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Análise: Final Fantasy XV (PS4/XBO): delícias e tristezas pela estrada

O novo capítulo da franquia é visualmente empolgante e mecânicamente competente, mas sofre com sérios problemas e corte de conteúdo.

A primeira informação que vemos ao ligar Final Fantasy XV é um frase simples e direta: “Um Final Fantasy para os fãs e para os iniciantes na série”. A questão é que tanto fãs quanto iniciantes na série não são grupos homogêneos. Eu, por exemplo, sou bastante fã da série, que talvez seja minha favorita, e pertenço a um grupo de jogadores de Final Fantasy que gosta de ver mudanças, novas proposições, que até não se importaria se a série por acaso acabasse (franquias podem, e muitas devem, morrer, isso deveria ser natural). Tento entender o que o jogo se propõe a ser, e a partir daí vou tendo minha experiência com ele.


Esse representa apenas um dentre os vários tipos de fãs, e existem ainda mais tantos estilos diferentes de ser um iniciante na série, alguém que não era fã até o momento. Final Fantasy XV é um produto que pretende ser o mais massificado possível. Não é uma característica individual e específica, já que dificilmente jogos AAA desse calibre podem se dar ao luxo de não buscarem o que há de popular para atingir uma maior fatia do mercado.

Mesmo com indícios de saturação, algo muito popular já há alguns anos é o mundo aberto. O tal sandbox que em tese permite que o jogador explore e realize tarefas em seu ritmo, com um espaço grande para se movimentar e procurar atividades. Esse espaço de exploração aberta de Final Fantasy XV funciona bem. Um dos fatores que tornam a exploração agradável é o visual do jogo. É latente, a todo momento, a ideia de uma fantasia baseada na realidade, e todos os locais que vemos transbordam isso de uma maneira competente.

Um resort na região litorânea remete à ambientes de luxo de nosso próprio mundo, mesmo que exista uma grande ave como um Zu e outros monstros rondando o local. Postos de gasolina e restaurantes de beira de estrada são próximos do que podemos ver em determinados países, mas servem comidas intimamente ligadas aos produtos do universo do jogo, além de nos trazerem os cartazes de caça dos animais fantásticos.


A cidade inspirada em Veneza, por exemplo, possui uma identidade visual única que te faz pensar que essa “realidade” só poderia existir mesmo em uma grande fantasia. Se tornou uma das minhas cidades preferidas da série, do ponto de vista visual. Pena que as interações e situações que ela traz não se destacam tanto assim. Final Fantasy XV traz lugares belíssimos, e a região de Lucis, onde está o mapa aberto, é um lugar absolutamente diverso e interessante.
Como eu gosto de Altissia!
Você sente a diferença entre seus sistemas, climas e locais. Há muito a se ver na área, e ainda que grande parte dos pontos de interesse não traga nada que seja muito útil, do ponto de vista do enredo ou dos sistemas de jogo, existe um trabalho bem feito com a construção dos espaços. As dungeons são ligadas diretamente ao mapa, e cada uma delas traz algo de diferente e interessante, sendo momentos agradáveis do jogo.

Se em um lugar deslizamos com a corrente para baixo, em outro precisamos escalar uma montanha. São os locais mais interessantes e que trazem batalhas empolgantes. As hunts também cumprem esse papel. Pegamos o cartaz de um monstro ou grupo de inimigos e partimos para o combate. É um esquema que casa muito bem com o tipo de exploração proposta, e de fato é gerador de confrontos memoráveis.

Existem, entretanto, dois grandes pecados em relação às caçadas. O primeiro é que elas são muito repetitivas, e dentre o grande número delas, apenas algumas trazem monstros e confrontos realmente interessantes. O segundo, e mais sério, é que não é possível ativar mais de uma hunt ao mesmo tempo. Em tese, isso deveria ajudar na imersão, já que você iria até o local, preparia a comida certa em um acampamento, e só então iria enfrentar aquele monstro específico.

Realizar atividades corriqueiras, entretanto, costuma ser um dos grandes equívocos quando se traz a ideia de imersão. Não poder lotar de hunts, ir fazendo todas em um ritmo mais direto, me faz justamente quebrar esse ritmo de exploração e combate e me lembrar que estou em um jogo que cria sistemas sem sentido, travando um dos fatores centrais da experiência: a exploração e a movimentação pelo cenário.

As missões paralelas também patinam. Por um lado elas te guiam para pontos e condensam atividades em série, ou seja, você vai fazer missões para um mesmo personagem, de forma a criar uma cadeia de quests. Isso é interessante, pois te faz ter contato direto com algum NPC. O triste é que muitas dessas missões são sem graça, a história do que está acontecendo não é bem conduzida, e acaba-se perdendo tempo com personagens extremamente secundários, quando mesmo os principais não são muito bem desenvolvidos. Missões secundárias que nos ligassem mais aos três amigos, de alguma forma à Luna, Aranea e Ardyn, seriam muito mais interessantes.
Muito do que sabemos sobre Luna vem do filme Kingsglaive.
Mesmo com esses contratempos à atividade de explorar, Final Fantasy XV entrega um mundo aberto com muitos méritos. De seu visual à forma como os locais abrigam atividades, da maneira como passeamos a pé, com chocobos, com o Regalia normal ou voador, muita coisa é bem feita. Mesmo no caso do carro, que é restrito na sua direção (inclusive voando), é interessante ver como a viagem é usada para mostrar o mundo, os personagens interagindo e ouvirmos as músicas dos antigos jogos.

É bem legal como a relação entre os quatro protagonistas se dá através da progressão das habilidades do grupo, no geral, e de cada um em particular. Conforme você evolui e passa mais tempo com seus companheiros, mais você vai sentir que uma boa conexão entre o grupo é fundamental para as batalhas, ou pelo menos a melhor forma de encarar diversos desafios. Há uma preocupação em fazer com que a relação deles não exista apenas em cenas fechadas, mas durante nossa passagem pelas batalhas, menus e árvores de habilidade.

Já o enredo do título é muito mais simples do que parecia. A impressão é que faltou tempo de desenvolvimento para que a narrativa fosse melhor conduzida. Existem ótimos momentos, e muito bonitos, na história do jogo, mas a noção que tenho é que falta lastro para muitas cenas. Falta um maior desenvolvimento dos personagens, faltam mais pedaços desse enredo. Felizmente, mesmo com essa negativa, as cenas conseguem cativar até um certo ponto. O final, em especial, mesmo sem esse lastro, tem ótimas ideias que consagram parte dos sistemas do jogo, além de dar um impactante encerramento para a história.


Algo que o título faz muito bem, e que conecta enredo aos principais sistemas, são as relações entre os quatro amigos durante a batalha, as viagens e acampamentos. O grande destaque fica para Prompto e sua habilidade de tirar fotos. Parece algo inútil em se comparado à habilidade de sobrevivência de Gladiolus e aos pratos feitos por Ignis, mas as imagens capturam boa parte do sentimento da jornada.
Filme existencialista italiano Fantasy XV.
Também ajuda o fato que explorar habilidades em conjunto e as técnicas de combate individuais de seus amigos é central para se dominar o sistema de batalha. Final Fantasy XV traz um sistema de batalha muito voltado para ação, já que as principais atividades consistem em dar parry, desviar, buscar os flancos do inimigo e, sobretudo, alternar armas para bater como se não houvesse amanhã (principalmente quando ativamos o apelão Armiger).

O resultado é um espetáculo visual, sobretudo quando já dominamos esses passos o suficiente. O sistema é agradável, ainda que por horas seja muito repetitivo, já que você provavelmente irá realizar as mesmas etapas para vencer distintos tipos de inimigos. O esquema de warp é, também, muito competente, além de visualmente e mecanicamente estiloso.
Quando a caça está no ar.
O sistema e mecânica de magia, entretanto, beira o absurdo. Toda e qualquer uma das poucas magias disponíveis se dá em forma de granada, e por mais que também traga um baita espetáculo visual e gere mudanças no campo de batalha, é um dos grandes pontos negativos do jogo. Acaba sendo um gimmick descolado do resto do confronto, e um que joga fora, inclusive, muitas possibilidades para uma batalha em tempo real.

As invocações também deixam à desejar. Elas vêm em um número baixo, e costumam ser bem chatas de ativar. Também propiciam um empolgante momento visual (temos um padrão aqui) e funcionam para maravilhar, principalmente na primeira vez. Mas é um sistema mecanicamente sem graça e que também parece descolado do resto da batalha.

De tudo que foi dito, resta a forte impressão de que Final Fantasy XV é um jogo que precisava de mais tempo de desenvolvimento para atingir seu grande potencial. Esse título que foi entregue provavelmente está sendo desenvolvido há bem menos tempo do que acreditamos. Fica latente que tanto na exploração quanto no desenvolvimento de personagens e do enredo, o jogo se valeria de adições. Mas é um jogo muito mais sobre possibilidades perdidas, do que efetivamente ruim. Ele passa longe disso, inclusive. É um jogo bom, que traz aspectos muito bem trabalhados, e outros que se sustentam mesmo com as falhas.


Um mundo convidativo e bem criado, cuidado na construção dos cenários e da exploração, sistemas e mecânicas que levam em consideração a ideia da amizade dos quatro protagonistas, uma batalha agradável e que gera momentos de forte apelo visual, trechos tocantes de uma história simples e pouco desenvolvida, se unem a um conteúdo pós-fim vasto, ainda que também repetitivo (as dungeons extra, por exemplo, possuem o mesmo layout, só alternando os inimigos), para entregar uma experiência satisfatória.

Consigo ver FF XV agradando um vasto número de jogadores, de fãs à novatos na franquia. E acredito que esse título seja um bom apontador de caminhos, um primeiro capítulo de uma nova fase da série. Há muito coisa competente no jogo, tantas outras que patinam, e algumas que precisam de sérias mudanças. No fim das contas, Final Fantasy XV é, sobretudo, mais um importante e competente jogo da série, talvez o primeiro de muitas pessoas, e com certeza não o meu último.

Prós

  • Mundo com uma bela identidade visual;
  • É agradável a exploração pelo mapa;
  • Sistema de batalha é competente e visualmente impactante;
  • Ligação entre os personagens durante batalha, exploração e enredo;
  • Dungeons interessantes;
  • História traz momentos tocantes.

Contras

  • Enredo e personagens são pouco desenvolvidos;
  • Há uma sensação de que faltam mais áreas exploráveis e que isso afeta o ritmo do enredo;
  • Sistema de magia e summons desaponta;
  • Missões paralelas são sem graça do ponto de vista narrativo.
Final Fantasy XV — PS4/Xbox One — Nota: 8.0
Versão utilizada para a análise: PS4
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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