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Análise: Beholder (PC) te faz ser os olhos do totalitarismo

Com espionagem e administração de recursos, o título consegue traduzir a temática em seu enredo e em seus sistemas.

O acontecimento, quase anedótico, que se sucedeu nas livrarias norte-americanas após a eleição de Donald Trump, poderia ser um bom presságio para Beholder, um título que busca, de certa forma, trazer uma experiência análoga ao livro 1984, só que jogável. Não existe, no entanto, um comparativo se jogos que tratam de controle e opressão também obtiveram um resultado mais expressivo nas vendas, tal qual os absurdos aumentos de cópias vendidas do livro de George Orwell.


A analogia direta de Beholder com a obra orwelliana se dá no que tange à presença onipresente do governo na vida pública e particular das pessoas, e não uma presença orgânica e positiva, mas sim de constante espionagem e negação das mais diversas liberdades individuais. Mas quem vai fazer o papel do olho do governo é você, o Beholder. Controlamos o senhor Stein, um funcionário do governo que é realocado para trabalhar como síndico de um edifício. Isso não quer dizer que ele vai tratar apenas da manutenção do prédio e de suas contas, mas sobretudo ser o olho do Estado nas residências das pessoas.

E esse estado é burocrático, como não poderia deixar de ser. Então o senhor Stein precisará cumprir metas de produtividade, e lidar com as diversas informações que chegam da central do governo. Afinal, pode ser que, por qualquer motivo, comer maçã se torne um crime amanhã, e então o síndico vai ter que contar isso para seu superior.

O erendo vai se desdobrando através da espionagem que realizamos dos inquilinos (e também, pasmem, da nossa própria família), enquanto tentamos manter o edifício e pagar as contas. Dinheiro e prestígio junto ao governo são as duas moedas de troca do jogo, e com elas é possível comprar itens, sejam eles para alguma missão ou para melhor espionar o pessoal, e até mesmo reformar novos apartamentos para a chegada de mais inquilinos.


O interessante é que você pode escolher entre inquilinos potenciais (o que acontece mais quando estamos mais avançados no jogo). Cada missão do governo te dá um tempo limite para espionar, coletar provas e redigir um dossiê sobre o indivíduo. É um momento bem bacana do jogo, no qual você deve usar as provas para dizer se a pessoa está ou não infringindo alguma lei (o que acarreta em ela ser presa instantaneamente). Inclusive, é possível passar um pano e salvar o cidadão, mesmo que ele esteja quebrando alguma regra sem sentido.

E aí que o jogo fica ainda mais interessante, pois quanto mais estamos de acordo com as regras do governo, mais simples é não morrer ou ser preso (já que esses são fins muito comuns de se acontecer durante qualquer uma das missões). Realizar atividades por fora, ou mesmo esconder coisas do Estado, geram riscos para Stein e sua família. Aí, mesmo que o jogador veja as ações de um tal inquilino com bons olhos, é tentador se sentir pressionado e dedurar o sujeito mesmo assim. Ir contra esse governo opressor traz mais obstáculos.


A parte boa é que as histórias de vida de cada inquilino vai criando um mosaico de tipos de uma sociedade como essa. As histórias são interessantes, assim como deduzir a profissão e as atividades de cada um, apenas através da observação do que encontramos na casa ou vemos eles fazer através de câmeras, e da conversa com os residentes do prédio.

Mas se é mais fácil andar na linha do governo, isso não quer dizer que você pode tratar os inquilinos de qualquer forma. A relação vai se deteriorando quando eles te pegam espionando e olhando dentro da casa deles, e isso pode gerar problemas para a finalização da missão. Missão que, lembrando, tem data certa para ser cumprida, e que causa demissão por justa causa caso você não a complete.


Efetivamente, o jogo é sobre administrar recursos, dinheiro e influência para conseguir os melhores resultados em cada investigação e interação, principalmente com sua família. É também sobre observar os horários e a agenda de cada um no prédio para conseguir ter o maior tempo possível dentro da casa do espionado da vez. Mas além da missão dada pelo governo, outras missões paralelas vão surgindo, fazendo com que Stein tenha que lidar com outras situações de seus inquilinos e sua família. Isso acaba gerando uma necessidade e organizar o melhor possível seu tempo, já que todas as missões possuem um prazo. O controle do tempo é essencial para que sintamos o peso das diversas situações que temos de contornar, e principalmente do trabalho exaustivo que temos que fazer para o Estado. Em muitos momentos me peguei desesperado com prazos e metas, enquanto tentava conciliar diversos eventos.

Beholder tem em seu aspecto visual simples, mas bastante chamativo e condizente com a temática, mais um ponto positivo. É fácil e intuitivo olhar em armários, instalar câmeras, olhar por fechaduras e conversar com os outros personagens. Também há fluidez no ritmo do enredo, que vai se desdobrando a partir de diversas narrativas que emergem da espionagem de cada inquilino, assim como das necessidades da própria família Stein.

O título nos coloca na pele de um instrumento de espionagem e opressão. Mas um instrumento que é facilmente descartável, o que gera todo o sentimento de urgência e a inclinação para escolher o caminho que nos vai gerar menos problemas, seja ele o mais acertado eticamente ou não. Nessa microfísica do poder, são as pequenas interações dentro de um pequeno prédio que contam toda a história dessa distopia.


Distopias precisam ser repensadas, já que nossas sociedades caminham com passos cada vez mais largos em direção a tudo de triste, seco e violento que conhecemos nessas obras. Se as angústias das pessoas se refletem nas obras que consomem, eu espero que Beholder, 1984 e tantos outros, não precisem vender tanto assim. Mas enquanto isso, Beholder cumpre um importante papel de lidar, de forma jogável, com os temas do totalitarismo, da burocracia, das relações de poder, da resignação e do enquadramento ao que nos cerca.

Prós

  • Visual simples, mas condizente com a temática e competente;
  • Os prazos e metas funcionam bem para dar a sensação de peso nas costas do sr. Stein;
  • As histórias dos inquilinos, assim como as das missões são interessantes.

Contras

  • Ainda que competente, o jogo torna-se mecanicamente repetitivo;
Beholder — PC — Nota: 8.0
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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