Blast Test

Dark Quest 2 (PC) promete trazer estratégia e dungeons em ótimo estilo

Experimentamos o mais novo jogo da Brain Seal Entertainment e ele nos surpreendeu bastante!

Diversos são os RPGs nos estilos dungeon crawler e roguelike que são lançados no universo dos jogos independentes. Mas, em meio a essa vastidão de títulos, Dark Quest 2 (PC) pode se sobressair com algumas características próprias que dão um quê a mais à aventura, além de utilizar com maestria um artifício que, por incrível que pareça, é uma faca de dois gumes em diversas ocasiões: a simplicidade. Disponibilizado em Early Access no Steam desde o dia 7 de novembro, o título, ainda em desenvolvimento, apresenta uma ausência quase que total de inovações para o gênero. Mas, nem sempre queremos inovação, apenas qualidade, não é mesmo?

Som e vídeo mais que agradáveis!

Uma das primeiras coisas a se notar em Dark Quest 2 é a sua estupenda evolução visual se comparado ao seu predecessor, lançado em 2013. O pessoal da Brain Seal está investindo pesado na continuação, conseguindo a proeza de conquistar visuais belos com traços literalmente feitos à mão sem consumir o  processamento do computador. Os gráficos, que não são exatamente de última geração, são muito agradáveis e condizem com a atmosfera do jogo, o que agrada muito ao jogador durante a jogatina.



Combinado a esse visual interessante, temos uma trilha sonora muito boa com músicas instrumentais épicas e que lembram muito alguns jogos dos anos 1990. A trilha complementa a atmosfera criada pelo aspecto visual e também vem muito a calhar. Nesses quesitos, Dark Quest 2 está de parabéns! Para completar, o jogo conta com um enredo um tanto quanto simples, o que é bem corriqueiro em jogos do gênero, e não acrescenta nada à jogatina além da sua missão principal: derrotar o mago das trevas que habita o castelo no qual o jogo se passa.

A união do Board Game com o Dungeon Crawler

Para quem não sabe, a franquia Dark Quest se baseia em um jogo de tabuleiro l chamado Hero Quest, que em terras tupiniquins foi lançado em 1994,. O Board Game, que originalmente é norte-americano, conseguiu pegar carona nos anos dourados dos RPGs de mesa do estilo Dungeons & Dragons, transportando-se para o formato de um tabuleiro populado por diversas masmorras, com a jogabilidade e experiências das sessões com um D20 e um mestre. O primeiro capítulo da transição dos tabuleiros para as telas do computador estava ainda muito centralizada na jogabilidade de um tabuleiro. Isso mudou bastante com a chegada de Dark Quest 2.

A alma do jogo de tabuleiro dos anos 1990 ainda está presente, com a movimentação baseada em turnos e específica para cada classe de personagem. Além disso, ataques, habilidades e magias também funcionam em um formato que lembra bastante um jogo de tabuleiro vivo, o que é muito gratificante. Entretanto, para além da experiência do tabuleiro, Dark Quest 2 também traz mecânicas interessantes que fazem dele um excelente dungeon crawler.



Cada vez que se inicia uma exploração, uma verdadeira aventura é estabelecida, onde seus personagens percorrem masmorras, derrotam monstros e coletam tesouros a fim de alcançar a entrada para o próximo nível. Durante essa experiência, o nível de desafio é bem interessante, uma vez que não existem ajustes de dificuldades entre fácil, médio e difícil. O jogo consegue equilibrar bem os desafios entre o que seria monótono e o que seria frustrante, dando aos amantes do gênero experiências agradáveis, mas sem exigir demais dos jogadores de primeira viagem.

A cidade é um dos acréscimos mais interessantes ao jogo, pois é nela em que os heróis recuperam os pontos de vida, desbloqueiam novas habilidades, aprendem novas magias e compram itens e artefatos que irão ajudá-los durante as explorações. Ao contrário de outros jogos do gênero lançados esse ano, como Rogue Wizards (PC), a cidade de Dark Quest 2 é muito bem aproveitada e adaptada à experiência e ao universo do jogo. Aqui, a estalagem serve para os heróis descansarem e recuperarem os pontos de vida, além de ser possível contratar novos heróis. O mercador troca bons itens seus por ouro, a vendedora de poções garante a sua sobrevivência por mais tempo nas aventuras e o ancião delega as missões a você. Existe até um bordel para que os personagens recebam bônus aleatórios para a próxima aventura. Safadinhos, não?


Evolução de personagens sem níveis

Em Dark Quest 2, outra coisa que chama atenção é a ausência dos níveis de evolução para cada personagem. Diferenciando-se um pouco da maioria dos jogos do gênero, aqui você possui um crescimento que foge de pontuações e da matemática. Coletando poções mágicas encontradas nas masmorras durante as explorações, o jogador poderá utilizá-las para liberar ou melhorar uma habilidade ou magia dos seus personagens. Assim, a árvore de habilidades e magias do personagem é o que vai deixando-o cada vez mais forte ao longo da aventura.

Outro fator considerável para a evolução da experiência de jogo é a quantidade de heróis disponíveis para se escolher, assim como o número máximo de heróis permitido para cada masmorra. No início do jogo, apenas dois personagens são liberados (Bárbaro e Mago), sendo que apenas um ou dois personagens são permitidos por masmorra. No decorrer da aventura, mais heróis vão sendo desbloqueados e comprados na loja, assim como o limite máximo de personagens por partida começa a subir, dando ao jogador a oportunidade de controlar até seis personagens ao mesmo tempo.



Por conta da sua origem nos tabuleiros, o jogo não conta com um inventário próprio para cada personagem. Ao invés disso, cada herói possui um ou dois slots para os chamados artefatos, itens adquiridos na cidade através do Ferreiro que concedem um bônus a determinados status e só podem ser utilizados por personagens específicos. Com isso, o jogo se torna mais dinâmico e mais voltado para a experiência em campo do que para a contagem de pontos e atributos na “ficha” do personagem.

A linha entre simplicidade e complexidade

Ao jogar Dark Quest 2, o jogador poderá se encontrar em um dilema bem peculiar: afinal, esse jogo é simples ou complicado? Na verdade, o título é um pouco dos dois. Suas formas de movimentação, os controles, as opções de evolução e os menus são os mais simples possíveis, mas de uma maneira positiva para a experiência de jogo, deixando tudo mais fluido e intuitivo. Na realidade, não são os personagens que estão ficando mais fortes, por exemplo, mas sim o jogador que está se acostumando mais à estratégia da jogatina.



Em  contrapartida, existem artifícios dentro do jogo que conseguem deixá-lo um pouco mais complexo, o que também é um fator positivo. Mecânicas como resistência a golpes físicos ou mágicos, velocidade de movimentação, magias de uso único por partida, opções de evolução de habilidades passivas em até três níveis e a possibilidade de revisitar andares anteriores das dungeons para juntar mais dinheiro se juntam a outras características mais clássicas dos RPGs de mesa, como testes de sanidade, detecção e desativação de armadilhas, assim como testes de percepção.

Todos esses detalhes acabam por deixar a experiência bem mais complexa. E isso sem poder contar com tutoriais e explicações elaboradas. Porém, mais uma vez, isso não chega a ser um ponto negativo, pois a curva de aprendizado e a dificuldade do jogo oferecem as experiências ideais para aprender o que é necessário para a sua sobrevivência em cada nível, eliminando os momentos monótonos nos quais os jogadores precisariam ficar lendo e relendo textos explicativos.

O único elemento negativo que, por enquanto, podemos encontrar no jogo é um leve problema na exploração dos mapas. Em alguns momentos, a animação de determinados personagens e monstros sobrepõe alguns quadros do terreno, impossibilitando o cursor do mouse de chegar até eles até que o personagem ou monstro “saia da frente”. Atacar o monstro errado ou esbarrar em uma armadilha sem querer por causa disso é um pouco frustrante, mas nada que prejudique a experiência do jogo como um todo.
Ao tentar clicar na Healer Knight, acabamos atacando sem querer um dos Orcs

Aquele gostinho do que vem por aí

Como todo bom Early Access, Dark Quest 2 deixa para nós algumas certezas sobre mecânicas e artifícios que farão parte das novas atualizações do jogo. O multiplayer online é um deles, e traz um layout incrivelmente simples para convidar amigos para partidas. Além disso, novos monstros e novas classes já foram divulgados pela empresa e em breve deverão entrar no jogo através de alguma atualização. Mas, o elemento mais interessante é, sem dúvidas, a possibilidade de criação de mapas com um editor próprio do jogo.

Essa mecânica de criação de mapas ainda possui aspectos estranhos e, por isso, necessita de um tutorial para iniciantes. Mas, a ideia é bem instigante: desenvolva suas próprias masmorras e compartilhe online com a comunidade Steam. É claro que também é possível fazer o download de outras masmorras criadas por outros jogadores, fazendo com que a experiência de jogo vá além da “campanha” principal. Além disso, a própria empresa já garantiu que novas masmorras já estão em desenvolvimento, deixando esse gostinho dentro do próprio jogo, no mapa de acesso ao castelo.



Com isso, temos aí um título que mescla tabuleiro e dungeon crawler com simplicidade e mecânicas complexas, tudo isso em uma salada que deixa um gosto muito bom na boca. Se o Dark Quest original pouco chamou a atenção do público, principalmente por conta de seus gráficos mais que ultrapassados, sua sequência agrada a quem olhar, jogar e explorar. Estratégia, beleza, aventura e, principalmente, diversão são as palavras-chave que esse título carrega até então.

Revisão: Érika Honda

Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

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