Crônica

A locadora dos sonhos: os encontros na Brasil Game Show

Sem novas locadoras para reunir os amigos, encontrei na BGS o lugar ideal para bater aquele velho papo sobre games com os parceiros e ídolos.


Não existem mais locadoras de videogame na minha cidade. O espaço que frequentei durante toda a minha infância hoje está vivo apenas nas minhas memórias. As conversas que antes começavam nos bancos em frente aos videogames hoje se resumem a mensagens pelo celular. Contudo, em uma ocasião em especial, eu consegui vivenciar um pouco da antiga magia das locadoras. E ela foi mais intensa do que eu imaginava.

Sonho adormecido  

Quando eu era garoto, costumava sonhar com aqueles eventos grandiosos que via nas revistas de videogame da época — principalmente a E3, a maior feira de jogos do mundo. Via as fotos, mesmo com a péssima resolução das publicações, e sonhava em fazer parte de um evento no qual todos estavam lá pelos jogos. Era um sonho.

O tempo passava, a paixão pelos videogames só aumentava, e a vontade de participar de um evento como a E3 permanecia firme. Infelizmente, por morar muito longe dos grandes centros, nem mesmo de encontros menores pude participar. Tive que me contentar com as reuniões nas casas dos amigos, que, aliás, foram as situações mais próximas de um evento de jogadores de que participei por aqui.

Por sorte, eu tinha as locadoras de videogame. Nelas, participava de campeonatos, conversava sobre os lançamentos e passava o dia inteiro sorrindo com as situações mais inusitadas. Era uma diversão só. Mas, quando elas acabaram, fiquei sem eventos e sem locadoras. Para piorar, os encontros com os amigos se tornaram raros. As mensagens pelo celular se tornaram tudo o que estava ao meu alcance.


Com a inesperada mudança de rumo na minha vida gamer, quando passei de jogador para jogador/redator, as coisas mudariam um pouco. Escrevendo para o GameBlast, tive a oportunidade de conhecer e cobrir eventos da minha região, como o SAGA e o Yujô Gamer, em Natal, que reúnem milhares de fãs de cultura pop em geral. Até já estava satisfeito, mas aí surgiu a Brasil Game Show 2016, justamente no meu melhor momento como redator até o momento. Com muita vontade, coragem de gastar as economias e credencial na mão, chegava o momento de começar uma das maiores jornadas da minha vida.

A epopeia 

A ideia de participar da Brasil Game Show, o maior evento de games da América Latina, não veio assim por acaso. Desde o começo de 2016, tenho colaborado com a equipe da WarpZone na produção de livros e revistas sobre jogos clássicos. Foram mais de vinte livros publicados durante o ano. E a BGS seria a primeira grande exposição da marca para o público gamer brasileiro. A equipe é praticamente toda de São Paulo, com alguns poucos do Rio de Janeiro. Por isso, todos combinaram de se encontrar na BGS. Só que eu sou do Rio Grande do Norte.

A participação da WarpZone na BGS já estava definida desde o começo do ano. A equipe toda confirmando presença; seria o primeiro encontro do time. Completamente enlouquecido com a possibilidade de participar do evento, principalmente pelo fato de ser uma das atrações, concentrei coragem e decidi. Teria a chance de expor o meu trabalho em um dos maiores eventos de games do mundo, conheceria os meus colegas de WarpZone e, claro, finalmente poderia abraçar os parceiros de GameBlast.
O primeiro abraço na galera do Blast. 
Decidido, juntei as finanças, pedi uns dias de folga no trabalho, peguei a autorização com a esposa e imprimi a credencial. O dia chegava. E seria uma longa, longa jornada, começando pela ansiedade de voar pela primeira vez, e seguindo pela lenta velocidade com que os dias passavam até finalmente enfrentar horas de viagem até chegar ao grande destino.

Como moro no interior do Rio Grande do Norte, chegar até a BGS em São Paulo não foi uma tarefa muito simples. Tive que pegar um ônibus de casa até Natal, um avião de Natal até Brasília e outro de Brasília até São Paulo. Saí de casa na quarta-feira, dia 31, às 7 horas da manhã, e só cheguei em São Paulo ao meio dia, da quinta-feira, dia 1, justamente no primeiro dia de evento, dedicado à imprensa. Demorou, mas cheguei.

Passando pelo hotel apenas para tomar um banho, fui de Uber até o São Paulo Expo, local onde acontecia o evento. Era pertinho, a apenas quinze minutos de onde me hospedei com o Nando Bastos (WarpZone) e o Jaime Ninice (um dos maiores parceiros que esse mundo louco da redação gamer me trouxe). Chegando lá, já tive o primeiro espanto: o lugar era monumental. Um centro de convenções com uma estrutura incrível.


Lá dentro, outro choque: estava tudo lindo. Estandes enormes, cheios de luzes e sons, telões enormes exibindo diversos trailers, gente para todo lado, grandes marcas presentes, diversas lojas repletas de produtos que todo fã de games curte e muito, muito videogame.

Na BGS 2016, os visitantes podiam testar os próximos lançamentos de grandes produtoras de games do mundo, como Microsoft, Sony, Ubisoft, EA e WB Games. Além disso, em outros estandes, demonstrações de títulos também estavam disponíveis para teste, e uma variedade de arcades alegrava os corações mais saudosistas. Só não jogava quem não queria. E para um apaixonado pelos antigos templos da diversão como eu, tudo aquilo mais parecia uma locadora gigante. Uma locadora dos sonhos.

Um mundo de videogames

Estandes gigantescos com dezenas de centrais de jogo faziam a BGS brilhar. Microsoft, Sony e todas as empresas que levaram as suas novidades para o público capricharam no acervo, deixando a locadora, quer dizer, o evento repleto de opções para se divertir, sozinho ou com os amigos. Tinha de tudo: jogos de tiro, dança, luta, ação, aventura. Bastava esperar a vez na fila e ser feliz.

Filhos jogavam com os pais; pais mostravam os consoles em que jogavam aos filhos no pequeno Museu dos Videogames; amigos se enfrentavam em contras acirrados; casais se presenteavam com lembrancinhas de seus jogos favoritos, e amigos virtuais aproveitavam para dar o primeiro abraço. Era um ambiente bastante aconchegante, como costumava ser as antigas locadoras de videogame. Era a magia dos jogos unindo as pessoas, independente das diferenças.
Na BGS era fácil encontrar alguém que já foi, é, ou será do Blast. 
Não foram raros os momentos em que esqueci que estava lá para ajudar o pessoal a vender os livros da WarpZone e simplesmente me deixava levar pelo som nostálgico de dezenas de games sendo jogados ao mesmo tempo misturado ainda a muitas risadas, saindo pelo evento para encontrar amigos e jogar sem parar. Sem dúvidas, a BGS foi um excelente espaço para redescobrir amizades, conhecer gente nova, bater um papo com os ídolos e celebrar os jogos de maneira inclusiva e saudável.
Um dos jornalistas que mais me inspirou quando criança, Pablo Miyazawa já foi editor das revistas Nintendo World, Herói, EGM e hoje edita o IGN Brasil. 
Logo de cara, éramos recepcionados pelo time de staffs cadeirantes, todos com sorriso no rosto e prontos para ajudar no que fosse preciso, provando que nos videogames não ligamos para as diferenças e que os jogos podem unir de verdade. Já no evento, foi possível abraçar um monte de amigos que conhecia apenas pelas redes sociais. E disso, falo de uma boa parte do time que faz os sites do GameBlast. Redatores, revisores, diagramadores, e até o Sérgio Estrella, o próprio criador disso tudo. Conhecer pessoalmente a galera que dá vida a esse sonho e que me abriu as primeiras portas foi de longe uma das melhores coisas de estar na Brasil Game Show. E isso não tem preço.
Esse é o Sérgio Estrella, criador do Nintendo Blast e de todos os outros sites Blasts.
No stand da WarpZone, finalmente conheci o meu time de trabalho: Cleber Marques, Rafael Marques, Denis Bortolaço, Nilton Sabat, Jaime Ninice, David Vieira, Gabriel Leles, Ricardo Ronda, Eidy Tasaka, Nando Bastos, Ricardo Babachinas e o Eduardo Suhanko. Estávamos reunidos pela primeira vez depois de quase um ano produzindo livros. Foi incrível. Parecíamos amigos de muito tempo. Os dias foram poucos para colocar as conversas em dia, mas foram suficientes para serem inesquecíveis.
Equipe WarpZone.
Outra parte gratificante de estar na BGS foi o carinho dos leitores. Além do reconhecimento pela WarpZone, muitos leitores reconheceram a minha foto e o nome no crachá e vieram dizer que acompanham o site e as revistas digitais. Alguns até pediram para tirar foto. Mas assim como os leitores do GameBlast, eu também cresci lendo outros redatores, principalmente das antigas revistas de videogame. E se a turminha mais jovem fazia fila para tirar foto com os Youtubers famosos que marcaram presença, eu aproveite para conhecer os grandes nomes do jornalismo de games no Brasil.
O Chefe, ex-editor das revistas Super Game, Game Power e Super GamePower.
Entre as minhas conquistas, estão as fotos que consegui com o Gustavo Petró do IGN Brasil; Théo Azevedo do Uol Jogos; Fábio Santana, ex-editor da revista Gamers e representante da Capcom no Brasil; Pablo Miyazawa, ex-editor das revistas Nintendo World, Rolling Stone Brasil, EGM Brasil, Herói e hoje editor do IGN Brasil; Claudio Balbino editor das revistas UltraJovem e GameOver; a lenda Ivan Battesini, criador da rede de locadoras ProGames e hoje sócio da WarpZone; e  Matthew Shirts, mais conhecido como O Chefe das revistas Super Game, Game Power e Super GamePower.

Só pode ser magia 


Foram dias intensos, nos quais a paixão pelos videogames foi capaz de unir pessoas de todas os lugares do Brasil. Parecia que tínhamos vivido as mesmas histórias. Que cada uma fez parte da vida do outro de alguma forma. E que de alguma forma estávamos juntos o tempo inteiro, ligados, talvez, por pixels, bits ou seja lá o que dá vida a essa magia dos videogames que nos cerca desde o tempo das saudosas locadoras de videogame.

Revisão: Bruno Alves
Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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