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Análise: Holy Potatoes! We're in Space?! (PC) é divertido mas não explica por quê

Uma boa aventura no espaço aguarda… após duros primeiros momentos…

“Se você não consegue explicar algo de modo simples é porque não entendeu bem a coisa”. Essa é uma citação que frequentemente encontro pela internet, atribuída a Albert Einstein. Difícil dizer se é realmente dele ou é mais uma citação falsa que circula pela rede. Nunca concordei com o dito nessa frase em termos absolutos; mas acho mais interessante pelo lado de que não adianta ter conhecimento sem ter a capacidade de transmiti-los. Cada jogo é um universo próprio de conhecimentos a serem comunicados ao jogador, e caso essa comunicação falhe, não importa muito o quão bom é seu universo. Infelizmente esse é o caso de Holy Potatoes! We’re in Space?!

Mas por quê?

Quando se fala de jogos que falham em se comunicar com o jogador, a primeira coisa que à cabeça é um jogo cuja a primeira reação é “hã?!”. Jogos de estratégia, majoritariamente, que exigem em um momento que você entenda todas as mecânicas do jogo. Embora igualmente frustrante, Holy Potatoes! We’re in Space?! falha em algo mais primordial. Falha em explicar o porquê do jogador fazer o que faz, e o porquê as coisas funcionam de maneira tão estranha nesse jogo.
O interior da nave, onde ações são realizadas de maneiras desnecessariamente complicadas
Pra ser sincero; esse grande defeito do título em se explicar está concentrado essencialmente em sua interface, e pode parecer um pouco chato reclamar tão concisamente disso; mas não só a interface do jogo é particularmente mal trabalhada como ela aponta para um defeito mais fundamental do jogo; mas analisemos parte a parte.

O jogo conta com um tutorial, mas é muito estranho como ele explica aquilo que já é óbvio, deixando fatores importantes de lado, como entender pra que servem determinados recursos. No começo do jogo você faz uma viagem e lhe mostra quanto de combustível é necessário, mas é difícil até encontrar essa informação no meio de tantos menus mal posicionados. Até mesmo no tutorial tem um defeito crucial na compreensão de como tutoriais devem funcionar, orientando mais o que fazer no lugar de como fazer. Até o “loop” de gameplay que ocorrerá durante o jogo fica vago nos primeiros momentos, apesar de não ser nada muito inédito: Explorar planetas, entrar em batalhas, coletar recursos, investir em upgrades de diversos tipos e cumprir quests.
"Tá... Mas e aí?"
O jogo todo apresenta pouco de inovador, para ser sincero. O que não é por si só um defeito; mas é estranho ver como se falha em explicar coisas essenciais. O sistema de batalha é interessante, botando duas naves frente a frente, atacando com suas armas escolhendo como alvo as armas inimigas ou a nave como um todo. Pequenas mudanças no entanto tornam o jogo mais interessante, como as tentativas inimigas de fugir caso suas armas sejam destruídas ou escudos que podem defender o casco da nave ou suas armas, proporcionando um elemento estratégico a mais nas batalha. Além disso, há uma boa variedade de armas, upgrades e tripulação para a nave; dando aquela satisfação típica de RPGs de ficar mais forte e também de escolher certo estilo de jogo que mais lhe agrade; mesmo que de forma limitada.

O estranho é que tudo isso se desenrola da forma menos prática possível. Apesar de ter uma vista de cima da nave, na hora de alocar sua tripulação em diversas atividades, é preciso “entrar” nas salas para realizar as atividades, o que tira todo o sentido dessa visão e é ultimamente desnecessário para a interação. Além disso, os menus são confusos, com diversas funções parecidas aparecendo em diversos lugares da tela; informações secundárias em lugares de destaque pela ordem de leitura e principalmente inconsistências.
Muitos elementos dispostos de formas muito estranhas
Duas interações semelhantes, como ligar dois objetos por meio de uma ação, são executadas de forma completamente diferentes. Você clica na sua arma uma vez e no seu alvo outra vez para realizar um ataque; mas para alocar a tripulação em uma atividade se usa arrastar e soltar. Não que nenhuma das escolhas seja ruim; mas o jogo não limita suas escolhas de interação para otimizar intuitividade. Por muitas vezes parece que cada menu foi feito por pessoas diferentes sem contato uma com as outras; o que é um pensamento frequente, já que as inconsistências do jogo são gritantes.

Uma colcha de bons retalhos

Chegamos na minha principal reclamação com o jogo: Inconsistência. Com exceção de alguns aspectos, como a já mencionada interface, a maior parte dos aspectos do jogo funciona, mas não juntos. O aspecto visual do jogo durante momentos como o de alocação de tripulação ou compra de upgrades é fantástico, e o desenho das personagens é a coisa mais fofa do mundo e eu quero muito amá-los, mas eles não funcionam juntos. São estilos artísticos completamente destoantes que definitivamente não se complementam.
Nem parece a mesma nave que se vê durante as batalhas.
E esse é um caso em que ambos aspectos são bons, pois a nave neste momento mencionado e durante a batalha são desenhadas em estilos completamente diferentes, e um muito mais bem-acabado que outro. Mesma coisa acontece com a trilha sonora, que não desagrada, mas nunca conversa de uma forma concisa com o tom do jogo; falhando até mesmo em reforçar o que pode ser o melhor aspecto do jogo: A comédia.
Ri mais do que deveria...

Vamos falar de coisa boa 

Quer saber de uma coisa estranha depois de tudo isso que falei? Eu gostei do jogo. Em primeiro lugar suas mecânicas, apesar de mal explicadas, são bem executadas e todos os momentos são agradáveis, sejam lutas, pequenos eventos que acontecem ou os diálogos da história. Apesar das inconsistências visuais, individualmente, a maioria de suas partes é bem executadas; e eu não consigo reforçar o suficiente como eu amo o estilo artístico escolhido para as personagens e como eu queria que todo o jogo seguisse o estilo mais cartunizado não só para ser mais consistente como para condizer melhor com o tom cômico do jogo, que é surpreendentemente bacana.

Holy Potatoes! We're in Space?! apresenta um humor que no geral considero batido em jogos, apoiando-se em personagens “patetas”, diálogos bobos e uma imensidão de referências à cultura pop; mas é tudo tão bem colocado que nunca parece forçado. De pouco em pouco tempo é possível dar uma risadinha com as piadas do jogo, que apesar de ter tantos defeitos, é extremamente carismático e, acreditem ou não, consistente em sua escrita.

Até as piadinhas são amáveis
Por fim, eu gostaria de dizer o quão difícil foi dar uma nota para Holy Potatoes! We're in Space?!, pois meu nível de satisfação com o jogo mudou drasticamente ao avançar. Inconsistente e difícil de engolir no começo, mas satisfatório uma vez que se toma as rédeas do jogo. Seus graves e constantes defeitos mais me incomodam não por fazer do título um jogo ruim, mas por impedir que ele fosse tão bom quanto poderia ser.

Pros

  • Ótimos momentos de comédia;
  • Excelente design de personagens; 
  • Gameplay simples, mas funcional.

Contras

  • Terrível interface.
  • Inconsistência visual.
 Holy Potatoes! We're in Space?! — PC — Nota: 6.0

Revisão: Luigi Santana

Juni Chaves é formando em Sistemas e Mídias Digitais e atualmente redator no GameBlast e também no Ivalice. Grande interessado em Game Design e nas áreas artísticas que envolvem os jogos, não é raro encontrá-lo falando disso no Facebook e no Alvanista.

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