Crônica

As inesquecíveis e duras regras das locadoras de videogame

Sonhando em evitar o caos, os donos de locadoras de videogames criaram regras que marcaram época.


Templo sagrado da diversão e ponto de encontro de uma geração, as locadoras de videogame marcaram época como o espaço da cidade mais frequentado pela garotada durante as décadas de 1990 e 2000. Mas, engana-se quem pensa que o lugar era uma verdadeira zona pelo fato de ser frequentado por crianças. Muito pelo contrário. Justamente para evitar o caos, os donos de locadoras criavam regras duras para nos colocar na linha e evitar que o pior acontecesse em seus comércios.

Na mira da mãe

A minha história com os videogames começou bem cedo, aos quatro anos de idade, na locadora do Jorge. Meu pai me deixava lá quase todos os dias para que eu pudesse brincar um pouco nos modernos jogos eletrônicos, uma novidade da época. Como o meu pai era amigo de longa data do dono, ele nem se preocupava em me deixar lá. Mas, a conversa mudava quando o assunto era a minha mãe.

Como boa mãe que se preze, a minha suspeitava e temia tudo. E com a locadora não era diferente. Ela perguntava se era seguro me deixar lá com os outros garotos. Se existia algum adulto responsável pelo lugar. Se eu não ficaria cego de tanto jogar. Ela imaginava todas as piores situações possíveis e se perguntava se a locadora tinha um plano para contorná-las. Coisa de mãe.

Para ficar menos apreensiva, a minha mãe foi até a locadora em que eu jogava para interrogar o dono a respeito do funcionamento do lugar que, segundo ela, era bem mal falado na cidade. Segundo os boatos que só ela ouvia, lá era uma tremenda zona, sem regras e cheio de bagunça. Mas, para a surpresa de dona Ana Lúcia, a locadora era cheia de regras. Muitas delas, aliás, eram bastante rígidas. Só assim para um ambiente como aquele funcionar em harmonia.

Cuidado com a língua 

Ao entrar na locadora do Jorge — ou em qualquer outra da cidade —, a primeira coisa que víamos, depois dos jogos no mural e dos doces e salgados na prateleira, era um cartaz, escrito com lápis hidrocor, com os dizeres: “PROIBIDO FALAR PALAVRÃO”. Eu me lembro bem como isso acalmou a minha mãe na primeira vez em que ela entrou em uma locadora. Aquelas letras soaram como música pra ela.

Não falar palavrão era a regra básica das locadoras em que joguei. Por ser um ambiente majoritariamente infantil, os comerciantes proibiam completamente o uso dessas palavras de baixo calão. A regra era tão respeitada que, quando alguém levantava o tom de voz depois de um momento de fúria no jogo, a galera toda já olhava torto para o cidadão, como se todos estivessem bloqueando a sua voz com o pensamento.

Claro que manter essa regra era inevitável em algumas situações. Aqueles jogadores mais entusiasmados não seguravam os gritos quando conseguiam um feito épico, como passar da fase da moto em Battletoads, ou depois de sofrer o gol da virada aos 45 minutos do segundo tempo em International Super Star Soccer Deluxe. Aí já viu, era palavrão para todo lodo, seguido de risadas descontroladas de outros jogadores e gritos enfurecidos do dono da locadora.

Jogatina interrompida, suspensão de alguns dias e raiva dobrada, os jogadores que praticavam o delito do palavrão passavam um bom tempo sem repetir o ato. Pelo menos, até uma próxima ocasião que o merecesse, como os ataques que nunca acertavam o Pokémon inimigo quando mais precisávamos em Pokémon Stadium. Essa regra foi tão forte que até hoje eu não consigo falar palavrões, de tanto que eu me controlei para não ser punido na locadora.

Segura firme 

As moedas para jogar sempre foram contadas. Quando eu recebia a mesada dos meus pais, já fazia os cálculos para que ela rendesse o mês inteiro. E, para que rendesse por tanto tempo, eu não podia ser punido na locadora. Seria um pesadelo. Se eu soubesse me controlar bem para não falar palavrões, o meu maior terror de perder valiosos minutos passava a ser o de acabar derrubando um controle.

Derrubar o controle do videogame da locadora era quase um crime. Estava no mural escrito em letras garrafais: “DESCONTO DE 10 MINUTOS PARA QUEM DERRUBAR O CONTROLE”. Como eu temia isso. Segurar um palavrão era moleza. Mas o controle era bem mais tenso, pois tudo podia acontecer, principalmente nos jogos de luta.

Como eu costumava jogar muitos jogos de luta, eu possuía o velho costume de colocar o controle dentro da camisa para suavizar o deslize dos dedos pelos botões, e de quebra isso também acabava tirando as minhas mãos da vista dos donos, pois eles fiscalizavam quem estava com as mãos sujas para não desgraçar os controles. Era bem mais fácil aplicar aquela meia lua mais soco e ainda evitava um monte de bolhas nos dedos. Porém, a prática também trazia o grande perigo de deixar o controle escorregar e ir direto para chão.


Os donos de locadora pareciam ter o ouvido treinado. Às vezes, o controle escorregava e caia em cima da chinela havaiana, mas o danado ouvia de longe e já gritava: “VOCÊ SABE QUANTO CUSTA UM CONTROLE DESSE, MOLEQUE? SE QUEBRAR VAI PAGAR! MENOS 10 MINUTOS DO SEU TEMPO!”. Era como levar um soco no estômago. O pior era quando você fazia de tudo para manter o controle seguro nas mãos e o seu parceiro, o player 2, fazia o favor de derrubar o dele duas vezes na mesma partida. Aí a luta se transportava para a vida real. E não adiantava querer trocar de jogo.

Sábias escolhas

Para manter o bom funcionamento da locadora, diversas outras regras básicas eram criadas  conforme o comércio de jogos se desenrolava com o tempo. Uma das mais rígidas nas locadoras em que joguei em São José do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, era em relação à frequência com que trocávamos de games durante a jogatina.

Dessas locadoras que frequentei, a mais rígida em relação à troca de jogos era a Point Games. Lá, se eu fosse jogar por 30 minutos, eu só poderia trocar de jogo uma única vez. Caso a jogatina durasse uma hora, era permitido trocar até três jogos. Isso foi criado para evitar que os malucos que não sabiam o que jogar ficassem testando todos os jogos da locadora até encontrar um que agradasse, fazendo com que o dono do lugar ficasse indo e voltando sem parar da prateleira de jogos até o console, impedindo-o de cuidar das outras obrigações da locadora.

Com esse limite estabelecido, a garotada passou a gastar um bom tempo até escolher o jogo. Caso contrário, seria necessário aturar Super Man 64 por uma infinita meia hora, ou acabar trocando Mega Man X5 por um daqueles jogos de nave que terminamos em 10 minutos, tendo que jogá-lo repetidamente até acabar o tempo.

Além de não poder trocar de jogo quantas vezes quiser, outra regra da locadora cuidava em manter a ordem nos aluguéis. Se você alugava um jogo na sexta-feira, você tinha até a segunda-feira para devolver. Mas, era proibido trocar o jogo alugado nesse meio tempo. Nem consigo contar quantas vezes eu me arrependi das escolhas que fiz e fiquei louco para trocar de jogo, principalmente quando levava um game curto e zerava no mesmo dia, ou tinha a sorte de pegar um RPG todo em japonês.


Quando isso acontecia, o jeito era apelar para a esperteza (duvido que a minha mãe leia essa crônica mesmo) e voltar à locadora dizendo que o cartucho não funcionava no meu console ou que o disco estava arranhado. Com sorte, dava para conseguir uma troca e curtir o final de semana com os irmãos com um jogo realmente interessante — foi assim que consegui trocar Street Fighter: The Movie e Mortal Kombat Special Forces pelos infinitamente melhores Street Fighter Alpha 3 e Mortal Kombat Trilogy, todos do primeiro PlayStation.

Para o bem de todos

Além de todas as regras mais rígidas, a locadora também exigia educação no seu recinto. Saber se comportar em grupo, respeitar os semelhantes e saber conviver com quem era diferente de você eram características tão fortes nas locadoras que esses conceitos se desenvolveram naturalmente na minha geração. Pelo fato de pessoas de todas as idades, etnias e classes sociais frequentarem o mesmo espaço na busca por diversão, não fazia o menor sentido destratar o companheiro. E tudo isso fazia com que a locadora se tornasse o melhor lugar para estar e para fazer amigos.

Quando você frequenta um lugar divertido, com regras e onde as pessoas prezam pela educação, é comum as amizades se desenvolverem com certa facilidade. E lugar nenhum, pelo menos durante o meu tempo de criança, foi tão marcante e proveitoso para se fazer amizades quanto as locadoras. Quase todos que estavam lá tinham muito em comum, a começar pelos jogos. Isso era só a porta de entrada para as primeiras conversas, que logo se multiplicariam, dando origem às novas amizades. E, em quase 20 anos de jogatina, posso afirmar: aqueles amigos do tempo das locadoras são os que permanecem presentes comigo até hoje.

Cheias de regras e lotadas de diversão, as locadoras foram ganhando espaço na cidade. E, em tempos de tanta violência urbana com todos os seus problemas complementares, a locadora era o melhor lugar para escapar de possíveis distrações. Minha mãe, por exemplo, não curtia muito a ideia de me deixar sair de casa à noite, nem mesmo para encontrar com a turma no meu bairro. Mas, logo ela viu que podia deixar eu ir à locadora, principalmente por eu estar sob os cuidados de um adulto (e todas as suas regras) e por entender que os videogames poderiam ser uma opção interessante de diversão.

Lições para a vida toda

As regras pareciam chatas e exageradamente rígidas, mas serviam para o nosso bem. Ter um ambiente harmonioso e respeitoso fazia com que cada vez mais novos jogadores aparecessem e um número ainda maior de mães perdesse o preconceito com a locadora. Assim, os filhos se divertiam com os videogames, fazendo novas amizades que durariam mais do que as gerações de consoles, além de tirá-los das ruas, evitando outras escolhas menos saudáveis.

Levando em consideração os amigos/conhecidos que eu tinha há 15 ou 20 anos, muitos se perderam nas escolhas da vida por conta de suas “diversões” juvenis. Enquanto isso, os videogames têm trazido a mim e a muitos outros ao redor do planeta muitas felicidades e risadas. Amigos, colegas de trabalho e muitas oportunidades surgiram dessa minha paixão pelos jogos, que começou lá na locadora do Jorge, na sua própria sala de estar. Depois de ensinar aos irmãos, primos e amigos, hoje é a vez da minha esposa curtir um game comigo no fim de noite. Mas, para isso, ela vai ter que ter o cuidado de não falar palavrões e muito menos derrubar o controle. Aí é suspensão na certa.

Revisão: Érika Honda

Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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