geralmente sou o primeiro a reclamar de problemas típicos de usabilidade como os que o título apresenta, mas é tudo muito diferente quando é intencional; não só pelo potencial de imersividade tirado ao máximo deles, como pela presença de fatores que impedem que esses problemas intencionais atrapalham a experiência do jogador. O jogo em texto não reconhece diversos comandos; mas a partir de certo ponto as interações com ele são mais óbvias, guiadas por pequenas “iscas” que caçam a curiosidade do jogador. Em outros segmentos nos quais se tem que checar diversos manuais e telas, é difícil se sentir frustrado pela falta de “condições de derrota”, como limite de tempo ou pressões externas sobre o jogador.

Além de tudo, as histórias são curtas, não deixando tempo para que o jogador realmente se frustre; e tem um ótimo ritmo, com interações mais lentas e arrastadas para construir a tensão antes do clímax. Tensão essa que Stories Untold cria com uma maestria que eu sequer sei se já vi em algum outro jogo. O aumentar de uma frequência, ou um momento onde a mecânica se torna um pouco mais elaborada, contribuem para aquele momento onde o jogador se pergunta “o que vai acontecer agora?”, que gera tanto medo.

Não dá para se ter tudo

Como quase tudo na vida, Stories Untold não é perfeito. A sua maior falha na aposta em imersão vem de um lado inesperado, por exemplo. O jogo é sonoramente e visualmente impecável, o último não apenas em termos gráficos puros como em direção de arte; o que infelizmente, por uma questão de falta de otimização, causa uma taxa de quadros baixa em alguns computadores, o que é bem inesperado de um jogo curto com escopo tão limitado; e que pode agravar algumas falhas de usabilidade intencionais para além do esperado, como maior dificuldade de leitura se for necessário reduzir a resolução.

Acho que o maior defeito do jogo, no entanto, está em seu último episódio, o qual tenho uma pequena relação de amor e ódio. Meus argumentos quanto a isso são bastante pessoais. Vou tentar expor da melhor forma possível, mas é válido enfatizar que boa parte das pessoas podem não ter essa minha mesma percepção.

Novamente não querendo entrar em spoilers, Stories Untold na verdade não conta com uma história tão diferente de coisas já vistas antes. A forma como o jogo te entrega essa história, no entanto, é brilhante. A construção de tensão nos conflitos dentro dos episódios, como já dito, é fantástica. Também há a tensão entre os episódios, buscando por pistas e sinais que o jogo lhe entrega aos montes para tentar juntar as peças da história.

E é daí que eu acho que vem o medo: de por mais que você tente juntar os fatos, nada se encaixa e é impossível saber o que está acontecendo. Stories Untold aposta no medo do desconhecido; não te jogando em uma sala escura, mas te jogando em um contexto vago e hostil. No último episódio, no entanto, minha sensação é que o título “junta as peças” rápido demais. Ainda é incrivelmente divertido ver como as partes da história se juntam para formar um todo ao longo do episódio, mas quase do primeiro momento é possível ter uma noção do que se trata “o todo”. Stories Untold se mantém intrigante até o final, mas neste momento ele me deixou de ser assustador.

Um Risco que se Paga

Para finalizar, Stories Untold é simplesmente incrível. Com apostas ousadas, o título traz coisas únicas à mesa e não se utiliza delas com amadorismo. Sabe onde arrisca e sabe como acertar; e até quando desliza, é difícil não fazer vista grossa. Por mais que seu clímax não seja tão do meu agrado, de forma nenhuma ele desmerece a impecável tensão construída durante o jogo e muito menos a sua experiência como um todo, que como dito no título, é a melhor em terror que eu tive em muito tempo.

Prós:

  • Altamente Imersivo;
  • Trilha sonora e visuais impecáveis;
  • Construção de ritmo e tensão excepcionais.

Contras:

  • Problemas de otimização;
  • Baixa usabilidade pode atrapalhar em alguns momentos.
Stories Untold — PC — Nota: 9.0
Revisão: Pedro Vicente


Juni Chaves é formando em Sistemas e Mídias Digitais e atualmente redator no GameBlast e também no Ivalice. Grande interessado em Game Design e nas áreas artísticas que envolvem os jogos, não é raro encontrá-lo falando disso no Facebook e no Alvanista.

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