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Análise: Batman: City of Light (Multi) é um final clichê e decepcionante

A aventura do Homem-Morcego, feita pela Telltale, chega ao seu fim e não consegue surpreender.


Se você rever as análises dos primeiros episódios de Batman da Telltale, você irá perceber que eu estava muito otimista em relação ao desfecho que a série do Homem-Morcego teria. Tudo bem, eu também estava muito receoso com o que poderia acontecer, já que a Telltale optou por uma estratégia arriscada e estava remodelando a história original do Cavaleiro das Trevas. Mesmo assim, eu tinha esperanças. Afinal estávamos falando da empresa que consolidou o gênero de narrativa de decisões com point n’ click com clássicos como The Walking Dead, The Wolf Among Us e até Game of Thrones. O último episódio, City of Light, derrubou todas as expectativas

Respostas vagas e sentimentos vazios

Vou tentar não revelar muitos spoilers para aqueles que não conseguiram acompanhar a história até aqui e/ou não tiveram a oportunidade de jogar o game ainda. Basicamente, City of Light inicia cinco dias depois dos acontecimentos do último episódio e mostra que Batman está tentando permanecer na surdina por causa de seus equipamentos hackeados. Por causa disso, os criminosos do Children of Arkham estão tocando o terror em Gotham City e fazendo de tudo para atrair e matar o vigilante das trevas. O problema é que existe tão pouco destaque sobre esse fato (tirando alguns clientes de restaurante que são atacados) que parece difícil acreditar que a cidade esteja realmente em perigo. E é nesse ponto que minha primeira grande reclamação não somente com esse episódio, mas com a série inteira, aparece.

Parece que os desenvolvedores da Telltale estavam com muita preguiça de elaborar cutscenes extras que mostrassem mais aspectos da cidade que sustentassem a questão de perigo iminente. Tudo bem, é até compreensível que Gotham City tenha aparecido menos nos outros capítulos, já que havia um foco maior sobre os personagens e suas histórias, mas para este último episódio não existe desculpa. Nas poucas cenas abertas que existem da cidade, a maior dos aglomerados de pessoas é composta por modelos de personagens repetidos. É possível ver pelo menos dez indivíduos exatamente iguais: mesmo rosto, mesma pose, mesma roupa. Realmente não é compreensível que logo a Telltale, que sempre foca na história e narrativa, tenha mostrado tão pouco interesse em trabalhar o aspecto da dinâmica da cidade. Em City of Light, Gotham City parece morta e parada, sem nenhum tipo de dinâmica que se poderia esperar de uma metrópole ameaçada por um grupo terrorista.
Alfred sequestrado? Ok, a história consegue retomar seu nível de tensão momentaneamente.

Por se tratar de um episódio final, já era esperado que fôssemos ver desfecho da história dos vilões (ou, pelo menos, como eles iriam sair temporariamente do caminho do herói para fechar a trama). O primeiro que acompanhamos é Oswald Cobblepot (o Pinguim), que tenta atrair Batman para uma cilada em plena luz do dia. Esse detalhe por si só já deixa qualquer conhecedor da história do Morcego com um pé atrás. Mesmo que o vilão tivesse sob seu controle alguns drones assassinos e fosse muito bom de lábia, por que ele faria algo tão “na cara” para acabar com seu inimigo? O Pinguim sempre foi um personagem traiçoeiro, conhecido por seus esquemas sorrateiros e sempre utilizando outros para finalizar seu serviço. Colocar o personagem em uma situação tão bizarra, em que tudo que o motiva a acabar com o herói é um sentimento de vingança que nem sequer consegue se explicar direito não é uma abordagem diferente da história, é simplesmente jogar no lixo toda a construção que já existia dessa persona.
O final da história do Pinguim é ridículo de tão simplório.

O outro vilão da trama, Lady Arkham, teve um desfecho clichê até demais em termos de “Batman”. Nem mesmo em seus momentos finais, Vicky Vale consegue convencer como vilã. Talvez isso se deva ao fato de que suas motivações são fracas por não terem a devida exploração na história. Ao longo de cinco episódios, ficamos apenas sabendo por cima que o pai de Bruce torturou a mãe de Vicky, internando-a no Asilo Arkham e levando seu pai ao suicídio. Além disso, o passado de tortura com seus pais adotivos é uma válvula de escape muito cômoda para as motivações de Vicky. Isso sem falar que não dá para entender como uma repórter consegue lutar no mesmo nível com Batman, mesmo utilizando uma armadura e um bastão de energia. Lady Arkham tinha um futuro promissor, mas seu personagem, junto com Vicky, caem em um lugar-comum que nem mesmo as diferentes escolhas conseguem salvar do convencional.
As sequências de luta com Lady Arkham são boas. As motivações da vilã, nem tanto.

Quanto ao final do episódio, ficou claro que, no fim das contas, minhas decisões não importaram quase nada na forma como a história se concluiu. Pelo que pude acompanhar em vídeos de gameplays que mostram decisões diferentes das que eu tomei ao longo dos capítulos, apenas alguns aspectos superficiais da trama mudam. O grosso da história permanece o mesmo, independente de que ações você tome. Nessas horas, realmente o game mais parece apenas um filme do que uma experiência narrativa interativa. Além disso, o fato de que teremos uma segunda temporada da série, devido ao seu final repleto de “cliff-hangers”, não justifica a falta de respostas a várias perguntas que ficaram em aberto. Isso porque muitas dessas respostas teriam ajudado no desfecho da trama e, quem sabe, a fazer com que o jogador sentisse que suas escolhas realmente importassem.

O Homem-Morcego vai ressurgir

Acredito que o único momento em relação à trama de City of Light que conseguiu me cativar foi a última conversa entre Bruce e Selina. A interpretação da Mulher Gato atinge seu auge neste capítulo, em que ela realmente consegue convencer o jogador sobre suas intenções e o relacionamento entre ela e Bruce Wayne mostra toda sua força. Neste momento é possível que o jogador se sinta mais próximo do protagonista, já que este jogo de “gato e rato” (sem trocadilhos propositais) exibe a verdadeira face de Bruce, mostrando seu lado mais humano e menos super-herói. Se ao menos a Telltale tivesse optado por focar apenas na relação dos dois, a série toda teria um enredo mais consistente e mais forte.

Além disso, a presença de mais cenas de combate (apesar de serem basicamente apenas Quick Time Events) garantiram que City of the Light não se tornasse cansativo. Em certos momentos a sequência de golpes a serem feitos era tão precisa que o jogador familiar com a série Arkham se sentiria em casa com a semelhança de estilos. Uma pena que é prejudicada com o número excessivo de carregamentos durante as cenas de combate e constantes travamentos, que fizeram muitos jogadores reiniciar o game várias vezes. Isso sem falar nos bugs bizarros que me fizeram lutar contra dois olhos e uma dentadura flutuante em alguns momentos (mas dava para dar boas risadas disso, pelo menos).
O ritmo do game é quebrado pelos travamentos excessivos.

Ao terminar City of Light e, consequentemente, a primeira temporada da nova série da Telltale, é que eles voaram muito alto com o Homem-Morcego e agora a capa do herói está falhando, e ele está em queda livre. Com uma segunda temporada pelo caminho, a empresa tem chances de sobra de consertar os tropeços que cometeram em City of Light e tentar criar novos episódios que mantenham a boa consistência que a série possuía até o momento. Com tantas reviravoltas e desenvolvimentos interessantes de personagens, é triste ver que, no final, eles permaneceram em uma situação clichê que parecia não agregar nada de novo ao conto do Cavaleiro das Trevas.
A história do Homem-Morcego, pelos olhos da Telltale, ainda tem esperanças?

Prós

  • Boas sequências de luta.

Contras

  • Final clichê e com muitas perguntas;
  • Alguns personagens não se desenvolveram bem;
  • Bugs e travamentos excessivos.
Batman (A Telltale Series): Episódio 5: City of Light — PC/PS4/XBO — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PS4

Revisão: Vitor Tibério
Luís Antônio Costa é graudado em Ciência da Computação pela UFRGS. Apaixonado por games desde que ganhou seu primeiro Master System e conheceu Sonic, também é amante da ciência e um devorador de livros. Além do GameBlast, também faz alguns textos para o Medium e pode ser encontrado no Facebook e Twitter.

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