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Análise: 99Vidas: O Jogo (Multi) traz quatro podcasters bons de briga

Os desafios deste game farão você desejar ter 99 vidas.



Como seria um jogo do BlastCast? Envolveria eu, o Yuri e o Felipe batendo em meliantes enquanto passávamos por cenários familiares de Curitiba e Porto Alegre? Não sei, mas, como produtor de um podcast, fiquei intrigado pela proposta de 99Vidas: O Jogo (atualmente PC, com lançamento previsto para PS4, XBO, PS Vita, iOS e Android). Como o título implica, é baseado no popular podcast 99Vidas, protagonizando seus participantes Jurandir Filho, Izzy Nobre, Evandro de Freitas e Bruno Carvalho em um beat-'em-up à moda dos anos 1990.


Quando a campanha para o jogo foi lançada no Catarse, fiquei um pouco apreensivo com a proposta. Afinal, adaptar um podcast para videogame é um conceito no mínimo inusitado, e, apesar de jogadores de longa data, os criadores do programa não tinham experiência alguma com o desenvolvimento de games. Felizmente, após o sucesso da campanha, foi recrutado o talento e a experiência da QuByte Interactive, desenvolvedora indie nacional baseada em São Paulo. Juntando as piadas internas do podcast, muitas referências a jogos antigos, algumas ideias clássicas, outras criativas e uma boa equipe de desenvolvimento, o resultado é um produto muito competente e divertido, com algumas falhas que o deixam pouco aquém da excelência.



Uma das primeiras coisas que o jogo faz questão de observar é que, apesar do título, os personagens começam com apenas cinco vidas. Com 94 vidas abaixo do prometido, a próxima coisa que jogadores percebem é que o jogo é difícil. Joguei a maior parte do game com dois amigos, Douglas e André, em co-op local (jogos assim são raros hoje em dia, então foi bacana). Enquanto na primeira fase podíamos atribuir a dificuldade à nossa falta de familiaridade com as mecânicas e controles, nas seguintes começamos a perceber que o jogo realmente não estava de brincadeira. Ao enfrentar ondas volumosas de inimigos resistentes e agressivos, aquelas cinco vidas de cada jogador vão embora bem rápido.

A medida que fomos conhecendo alguns detalhes do jogo, além de melhorar os socos e chutes de Izzy, Juras e Evans com upgrades, as coisas começaram a se encaixar mais, mas ainda sentimos que, em certas ocasiões — como o chefe Harddy e a manada da tigrada —, a dificuldade do jogo era um tanto artificial e injusta. Quase todos os chefes assustam à primeira vista, mas começam a fazer sentido após observar bastante seus padrões de movimento (apesar de todos chamarem capangas, algo que detesto em qualquer jogo), mas o Harddy em particular continuava imprevisível e irritante, com pouquíssimo espaço para puni-lo, mesmo após enfrentá-lo e derrotá-lo três ou quatro vezes. Acabamos ganhando dele na força bruta, pois éramos três com algumas vidas cada, em vez de estratégia.

Além de ser fácil perder nossas vidas, 99Vidas ainda conta com um estado de "game over" permanente. Após o jogador perder suas vidas, ele é eliminado do jogo para sempre, mesmo após passar para outra fase. Para um jogo cooperativo moderno, isso é difícil de engolir. Quem quer ficar sentado assistindo os amiguinhos jogarem em vez de jogar junto? Nossa solução foi sempre voltar ao menu principal e escolher a opção "seleção de fases" em vez de "continuar", permitindo que cada jogador voltasse com as cinco vidas. Isso seria justificável se fosse razoável e sensato obter vidas dentro do game, mas não é — elas custam 2000 pontos cada na loja, valendo mais a pena gastá-los em upgrades permanentes em vez de vidas que inevitavelmente vamos perder.


Conseguimos, enfim, enfrentar o último boss após repetir várias das fases procurando estratégias de sucesso. A principal estratégia foi manter um quarto controle por perto, permitindo que um jogador falecido retornasse à partida nos pés do Player 4. Estranhando bastante a curva de dificuldade do jogo na dificuldade "Normal" (que não é impossível mas é realmente pesada), resolvi experimentá-lo na dificuldade "Izzy". Meu personagem permaneceu com suas melhorias e, com inimigos mais fracos e em menor quantidade, a diferença de dificuldade foi enorme. Então, minha sugestão para quem quiser se desafiar, mas de uma forma menos agressiva, é jogar primeiro na dificuldade mais baixa para melhorar um os personagens e então enfrentar as dificuldades mais altas preparado. Isso funciona; me fez pensar se é assim que o jogo queria ser jogado.

Mas, mesmo em nossos momentos de frustração, não deixamos de rir de alguns momentos de humor do jogo. Entre piadas internas do podcast, referências a videogames em geral e brincadeiras com aspectos da cultura brasileira e nordestina, posso garantir que gargalhadas foram dadas, mas não sei quanto desse humor passaria batido por alguém que desconhece o 99Vidas. Um pouco desse humor pode incomodar, como inimigos estereotipados chamados de "sujinho", "cheiroso" ou "tetinha", mas não deixa de ser fiel ao espírito dos anos 1990, para bem e para mal.

Os maiores destaques do game são, sem dúvida, os visuais e a trilha sonora. Os cenários são meticulosamente desenhados e renderizados em 16-bits, enquanto os personagens têm esquemas de cores distintos que contrastam com o fundo. Claro, referências ao grande Brasilzão podem ser vistas em todas as fases, que incluem as obrigatórias Locadora e Feira dos Pássaros. Os desenhos e as animações dos personagens também contam com sua série de referências, às vezes muito sutis, às personas de seus protagonistas.


Já a trilha sonora é uma surpresa a parte: na tela de título e em cada fase e cada cutscene, a música é divertida e combina com a situação. Ela é inspirada, mas não limitada, pelas trilhas sonoras de games antigos, preservando uma estética sonora retrô, mas incluindo uma variedade de sons que não seria possível em hardware antigo. Espero que a trilha sonora seja disponibilizada em breve. Infelizmente, nem toda a produção de som é no mesmo nível. Alguns efeitos sonoros são estranhamente contrastantes com o restante, e as dublagens foram passadas por um "filtro 16-bits" que tenta remeter aos jogos antigos, mas acabam parecendo que foram gravadas com microfones baratos.

Os criadores do podcast e os desenvolvedores da QuByte prometeram atualizações futuras para balancear e aprimorar o jogo. Esses ajustes podem ser cruciais para elevar o jogo de "bom" a "ótimo". No estado atual, sem dúvidas é um jogo divertido, com toques de brilhantismo, e um ótimo representante do cenário brasileiro de games. E talvez seja o primeiro jogo baseado diretamente em um podcast, quem diria?

Prós

  • Estética visual que remete tanto ao Brasil quanto a jogos antigos;
  • Trilha sonora impecável;
  • Bom senso de humor, especialmente para quem já acompanhou o podcast;
  • Dificuldade nos faz ter que pensar em estratégias alternativas para progredir.

Contras

  • Nem todo inimigo é bem acertado dentro da curva de dificuldade;
  • Alguns efeitos sonoros não soam tão bem quanto deveriam;
  • Politicamente incorreto;
  • Título enganoso (são só cinco vidas).

99Vidas: O Jogo — PC (Windows, Mac e Linux) — Nota: 7.5

Revisão: Bruno Alves
Colaboração: André Ramos e Douglas Novelli


Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do GameBlast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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