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Análise: This Is The Police (Multi) é repleto de estratégia e difíceis decisões

Jogo indie bielorusso destaca-se pela trama pesada e escolhas de vida ou morte na polícia.

Primeiro game da produtora indie Weappy, da Bielorrússia, This Is The Police (Multi) é um jogo de estratégia que se passa no ano de 1985 na cidade de Freeburg. Você comanda o Chefe de Polícia Jack Boyd, um policial veterano que acaba de completar 60 anos e espera pela sonhada aposentadoria. O objetivo de Boyd é terminar seus últimos 180 dias de trabalho com uma bolada de meio milhão de dólares para poder aproveitar sua aposentadoria com a esposa Laura, contudo, nem tudo sai como o planejado.

Corrupção, política e decadência

This Is The Police explora o submundo da polícia ao abordar corrupção, crimes e interesses em conflito. O game possui uma história complexa, intrincada e bem elaborada que exige toda sua atenção nos momentos de cutscenes. O jogo é narrado pelo protagonista Jack Boyd de maneira cínica e irônica, que revela seus pontos de vista da cidade rumando ao esgoto de assassinatos, troca de favores e dinheiro ilícito. Mas nem por isto Boyd julga-se inocente, ele demonstra várias vezes seu desgosto por aquele estilo de vida, omisso aos atos proibidos de seus companheiros, mas de mãos atadas pela corrupção que impera na cidade.

Além do fardo do trabalho, Boyd ainda precisa lidar com seus próprios problemas familiares e com a personalidade de cada policial dos esquadrões sob seu comando. Sua esposa Laura o traiu e saiu de casa para fugir com um homem mais jovem e na polícia ele precisa gerenciar os interesses e necessidades de todos os lados. Há a máfia lhe ameaçando, um amigo que lhe pede ajuda, gangues aterrorizando cidadãos, criminosos ficando famosos por suas astúcias, a prefeitura lhe ordenando missões, cidadãos que atacam a delegacia, movimentos sociais pedindo direitos, grupos extremistas de racistas ou terroristas fazendo ataques violentos, entre outros. A variedade de ocorrências policiais e problemas é grande e cada uma exige uma decisão de Boyd.


Os 180 dias para sair do corpo policial são o número de dias que você possui para conseguir o meio milhão de dólares e chegar à aposentadoria. O jogador comanda esta centena de dias enfrentando diversas ocorrências na cidade de Freeburg almejando conseguir este dinheiro. Contudo, o jogo permite que você chegue ao fim com finais diferentes. Isto cabe a suas escolhas durante a história.

Visual e clima noir dos anos 40

Apesar de This Is The Police se passar em 1985 é impossível não sentir o clima noir da narrativa. A arte do game é composta por desenhos em polígonos coloridos. As cutscenes são feitas de imagens 2D enquadradas no estilo de uma página de história em quadrinhos (diversos quadros), sofrendo pequenas oscilações de movimentos numa animação simples unida à narração dos personagens. Quando o jogo passa ao cenário onde ocorrem as ações estratégicas, deparamo-nos com um mapa em 3D de Freeburg junto com imagens em 2D dos oficiais do esquadrão escolhido. Ainda, o cenário isolado das ocorrências com as ações criminosas em andamento surge numa janela à parte quando se clica sobre a ocorrência escolhida para atender ao chamado policial.


A narração do game é um espetáculo à parte, o elenco é muito competente nos diálogos e demonstram todo o mistério, o suspense e a melancolia de suas emoções, em especial o dublador norte-americano Jon St. John, que faz a voz do protagonista Jack Boyd. A sensação é de estar assistindo a um filme noir dos anos 1940 em preto e branco, mesmo com toda a cor da arte minimalista do jogo.

A trilha sonora de This Is The Police também se destaca por uma característica peculiar: ela é opcional. Durante as custcenes só ouvimos os diálogos e o som ambiente dos locais onde se desenrolam as ações. Contudo, antes de passarmos para o mapa estratégico, podemos escolher um disco para tocar na vitrola cujas opções variam entre blues, jazz e música clássica. Mais noir do que isso, impossível, não é?


Decisões: entre o certo e o errado

A mecânica de jogo não varia muito e pode tornar-se cansativa e repetitiva para jogadores desacostumados com o gênero, mas é certeira em seu propósito. Depois de transcorridos cerca de 30 dias do trabalho de Boyd já sentimos o peso da repetição da mecânica, que fica entre ações estratégicas, cutscenes, momentos de escolha e raros acontecimentos à parte (devido o caminho que você optar), o que torna a experiência cansativa para os menos acostumados, contudo, agrada os conhecedores do gênero numa experiência que foca numa trama intrincada e mantém o ritmo do gameplay monótono, tal qual uma narrativa noir. Você pode responder a perguntas sobre a atual situação da prefeitura numa coletiva de imprensa, escolher alternativas estratégicas para evitar um crime ou decidir até mesmo o que responder numa sessão terapêutica em um teste psicológico da polícia.

As escolhas em This Is The Police são extremamente complexas, porque todas desencadeiam consequências, para o bem ou para o mal. Este é o ponto que mais me fascinou: os dilemas que o jogo lhe coloca. Você precisa encontrar o equilíbrio para conseguir sua aposentadoria ao mesmo tempo que precisa cuidar de situações além de seu alcance, mas que lhe exigem uma decisão. O sentimento que o jogo lhe passa é de que não há para onde fugir, toda vez que você tomar uma decisão, irá alegrar alguém, mas irá irritar outra pessoa. Cabe a você escolher quem ter como aliado ou inimigo.


As alianças em This Is The Police são muito importantes, pois elas determinarão o sucesso ou fracasso de seu trabalho. Por exemplo, se você não acatar as ordens do prefeito de demitir oficiais para colocar outros que tenham interesse político, as chances da prefeitura conceder seus pedidos (mais policiais e detetives ou melhoramento da equipe da SWAT) são quase nulas, pois como você não os ajudou, eles não lhe ajudarão. O esquema de uma mão lava a outra rola solto no game, e você precisa fazer concessões se quiser ter sucesso em sua jornada.

As decisões variam entre escolhas de que caminho tomar, como ajudar a máfia ou não ajudá-la a decisões a serem tomadas durante a ação estratégica do jogo, onde surgem muitas situações de ocorrência policial e você precisa tomar uma série de atitudes para evitar um suicídio, acabar com um tiroteio, prender um assassino, impedir a detonação de uma bomba, aceitar ou rejeitar pedidos de lojistas por policiais extras ou mesmo checar falsas ocorrências.


Uma bela estreia da Weappy

This Is The Police cumpre seu papel como jogo de estratégia e é um belo ponto de partida para a produtora indie Weappy. Uma narrativa inteligente unida a uma jogabilidade simples que agrada aos fãs do gênero. Se você curte boas histórias, dilemas, vários finais e decisões difíceis num clima noir, este é o game que você estava procurando.

Prós

  • História inteligente;
  • Escolhas complexas;
  • Vários finais;
  • Ótimo elenco de dublagem;
  • Arte minimalista com toque noir;
  • Trilha sonora bem ambientada.

Contras

  • Repetitivo.

This Is The Police — PC / PS4 / XBO / iOS / Android — Nota: 9.0
Versão usada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no DeviantArt., MGC. ou Twitter. ela aparece.

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