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Análise: Job Simulator (PS4/PC) é uma sátira da banalidade do dia a dia

Jogar uma lata na cara do seu chefe nunca foi tão divertido.


O ano é 2050. Enquanto humanos permanecem espalhados pela Terra, a vasta maioria dos serviços agora são feitos por robôs especializados, permitindo que pessoas passem seu tempo se preocupando apenas com lazer. No entanto, por questões de preservação histórica, é importante que os humanos saibam como era a vida no início dos anos 2000, quando precisavam trabalhar para sobreviver. Aí entra o Job Simulator (PS4, com o PlayStation VR, e PC, com o Oculus Rift ou HTC Vive), literalmente Simulador de Emprego, uma ferramenta útil que nos permite revisitar aqueles tempos através do poder da realidade virtual.

No simulador, podemos experimentar quatro emocionantes ambientes de trabalho do século XXI: escritório, cozinha, loja de conveniências e oficina mecânica. Em cada um deles, devemos cumprir tarefas para merecermos a atenção de nossos chefes e clientes. É possível fritar um bife, servir um picolé, trocar as rodas de um veículo e até jogar Flappy Bird (iOS/Android) no computador do serviço. Exatamente como os anos 2000.


Claro, isso tudo é a história que Job Simulator nos conta, mas ainda estamos em 2016, então esses empregos que os computadores nos mostram ainda existem, e sabemos como realmente funcionam. É daí que o jogo deriva muito de seu humor, mostrando como atividades cotidianas seriam interpretadas por computadores que não conhecem de fato aquilo que apresentam. Por exemplo, para assar um bolo, basta jogar um bocado de ingredientes na máquina mágica da cozinha (o micro-ondas), enquanto algumas coisas são perdidas na tradução, como a distinção entre farinha de trigo e uma flor (flour e flower, ambas pronunciadas da mesma forma em inglês). Esses detalhes dão um charme ao jogo; a simulação é melhor por não tentar ser realista.

Em cada ambiente, somos guiados por um robô que nos dá tarefas e sugestões de como cumpri-las. Todas essas tarefas envolvem interagir com os objetos ao seu redor e descobrir o que fazer com eles. Infelizmente, a experiência acaba sendo guiada demais, quase não exigindo raciocínio do jogador. Algumas tarefas são bem específicas (como "ligue o computador, abra seu e-mail, apague todas suas mensagens"), enquanto outras são livres (como "dê uma geral no meu carro"). No primeiro caso, basta seguir as instruções passo a passo mostradas no monitor; no segundo, qualquer coisa que for feita será dada como correta. Não há punição por fazer algo errado, tampouco recompensas por fazer corretamente, então a satisfação de cumprir as tarefas é pequena.


A diversão do jogo vem de estar naqueles ambientes curiosos e experimentar novas maneiras de interagir com ele. No escritório, fiquei entretido jogando aviões de papel nos meus colegas e vendo o que acontecia se eu tentasse tirar fotocópias de tudo (inclusive livros, CDs, café e minha mão). Na cozinha, tentei fazer o sanduíche mais alto possível. Na oficina, troquei componentes de um carro por batatas. Em grande parte por causa da novidade da realidade virtual, essas interações bobas tornam-se motivos de risos.

Seja no PlayStation VR, no HTC Vive ou no Oculus Rift, Job Simulator foi feito para ser jogado de pé e exige controles de movimento. Isso permite um nível alto de imersão, já que as interações são feitas com nossas próprias mãos. No PlayStation VR, onde joguei, os controles acabam atrapalhando às vezes, pois dependem do campo de visão da PlayStation Camera: pegar objetos muito baixos, ou nas laterais, geralmente implicam em movimentos inesperados das mãos virtuais. Por sorte, o jogo é ciente disso e não exige muitas interações assim, mas ainda é um problema notável para imersão total. Não joguei nos outros headsets, mas com certeza seus controles mais modernos ajudam a resolver isso.


Jogar de pé acaba trazendo outro efeito curioso: Job Simulator cansa! Eu não sou particularmente sedentário (nem particularmente ativo), mas ficar de pé entre 20 e 30 minutos para cada cenário acabou fadigando minhas pernas. Eu já achava que não é bom jogar algo em realidade virtual por várias horas, e isto apenas corrobora minha hipótese. Claro, trabalhar cansa, então, como simulação, esse cansaço é válido de uma forma curiosamente irônica.

Assim como vários outros jogos em VR, parece ter pouco motivo para querer revisitar Job Simulator. Após completar todas as simulações, são desbloqueados modificadores para anexar nelas, como "modo gravidade baixa", que permite que objetos flutuem. Mas mesmo eles acabam sendo apenas outra diversão pequena. A razão para possuir o jogo parece ser mostrar para parentes e amigos.


Todos esses problemas atrapalham um pouco, mas não estragam o jogo. Na maior parte do tempo, Job Simulator cumpre seu propósito. Entre os jogos em VR que experimentei até agora, este é o primeiro que eu mostraria para meus pais ou outras pessoas que não são já familiares com videogames, justamente por suas tarefas simples e pela familiaridade dos ambientes. Afinal, colocar um CD no computador é algo muito mais natural do que usar o bat-scanner para encontrar pistas sob a pele de um cadáver. Eu teria me interessado mais se houvesse algum sistema para recompensar soluções criativas a problemas, mas dá para entender a direção que os desenvolvedores tomaram, pois permite essa acessibilidade a novos jogadores.

Prós

  • Altamente imersivo;
  • Senso de humor divertido;
  • Ambientes permitem interações divertidas com objetos e o cenário;
  • Ótimo para apresentar realidade virtual a parentes e amigos.

Contras

  • Sensores de movimento ocasionalmente falham;
  • Falta de punição e recompensa pela habilidade do jogador;
  • Jogar por longos períodos de tempo pode ser fisicamente cansativo;
  • Poucos motivos para revisitá-lo.
Job Simulator — PS4/PC — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PS4

Revisão: Vitor Tibério
Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do GameBlast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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