Resenha

Surviving Indie, a solidão da paixão pelos games

Documentário da Gamestarr Arts é um comovente relato dos desafios da indústria indie de jogos.

Com a recente expansão do cenário indie dos jogos eletrônicos, muitas pessoas têm acreditado que fazer um game e virar sucesso do dia para noite é algo fácil e prático com os meios midiáticos atuais, como redes sociais, sites de financiamento coletivo, engines gratuitas para criação de jogos, entre outras opções. Contudo, o documentário Surviving Indie (Richard James Cook, 2016), da Gamestarr Arts chegou para desfazer essa ideia utópica de muitos interessados em ingressar no ramo por puro modismo.

Richard Cook, multitalento desconhecido?

Surviving Indie é dirigido, escrito e produzido pelo artista gráfico estadunidense Richard James Cook, que também é produtor, roteirista, designer e cineasta independente. Em seu mais recente filme, ele aborda com profundidade as dificuldades da vida de um profissional da indústria indie de jogos eletrônicos.

Tomando como base os testemunhos do desenvolvedor de jogos Rami Ismail, da Vlambeer — responsável por Ridiculous Fishing (Mobile) e Nuclear Throne (Multi) —; a produtora Kellee Santiago, de Journey (PS3/PS4), Flower (PS3/PS4/PSVita) e Flow (Multi); a co-criadora Becca Bair Spurgin, da Arcadian Atlas; o desenvolvedor VR Ryan Zehm; o criador Jay Tholen, de Dropsy (PC/Mobile) e o futuro Hypnospace Outlaw (PC); o desenvolvedor Tyler Coleman, da Retora Games — responsável por Merchant (Mobile) — e ele próprio, Richard James Cook, de Battlesloths (PC) e Super Combat Fighter (Multi) planejado para 2018, o filme possui ênfase na trajetória desses profissionais e todos os problemas e soluções encontrados ao longo de seus caminhos.


Diferente de seu filme anterior, o documentário Pixel Poetry: A Film About Games, Art, Society, and Culture, de 2014, Richard Cook mostra seu lado mais sensível e comovente numa trama de histórias reais, com todos os dramas e questões de trabalhar com games de forma independente. A produção funciona quase como uma autobiografia do artista, em que ele expõe sua infância, a fase na universidade, a vida social e os problemas com o trabalho.

Vivendo na corda bamba

Embora Surviving Indie englobe relatos de pessoas diferentes, em lugares diversos e com profissões distintas dentro da área de jogos, todas elas possuem uma característica em comum: o amor pelos games. O amor pelos jogos é o tema central do documentário e o que move estes profissionais independentes. Em cada relato, em cada palavra expressa e apesar de todos os dissabores no caminho, todos demonstram seus profundos sentimentos pelos jogos e o que eles significam em suas vidas.

Se tem algo que a produção fílmica faz questão de deixar bem claro é o quanto é difícil a vida de um profissional indie. Sem estabilidade de emprego, vivendo de trabalhos freelance, convivendo com a rejeição do currículo por grandes empresas, dívidas que se acumulam devido à falta de um salário fixo e a vida social regada a abandonos dos amigos.


Assistir Surviving Indie é uma experiência reflexiva, pois é impossível não se sentir ligado às pessoas que contam suas histórias e abrem seus corações para mostrarem uma vida que é difícil, mas que vale à pena. É impressionante como esses profissionais vivem de altos e baixos e na maioria das vezes só podem contar consigo mesmos nas piores situações.

Por exemplo, o desenvolvedor de jogos de realidade virtual Ryan Zehm viveu por meses num abrigo para mendigos, trabalhando em seu novo projeto nos computadores de uma biblioteca pública, também aproveitando o local para ler, pesquisar e aprimorar seus conhecimentos. Da mesma forma, o próprio Richard Cook ficou sem lugar para morar por várias ocasiões e precisou viver de casa em casa de amigos e profissionais interessados em seu trabalho até conseguir um emprego.


Frustração e solidão

Apesar do amor destes profissionais pelos jogos, o documentário deixa evidente a frieza de como a indústria de games trata essas pessoas esforçadas, mas que não possuem grandes jogos no currículo.

O que chama a atenção não é apenas a recusa de empresas e grandes nomes do ramo, mas principalmente a rejeição e abandono da própria família e dos amigos. A maioria dos entrevistados destacou o quanto os familiares e amigos os veem como pessoas preguiçosas, que não querem trabalhar e vivem "brincando" no videogame.


Com isto, a frustração e a depressão são colegas íntimos da maioria desses homens e mulheres que buscam um lugar ao sol na indústria de jogos. Trabalhando desde o amanhecer à madrugada, esses profissionais buscam cotidianamente construir um portfólio digno de contratação de grandes empresas e ter uma vida social saudável.

Mas enquanto a situação de desemprego não muda é triste ver como os amigos se afastam e deixam essas pessoas à própria sorte porque não querem a companhia de um desempregado e sem-teto ao seu lado. Surviving Indie exibe um lado desumano e falso das amizades, um aspecto digno de ser discutido e que o documentário explora de maneira dramática e crítica.


Sucesso, uma questão de ponto de vista

Como diz Paulo em Coríntios, "o amor tudo suporta" e é isto que realmente se trata Surviving Indie. Sobreviver na indústria independente de jogos, suportar todos os projetos e planos que dão errado, mas ter a coragem de seguir em frente, de acordar outro dia acreditando que desta vez tudo dará certo. Viver fazendo jogos simplesmente por amor.

Se você se sente atraído pelo desenvolvimento independente de jogos ou tem algum tipo de interesse no assunto, vale a pena conferir o documentário e aprender com esses profissionais. Surviving Indie é uma excelente fonte de dicas e reflexão para aqueles que desejam entrar neste segmento da indústria de games. Expondo situações cotidianas que são necessárias atravessar e as dificuldades, mas também as alegrias, de fazer o que se ama, o filme é uma amostra da realidade enfrentada por esses profissionais e rechaça a ideia fantasiosa de que fazer jogos é fácil.

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

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