Como Overwatch se sobressaiu em seu gênero

O jogo de Tracer e os outros heróis conseguiu muito mais do que planejava.


Jogos de tiros em primeira pessoa são algo muito comum na indústria de games. Devido à receita pronta para criar um título nesse gênero, é bastante complicado fugir do padrão ou inventar alguma novidade que vai dar aquele “gosto” especial. O desafio se torna ainda maior quando se trata de uma experiência multiplayer e o mercado já se encontra saturado de tantos títulos semelhantes. Felizmente, para a alegria de nós jogadores, a Blizzard resolveu se aventurar por esse gênero e, como em tantos outros, conseguiu levá-lo além de suas capacidades com o desempenho de Overwatch.

FPS: um estilo explorado à exaustão

First Person Shooter é um dos gêneros mais adorados pelos gamers e pela indústria. Afinal de contas, quem não gosta de manter seu oponente na mira de uma arma enquanto bola a melhor forma de partir para o combate? Além do mais, a mecânica é simples de ser trabalhada e, desde os primeiros games do gênero como Wolfenstein e Doom, a fórmula tem se mantido basicamente a mesma: ajuste a câmera, mire, atire, se esquive e colete itens quando puder..
Os primórdios do PC em que nos divertíamos matando nazistas em Wolfenstein 3D.

Quem apareceu para revolucionar a maneira do gênero ser encarado tanto pelos desenvolvedores quanto pelos jogadores foi Bioshock, com sua jogabilidade e enredos únicos. Ele foi um dos mais marcantes FPS dos últimos tempos e, além de Half-Life e suas sequências, possuía uma trama super elaborada que servia mais do que um simples pano de fundo que mantinha o gameplay sólido. Além do mais, a mecânica era inovadora com o uso dos poderes dos Plasmids em uma das mãos e armas na outra. Isso permitia toda uma gama nova de estratégias de combate, que não ficava limitada apenas ao uso de elementos de cenário ou a um velho plano de “vou atirar primeiro no da direita com o revólver, depois uma granada no meio e acabou”.
Depois de Half-Life, Bioshock chegou para revolucionar de vez o conceito de FPS.

Uma outra forma de explorar o FPS era implementar ele de forma multiplayer, em que vários jogadores pudessem jogar o game localmente ou à distância. Essa abordagem deu tão certo que o sucesso de Counter-Strike e seus títulos sucessores está aí para provar. Atualmente os campeonatos mundiais de Counter-Strike: Global Offensive movimentam milhões de dólares, e os jogadores profissionais são aclamados como estrelas do rock. O problema (e vantagem para os desenvolvedores e outras empresas que lucram com o game) é que se acaba criando um monopólio do gênero. Afinal, se o game funciona tão bem, por que precisaríamos de outro? Basta lançar algumas atualizações mudando alguns detalhes aqui, consertando bugs ali e está tudo certo.
O ESL One Cologne 2015 foi um dos grandes eventos de games a sediar um campeonato de CS: GO.

Além de Counter-Strike, outro game que atualmente rivalizava era Team Fortress 2, criado pela Valve e distribuído gratuitamente pelo Steam. Para quem não queria pagar por Counter-Strike e se aventurar em um game que exigia dedicação dos jogadores, esse FPS era uma alternativa mais barata e divertida. Team Fortress 2 seguia o mesmo estilo de mecânica de combate que Counter-Strike, mas o visual era mais simples e toda a jogabilidade apelava mais para a diversão do que uma imitação da realidade de um campo de combate. Muitos jogadores de PC, como eu, que não se interessavam muito pela experiência de Counter-Strike, encontravam em Team Fortress 2 horas de diversão queimando seus adversários com as chamas do Pyro ou os pegando desprevinidos com a precisão do Sniper.
Team Fortress 2 continua sendo um dos FPS Multiplayer gratuitos mais divertidos disponíveis para PC.

Mas contra esses dois fortes concorrentes, o que se pode fazer? Tentar algo novo é uma solução. Porém, essa tática nem sempre funciona, ainda mais quando se está lidando com um público que está acostumado a um estilo de gênero já consolidado. O jeito mesmo é tentar uma abordagem mais sutil e tentar “reinventar a roda”, melhorando ou modificando o que já agrada os jogadores. E quem melhor para tal tarefa do que uma empresa que é especialista em melhorar e popularizar um gênero como a Blizzard?

A desenvolvedora de sucessos como Diablo, Starcraft e Warcraft conseguiu nos últimos anos sucessos inesperados ao adentrar no território do MOBA com Heroes of the Storm e no das cartas com Hearthstone. Antes desses games, o mercado era praticamente dominado por Dota 2 e League of Legends no território do MOBA e por Magic nas cartas. Com essa prática de buscar a perfeição no que faz, não foi muito inesperado que sua criação mais recente, Overwatch, tenha sido um sucesso nas vendas, tornando-se o game mais vendido de junho de 2016. Somente nas primeiras semanas após o lançamento, a base de usuários já contabilizava mais de 10 milhões de jogadores e, até o hoje, o número só continua aumentando. Mas como foi que a Blizzard conseguiu se superar nesse ramo e conquistar esses incríveis números? Para entender isso, primeiro precisamos conhecer as origens dessa aventura.

Nós precisamos de heróis!

Antes que investiguemos quais são os aspectos que destacam Overwatch em relação a outros títulos do gênero, vamos relembrar como o game surgiu pelas mãos da Blizzard. Tudo começa em 2014, depois que a empresa cancelou o desenvolvimento do ambicioso MMORPG Titan, um projeto em andamento por sete anos. Segundo o co-fundador da empresa: “Nós não achavamos o game divertido. Não tínhamos encontrado paixão nele”. Foi assim que o time por trás de Titan foi reduzido e colocado para trabalhar no projeto de Overwatch, que seria a segunda tentativa da empresa de lançar uma nova franquia desde Starcraft em 1998.

O diretor do game, Jeff Kaplan, disse que o primeiro passo para esquecer o fracasso de Titan e focar no desenvolvimento de Overwatch era ignorar o tamanho da oportunidade financeira do projeto e se concentrar nas ferramentas e habilidades que eles já tinham trabalhado. Em reuniões, o grupo estudou o estado atual do gênero FPS e decidiu que queria emular em Overwatch características como o uso de pulos com foguete e ganchos (como visto em Call of Duty: Modern Warfare 2) ou a fluidez de movimento dos personagens (em Team Fortress 2). Como o gênero MOBA estava em ascensão na época, a equipe também teve que levar isso em conta. Uma ideia era descobrir um meio de criar um game que mesclasse elementos desse gênero com uma mecânica similar a Team Fortress 2, por exemplo. E fois assim, com essas ideias na cabeça que a equipe trabalhou arduamente pelos próximos anos para desenvolver toda a estrutura e mecânica do game.
O processo de desenvolvimento de um dos mapas do game, O Templo de Anúbis.

Além da questão da jogabilidade, outro aspecto que preocupava Jeff e sua equipe era a questão dos personagens. Afinal, falta de criatividade não era um problema para a Blizzard, mas eles queriam montar um time de heróis que fosse o mais específico possível — ou seja, cada personagem seria único e sem generalidades. Como eles haviam decidido desde o começo que o sistema de leveling não iria influenciar em nada as partidas (um jogador não teria mais poder de ataque de acordo com seu nível, por exemplo), seria preciso pensar em como tornar os personagens tão especiais em suas habilidades que a chave para a vitória não seria o nível de jogador, mas sim o quão bem que ele saberia utilizar o herói que tinha em mãos. Essa característica permitiu que o nível somente interessasse ao jogador no modo competitivo, que foi adicionado posteriormente ao lançamento do game.
A ideia inicial era que Genji seria um único personagem, mas depois ele foi quebrado em dois (para nossa alegria).

Mantendo o foco na jogabilidade do game e em seu arsenal de personagens, somente sobrou para a Blizzard focar nos detalhes restantes como a questão do preço e do conteúdo adicional. Quanto a esse primeiro, apesar de muitos reclamarem, é preciso ter em mente que, mesmo com um valor alto no mercado, a empresa garantiu que os donos do game receberão qualquer conteúdo adicional do game no futuro sem custo nenhum. É um pequeno sacrifício no bolso por um bem maior. E, sobre o conteúdo extra, até agora os jogadores contam com uma personagem nova, a sniper healer Ana e um evento especial de Halloween que está dando o que falar.
Jogabilidade 100%.

Muito mais do que apenas Loot Boxes

Agora que já falamos sobre como foi o desenvolvimento dos principais elementos do game, chegou a hora de detalharmos os aspectos que destacam Overwatch em relação aos seus irmãos de gênero. Afinal de contas, o game é muito mais do que apenas pegar uma loot box nova e esperar por uma skin ou spray diferente para utilizar em seu personagem (mas tudo bem, nós gostamos das skins mesmo assim e ficamos muito irritados quando aparece uma duplicada!).
  • Jogabilidade simples, mas com variedade: Aqui a Blizzard resolveu pegar emprestada uma característica por outro FPS multiplayer de sucesso: Team Fortress 2. A mecânica de movimento é simples, e você somente precisa se preocupar em saber quais são as habilidades de seu personagem, o momento certo de usá-las e como ajudar o seu time. Além disso, os objetivos dos mapas disponíveis no game não são nada complexos: capture pontos do inimigo, escolte uma carga ou lute pelo domínio de uma posição. Mas se Overwatch usa a mesma estratégia de Team Fortress 2, o que faz dele melhor? A variedade. Enquanto Team Fortress tem um grupo de personagens com habilidades próprias, eles são poucos diversificados. Tanto são que em uma partida do game você pode encontrar mais de um Pyro ou Heavy, sendo que isso não ocorre com Overwatch. Com mais de vinte heróis diferentes pra se escolher, variedade é o que não falta. Isso torna cada partida única e possibilita um nível absurdo de estratégia.
Personagens para todos os gostos.
  • Paridade entre os jogadores: Colocando a diversão em primeiro lugar, a Blizzard decidiu que leveling não seria um empecilho para nenhum jogador de Overwatch. Sendo assim, um usuário nível 2 poderia entrar no mesmo time que um de nível 95, sem problema algum de desbalanceamento. Em Overwatch, o nível só mostra o quanto você é dedicado ao game e também o número de loot boxes que você já conquistou com conteúdos extras. O que realmente vai fazer diferença em uma partida é como cada time sabe utilizar seus heróis para conquistar a vitória e não o número que aparece embaixo do emblema dos jogadores. O nível só interessa para aqueles jogadores mais experientes que já alcançaram pelo menos o nível 25 e podem participar do modo competitivo, em que o nivelamento de personagens faz diferença tanto na partida quanto nas recompensas.
Mesmo no Modo Competitivo, jogadores de níveis muito diferentes ainda podem combater juntos sem problemas.
  • Personagens carismáticos: Esse talvez seja o elemento mais forte que Overwatch possui para competir com os outros títulos do gênero; afinal, a Blizzard é craque quando se fala de criar personagens únicos. Além do carisma natural que cada herói do game possui, ainda existem os belos curtas lançados antes do game (com novos em produção) que contam um pouco sobre a história dos personagens. Não são somente as falas, as poses de vitória ou as animações que tornam cada herói único à sua maneira, mas a forma como os jogadores se conectam com eles enquanto estão no fogo da partida. Afinal de contas, não é a mesma coisa jogar com alguém tão sinistro quanto o Reaper ou alguém completamente zen (mas mortal) como Zenyatta. 
Tem como não amar a Mei? (Na verdade sim, quando ela aparece do nada e te congela, hehe)
  • Conteúdo adicional para sempre: Por último, mas não menos importante, como eu havia mencionado antes, o preço salgado que Overwatch é vendido é um pequeno preço que se paga pelo benefício de ter um game sempre atualizado com conteúdos extras na sua mão. Novos personagens, mapas, modos de jogo, eventos de temporada, etc. Tudo isso e muito mais será adicionado à versão básica do game no futuro sem nenhum custo adicional aos jogadores. Team Fortress 2, CS Go e outros jogos do gênero também possuem essa característica, mas aqui, novamente, a habilidade da Blizzard em se superar em praticamente tudo que faz fala mais alto, garantindo um nível de qualidade superior além de fazer um ótimo marketing e publicidade.
Junkenstein's Revenge é o modo especial da temporada de Halloween, disponível de 11/10 a 01/11.
E você, jogador de Overwatch, concorda com essas ideias ou tem alguma a acrescentar sobre o porquê da fórmula do game fazer tanto sucesso?

Revisão: Bruno Alves
Luís Antônio Costa é graudado em Ciência da Computação pela UFRGS. Apaixonado por games desde que ganhou seu primeiro Master System e conheceu Sonic, também é amante da ciência e um devorador de livros. Além do GameBlast, também faz alguns textos para o Medium e pode ser encontrado no Facebook e Twitter.

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