Blast from Japan

O nicho do mercado de PCs no Japão

As razões por trás do reservado mercado para jogos de computador no Japão e o que o futuro nos reserva.


Como um apaixonado por jogos japoneses, uma das situações que sempre me perturbou foi o distanciamento dos grandes títulos da terra do sol nascente dos PCs. Quando menor, joguei muito no computador e constantemente sonhava em ter um console para poder jogar aqueles RPGs que só conseguia jogar na casa alheia, e acabei ficando por muito tempo preso aos consoles por causa dessa quase exclusividade nipônica com eles, e mesmo que sentindo que não há momento melhor na história para se jogar no PC como hoje, não tem como não sentir um remorso pela falta que títulos como Persona 5 ou Ni no Kuni 2 me farão.

"I'll miss you, babe"
Agora que parei um pouco com meu lamento pessoal, chega a hora de seguir com os questionamentos sobre o mercado de PC Gaming no Japão. Eu sei como o mercado independente no Japão foca quase que exclusivamente em PCs e como esses títulos chegam com mais e mais frequência no ocidente, até abordando o assunto em outro texto anteriormente. A questão agora é o porquê.

Por que o investimento massivo em jogos para PC no Japão vem do mercado independente e por que as grandes empresas muitas vezes se ausentam desse mercado? Muitas razões são dadas, desde o raso “Japoneses não gostam de computador” até o incrivelmente quase certo “As casas são muito pequenas para um computador”, mas acho que para entender melhor esse mercado, temos que ir um pouco mais a fundo e refletir acerca de algumas questões de forma preliminar.

O Japão é pequeno demais para nós dois

Uma das razões indiretas para a impopularidade do mercado japonês para PC é o tamanho do próprio Japão. Tá, eu exagerei um pouco, mas o fato é que fatores como a alta densidade populacional, gerando um intenso tráfego de pedestres, propiciaram um mercado ainda mais promissor para os Arcades no Japão.
Usagi nem pra me chamar...
Outra razão são as já mencionadas residências menores de boa parte da população, que embora não sejam realmente pequenas demais para um computador, fazem com que a vida social no Japão seja menos centrada no ambiente da casa, tornando os arcades um lugar propício para jogos em grupo até hoje, sendo uma cultura ainda forte e viva, mesmo que praticamente morta no ocidente.

O impacto dos Arcades no mercado caseiro foi maior do que julgamos hoje. Se no ocidente já tínhamos jogadores loucos para trazer para casa jogos dos seus fliperamas, no oriente esse efeito era proporcional ao sucesso dos Arcades. Até hoje, diversos ports de jogos de Arcades saem anualmente no Japão, e o mercado de consoles se preparou melhor para isso, seja com os formatos de controles ou com o marketing para o mesmo público-alvo.

Não foi sempre assim

Boa parte do público jogador sequer considera o PC como uma máquina para jogar, e muitos assumem que esse seja o fato originário da ostracização dos jogos para computador no Japão, o que não é verdade, pois é válido lembrar que o mercado japonês para PC já foi bem maior.
Um computador... talvez...
Pequenos fatos facilmente esquecidos, como o de que franquias como Metal Gear nasceram no MSX, e outras como Bomberman em outros formatos como o NEC-PC, ou que o NES originalmente se chamasse Family Computer e tivesse um periférico para teclado, mostram que o PC nem sempre foi tão fraco. Um fato, porém, acabaria potencializando todos as situações mencionadas anteriormente neste texto.

Crise de uns, oportunidade de outros

O “Crash” da indústria de jogos americana de 1983 é um dos fatos mais históricos para toda indústria, e talvez o ponto chave de partida para entender pelo menos uma boa parte das tendências de mercado que vemos atualmente. A indústria americana de consoles só foi se recuperar anos depois com o NES, e aí temos uma primeira dica do que aconteceu com os jogos para PC no Japão.
O segundo pior Crash da história dos jogos para ilustrar quão ruim foi 1983.
Com a queda dos consoles ocidentais, empresas japonesas como a Sega, Nintendo e mais futuramente a Sony, investiram pesado em seus consoles e tiveram muito retorno com isso. Com esse mercado próspero, já é fácil enxergar como alguns desenvolvedores começaram a olhar com mais carinho para os consoles.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, o mercado para jogos de computador se aproveitava da mesma crise que fomentou o mercado japonês de consoles. Empresas como Microsoft e IBM cresciam seus olhos para os jogos enquanto já ganhavam dominância em outras áreas, e junto com a pressão dos consoles, jogaram a última pá de terra no túmulo dos PCs japoneses com a morte do formato NEC-PC9801.
Ys e a resistência de poucos no mercado de PCs
Entre migrar para o novo mercado de futuro duvidoso de PC ou para os promissores e, ainda por cima, nacionais consoles, a escolha era óbvia. Aquilo que não se adequava ao padrão dos consoles, como jogos com menor apelo popular, que exigiam mais controles ou até mesmo jogos eróticos, acabaram obrigados a migrar para os novos formatos de PC formando o mercado de nicho que conhecemos hoje. Algumas poucas empresas, no entanto, mantiveram-se firmes a tradição do PC, como a Nihom Falcom, que acabou pagando um preço, sendo uma empresa com muito menos visibilidade hoje em dia do que já teve.

Atualmente…

Pode parecer pessimista, mas é difícil dizer quando e se o mercado japonês voltará com tanta força para o PC. Enquanto o suporte deles é muito maior do que já foi há alguns anos atrás, a maior parte dos grandes lançamentos ainda é de ports de versões para console, e o mais preocupante: muitos deles não chegam no próprio Japão. Com isso, o port de jogos que não são populares fora de terras nipônicas se torna ainda mais difícil. Ainda por cima há a concorrência do resto do mercado asiático no PC, pela rejeição de muitos países ao mercado de consoles por rivalidades históricas com o Japão (agora faz sentido o tanto de jogo online coreano, né?). 
Alguns países seguiram intencionalmente na contramão do Japão.
Apesar de tudo, o crescimento do interesse de desenvolvedoras japonesas no PC em virtude da preocupação com o mercado internacional é cada vez maior, e com o crescimento dos orçamentos dos jogos, é difícil ficar preso para sempre ao mercado nacional, então por mais que não seja o foco dessas desenvolvedoras, certamente podemos esperar o PC como uma plataforma um pouco mais amigável para os amantes dos jogos japoneses em alguns anos.

Revisão: Pedro Vicente
Juni Chaves é formando em Sistemas e Mídias Digitais e atualmente redator no GameBlast e também no Ivalice. Grande interessado em Game Design e nas áreas artísticas que envolvem os jogos, não é raro encontrá-lo falando disso no Facebook e no Alvanista.

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