Crônica

A origem das locadoras de videogame e os diferentes tipos por onde joguei

No centro, improvisadas em garagens, em bairros carentes. O que valia era a diversão e o respeito nas saudosas locadoras de videogame


Refúgio de meninos e meninas de todas as idades, tribos e condições econômicas, as locadoras de videogame tinham suas particularidades, seja na estrutura física, no acervo de jogos ou no próprio público. Cada uma possuía a sua própria identidade. Pelo menos, era isso o que eu sentia quando jogava e encontrava com os amigos nesses templos da diversão na minha pequena cidade.

A origem

Os primeiros relatos de algo semelhante a locadoras de videogame remontam aos arcades (fliperamas no Brasil) dos Estados Unidos na década de 1970. Depois de servirem de uma forma alternativa de renda nos comércios, os arcades foram parar em improvisadas casas de jogos em porões americanos. Essa foi provavelmente a primeira formação de um comércio que explorava o aluguel por minuto dos jogos eletrônicos.
Com o sucesso desses espaços para jogatina nos Estados Unidos e até no Japão, os arcades se disseminaram por toda parte, indo parar até em bares e rodoviárias. Mas, foi com a chegada dos consoles domésticos e dos seus jogos em cartuchos que o conceito de locadora se definiu. Até onde a literatura nos permite ir, foi a rede de locadoras de filme Blockbuster a grande responsável por colocar os jogos em seu acervo de locação, junto de filmes em VHS.

Com a alta procura por jogos em meio aos filmes, foi apenas uma questão de tempo até as primeiras lojas especializadas em locação e venda exclusiva de games ganharem as ruas americanas. O modelo foi um sucesso, aproveitando-se da crescente popularidade do mercado de jogos eletrônicos que se tornava um dos mais rentáveis da década de 1980.

No Brasil, os primeiros consoles chegaram custando caro, como ainda acontece até os dias de hoje. Contudo, naquela época, o poder aquisitivo da maioria dos brasileiros não permitia aos videogames serem tão populares como eram nos EUA e no Japão. Poucos eram aqueles que podiam possuir o seu próprio console. Mas, colocando em prática o nosso famoso jeitinho brasileiro, alguns jogadores passaram a alugar o próprio videogame para que os amigos do bairro pudessem jogar. Eles cobravam uma pequena quantia em dinheiro em troca de alguns minutos com o seu novo brinquedo.

Essas primeiras locações por minuto aconteciam nas próprias residências desses sortudos donos de Ataris no final da década de 1970. A partir daí, foi uma questão de tempo até alguém abrir um comércio para explorar os próprios videogames e transformar os clones de NES (nosso famoso Nintendinho) na nova mania dos brasileiros durante a década de 1980.

Transitando entre o improvisado e o ilegal na década de 1980 nas grandes cidades brasileiras, foi com a chegada da década de 1990 que as locadoras finalmente se disseminaram por todo o território nacional. Isso foi graças, em grande parte, a locadoras como a Dimensão Games (uma das primeiras locadoras de grande porte do país) e a redes famosas como a Progames, fundada pelo empresário Ivan Battesini, responsável pela padronização do modelo de negócio, além de servir de inspiração para tantos outros apaixonados por games montarem o seu próprio negócio em cidades menores, como os donos das locadoras em que joguei na minha cidade.

No coração da cidade

Os primeiros anos da década de 1990 marcaram a explosão das locadoras de videogame. Novas locadoras surgiam por toda parte. Cidades grandes, por exemplo, possuíam uma ou mais locadoras em cada bairro. Mas, as cidades menores não ficavam para trás. A minha pequena São José do Seridó/RN chegou a manter até quatro locadoras funcionando ao mesmo tempo.

Assim como nas cidades maiores, os empresários buscavam o melhor local para abrir as suas locadoras. Por aqui, as duas maiores se encontravam no centro da cidade, na praça por onde todas as pessoas passavam. E quando eu digo todas é porque são todas mesmo. A cidade tinha pouco mais de três mil habitantes e todas as lojas e supermercados ficavam localizadas nessa área central, próximas à Igreja.

Era impossível passar por lá e não avistar as locadoras. Elas faziam parte da vida social da comunidade, além de serem bonitas e imponentes. De longe, as várias TVs espalhadas por um grande salão faziam brilhar os olhos da garotada que passava pela praça. Ao se aproximar um pouco mais, o barulho ensurdecedor de mais de dez jogos sendo jogados ao mesmo tempo, misturado aos gritos de torcidas, carros acelerando, tiros sendo disparados e garotos conversando, chamavam a atenção até da polícia.


A estrutura externa dessas locadoras centrais seguia o padrão da maioria dos comércios da época, ou seja, uma pintura branca nas paredes, um portão de ferro, alguma placa indicando do que se tratava e muita simplicidade. O grande atrativo mesmo estava no interior do prédio. Ao entrar na locadora, o cliente se deparava com dezenas de caixas de jogos pregadas na parede, expositores de CD com centenas de discos, TVs, consoles, uma infinidade de doces e salgados e cadeiras de plástico brancas de frente para pequenos móveis que ficavam espalhados pela locadora, quase sempre com um balcão central onde ficava o dono.

Essa estrutura física era quase uma padrão para as locadoras. Tanto é que quando a revista Progames chegou às bancas no começo dos anos 90, existia uma seção nela trazendo dicas de como montar a sua própria locadora. Ela exibia imagens da organização e do layout do espaço, a forma correta de exibir os jogos e até os tipos de jogos que você deveria ter na locadora.


Nas locadoras maiores, as regras eram extremamente rígidas. Não era permitido falar palavrão, derrubar o controle, entrar sem camisa, ou mesmo entrar com a farda da Escola (possível sinal de quem estava matando aula para jogar). Aqui na minha cidade, essas locadoras centrais eram vistas como profissionais. Nem mesmo os jogos ficavam ao alcance dos clientes. Para escolher o que eu ia jogar, eu primeiro precisava ir até a parede com as caixas de Super Nintendo ou ao expositor com os discos do PlayStation, olhar as capas, e dizer ao dono da locadora o número indicado na caixa. Com isso, ele pegava o game em uma gaveta do balcão (no caso dos jogos de SNES) ou em pequena prateleira de CDs (onde estavam os jogos de PS1). O cuidado com o acervo era tão grande que os consoles eram protegidos com um pano para não pegar poeira ou ser riscado quando ninguém estava jogando.

Independentemente do tamanho, do profissionalismo, das exigências, e do preço da hora de jogo ou do aluguel dos games, qualquer pessoa era muito bem-vinda nas locadoras centrais. Justamente por estar no centro da cidade, elas formavam o principal local de encontro da garotada. Lembro que, quando algum visitante da capital ou das cidades vizinhas chegavam em São José, o primeiro lugar que ele ia procurar era a locadora. Era um espaço comum nas cidades, onde qualquer um se sentia à vontade para frequentar e se enturmar.

Nem mesmo na Escola eu ficava tão confortável quanto na locadora. Quando eu chegava lá, geralmente antes de abrir para ficar conversando com os amigos, eu era tratado sempre com muito carinho e atenção, tanto pelos outros jogadores quanto pelos donos. Eles cuidavam de mim e dos outros garotos como se fossemos filhos. Claro que existia a relação de cliente, mas a amizade era ainda maior. E era justamente isso o que me fazia ir todos os dias ao centro da cidade, jogar e conversar com os amigos na locadora.

A locadora era uma espaço tão importante para a garotada, que em plena festa do padroeiro da cidade meus amigos e eu saíamos com a família para as novenas a noite e, ao invés de brincar no parque ou dançar nas festas de forró, nós passávamos a noite inteira na locadora. Era muito engraçado ver a turma toda arrumada, com as melhores roupas que as mães compravam para a festa, mas todos jogando na locadora de sempre. Até o dono deixava de lado a sua camisa regata e os chinelos havaianas e ia para a locadora de calça jeans e camisa social. A zoação não tinha hora para acabar.

O charme do improviso 

Assim como as bodegas conviviam com os supermercados, as casas das amigas de sua mãe viravam salões de beleza, e a garagem do seu vizinho se transformava no bar que o seu pai frequentava no final de semana, as locadoras de videogame também entraram nos bairros mais carentes e nas casas de pessoas que precisavam de uma renda extra para sobreviver.

De propriedade de Marcus Vinicius Garrett Chiado, autor do livro 1983: O Ano dos Videogames no Brasil, a locadora Zeta Games funcionou de 1996 a 1999 no bairro do Cambuci em São Paulo.
Longe do centro — por mais que a cidade toda parecesse ser um único centro —, eu tive o prazer de jogar em duas dessas locadoras alternativas. A primeira, que em quase nada lembrava as modernas e bonitas locadoras do centro, ficava em uma rua bem estreita atrás da casa da minha mãe, dentro da casa de um amigo do meu tio, localizada bem ao lado de uma oficina de bicicletas e de um bar. Era tenso ir até lá, mas valia a pena.

A locadora — se é que ela podia ser chamada assim — ficava dentro da casa desse amigo do meu tio. Você chegava e gritava “VIM JOGAR!”, e torcia para que a mãe dele não estivesse em casa — ela não gostava nem um pouco da bagunça que faziam na casa dela. Então, você entrava na casa, passava pela sala e pela cozinha, até chegar na garagem, nos fundos da casa. Lá estavam dois Mega Drive e um Super Nintendo, conectados a duas TVs. Os jogos ficavam guardados em caixas de sapatos e eu não lembro de ter visto nada original. Praticamente todos os games eram 8 jogos em 1 ou versões malucas de jogos famosos.

O fato de ser improvisada não tirava a magia dessa locadora de garagem. A simples satisfação de chegar até lá, enfrentando os medos de ser perseguido por algum bêbado ou ser xingado pela mãe do rapaz, faziam desse trajeto todo uma verdadeira jornada. Na locadora em si, a diversão era a mesma. Sentar e passar algumas horas curtindo Sonic 4 (jogo do Speedy Gonzales que colocaram o Sonic no lugar do Ligeirinho), Alex Kidd e Super Mario All Star era tão divertido quanto em qualquer lugar, com a vantagem ainda de rolar uns lanches quando a mãe do dono dos videogames fazia um suco pra ele e nós estávamos lá jogando — como comi bolacha assada com leite nas tardes de sábado em que passei por lá.

Para todos

Menos alternativa, para não dizer exótica, a outra locadora em que joguei longe do centro ficava em um dos bairros mais afastados da cidade. Lembro que, naquela época, muitos garotos tinham um certo preconceito com o lugar, pois ficava na zona mais carente da cidade. Eu, como tinha bons amigos e colegas de escola que moravam na região, não me importei com a localização, mesmo que o local fosse um pouco distante da minha casa.

A locadora ficava em um bairro muito humilde, de pessoas simples, mas extremamente carinhosas e receptivas. Ela era pequena e ficava dentro de um galpão. Lá podíamos ver uns quatro ou cinco PlayStations ligados a TVs que ficavam dispostas em mesas de plástico e com tamboretes para o pessoal sentar. O lugar também contava com doces, salgados, um ventilador (que precisava dar conta de todo mundo) e uma dezena de jogos. O dono, extremamente atencioso, conversava o tempo inteiro com os clientes, perguntando sobre as atividades da escola, sobre as peladas do final de semana e sobre coisas cotidianas.

Por ser frequentada por pessoas mais humildes, o dono não exigia que a garotada jogasse de camisa ou entrasse calçado. Até porque muitos nem tinham o que vestir. O que importava mesmo era ter educação e estar com as mãos minimamente limpas para não sujar os videogames e a locadora. A hora, aliás, era bem mais barata, até por conta da realidade do bairro. Se não fosse assim, seria improvável que as famílias tivessem condições de deixar os filhos jogarem por tanto tempo. Com todas essas dificuldades, havia algo que realmente saltava aos nossos olhos: a paixão dos garotos em jogar.

Conseguir cinquenta centavos para jogar por uma hora não era uma tarefa fácil. Era preciso, geralmente, fazer algum bico ou abrir mão de um pão a mais no café da manhã. Justamente por isso a turma aproveitava intensamente cada minuto jogado. E isso era o que eu mais gostava daquele lugar. A paixão que os meus amigos de lá possuíam era tão contagiante que eu passei a gostar cada vez mais de jogar no período em que frequentei essa locadora. Sem falar que eu fazia novos amigos o tempo inteiro.

Conheci pessoas incríveis nessa locadora afastada, joguei jogos que eu sequer imaginava que existiam, disputei campeonatos inesquecíveis e ganhei várias medalhas. Sim, medalhas. Essa locadora premiava com medalhas qualquer um que terminasse algum game. Eu me sentia como um verdadeiro atleta olímpico quando recebia as medalhas por zerar um jogo. Chegava em casa todo orgulhoso, mostrando para a minha mãe mais uma conquista e pendurando o prêmio no guarda-roupa, junto das medalhas que ganhava jogando futebol. Até hoje eu as tenho.


Mesmo enfrentando todo tipo de preconceito por parte de alguns amigos, foi lá que eu aprendi sobre igualdade, respeito e humanidade. Deixar de lado as diferenças em prol de algo em comum mudou a minha cabecinha de criança de uma forma intensa e verdadeira. Azar daqueles que se entregavam aos preconceitos. Pois estes perderam momentos e pessoas incríveis.

Templo da diversão

Independentemente da estrutura física, da organização do layout, dos clientes que as frequentavam, do acervo de jogos e da localização na cidade, as locadoras foram um lugar agradável, seguro e divertido para qualquer um nas décadas de 1990 e 2000. Cada uma possuia suas peculiaridades, claro, mas a essência permanecia inalterada em qualquer lugarzinho que alguém tenha colocado um videogame para jogar.

As diferenças desapareciam e a diversão em torno de uma paixão em comum unia toda uma geração apaixonada por videogames e por tudo o que rodeia esse mundo mágico; Prova disso são os momentos inesquecíveis, as amizades verdadeiras e o aprendizado que carregamos conosco por termos vivenciado intensamente a febre das locadoras de videogame em nossos centros, em bairros simples e nas garagens improvisadas.

Revisão: Érika Honda
Capa: Sabat Santos
Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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