Crônica

O vendedor de jogos e o meu primeiro trabalho na locadora

Loucas e divertidas aventuras de um garoto trabalhando com sua maior paixão, as locadoras de videogame.


Se até hoje a espera por um novo game daquela nossa franquia favorita é motivo de muita ansiedade e expectativa, mesmo com imagens e vídeos saindo o tempo todo, imagine só como era na época em que esperávamos meses por uma nova imagem em alguma revista que já chegava atrasada? Justamente por essa quase completa falta de informações, é que a garotada enlouquecia quando os saudosos vendedores ambulantes de jogos chegavam nas locadoras de videogame ao final de cada mês com sacolas e bolsas repletas de games, consoles, acessórios e revistas.

Mistérios de locadora

Eu sempre me perguntava, quando criança, como os jogos chegavam até a locadora, já que a maioria era produzida na China, nos Estados Unidos, e uns poucos no Brasil. Como é que esses jogos, vindo de tão longe, chegavam aqui no interior do Rio Grande do Norte? Era difícil compreender, principalmente se pensarmos que os donos de locadora nunca saiam do seu estabelecimento. Eles estavam lá todos os dias, abriam pela manhã logo cedo e fechavam bem tarde da noite.

Inquieto com essa dúvida, eu me perguntava sobre isso o tempo todo. Até que certa vez em uma das locadoras da cidade, a maior e com mais games disponíveis, o dono me confessou que ele conseguia boa parte dos jogos nas viagens que ele fazia ao Paraguai por preços baixíssimos. Era tão barato, que ele trazia para revender aos donos das outras locadoras. Mas e os outros comerciantes? Como eles conseguiam?


Fui crescendo e, consequentemente, entendendo melhor o funcionamento daquele comércio de jogos — confesso que até hoje tenho dificuldades para associar as locadoras a um comércio. Então, eu observava as empresas de distribuição entregando os picolés em grandes caminhões, os vendedores chegando com lotes de pipoca e o dono do supermercado entregando os doces. Mas, e quanto aos jogos?

Mente fértil

O mistério, enfim, seria revelado em um domingo de manhã, logo após ajudar a minha mãe a fazer a feira de verduras, bem cedinho — no interior, antigamente costumava-se comprar verduras no final de semana, quando os produtores rurais vinham até a cidade para vender a sua produção. Era tão cedo, que a locadora ainda estava fechada. Mas, como faltavam pouco mais de 30 minutos para abrir, pedi à minha mãe para que eu ficasse na praça comendo pastel e tomando caldo de cana enquanto esperava o dono da locadora chegar.

Para a minha total surpresa, um senhor bem magro, desajeitado e com roupas desgastadas aproximava-se da locadora. E ele não era o dono, por mais que essa descrição também possa ser usada para descrevê-lo muito bem. Ele mais se parecia com o Seu Madruga em um episódio do Chaves onde ele aparece com uma sacola vendendo coisas usadas. Até me afastei com um pouco de medo, pensando se tratar de algum daqueles malucos das histórias que nossas mães nos contam quando aprontamos, como o velho do saco que rapta criancinhas.


Fiquei meio temeroso, principalmente quando passei a associar o sujeito às malditas histórias que minha mãe teimava em recontar após cada bagunça que eu fazia. Mas, para o meu espanto, o senhor bateu justamente no portão da locadora fechada. E, para completar o mistério, o malandro foi recepcionado pelo dono da locadora que, numa velocidade só, levantou o portão para que o sósia de Madruga entrasse.

Nesse meio tempo, esqueci meus medos, deixei de lado os preconceitos e me entreguei à curiosidade e à completa vontade de jogar antes de todos os outros garotos e fui correndo para junto dos dois na esperança de que a locadora já estivesse abrindo. Mal cruzei a rua com o meu pastel quente e o dono já foi avisando: “Não vou abrir ainda, Ítalo, mas espere aqui dentro para que ninguém saiba que eu já cheguei.” Fui tomado pelo entusiasmo. Eu estava entrando na locadora antes mesmo de ela abrir. Aquela era uma oportunidade raríssima para qualquer jogador da época. Já estava até planejando o discurso para tirar onda com a galera depois.

O privilegiado 

Eu estava tão eufórico que só fui me dar conta de que aquele senhor que eu nunca tinha visto poderia ser perigoso quando entrei. Aí o medo chegou. Mas, bastou o velho abrir as sacolas e bolsas que ele carregava para eu esquecer de todas as cenas que a minha mente criava involuntariamente, como o sujeito me levando dentro daquelas sacolas. Ali, bem na minha frente, estavam dezenas, talvez até centenas, de jogos dos mais variados tipos, gêneros e consoles. Era um sonho. Não conseguia acreditar que existia alguém assim, vendendo jogos de cidade em cidade.

Observando o meu nada discreto entusiasmo, o dono da locadora me convidou para ajudá-lo naquela difícil missão de selecionar os novos jogos da locadora — naquele momento, uma lágrima marota escorregou levemente pelo cantinho do olho. Era demais para um dia só. Fui todo feliz em direção àquela avalanche de jogos. Eu mais parecia o Tio Patinhas nadando em sua fortuna. Não sabia nem por onde começar.


Como eu costumava ler muitas revistas de games e sempre aparecia na locadora depois da escola para conversar sobre jogos, o dono da locadora resolveu testar os meus conhecimentos fazendo um desafio: “Quero ver se você entende mesmo de videogame, Ítalo. Escolha aí uns jogos de PS1 que você acha que a galera vai curtir. Se eles fizerem sucesso, você fica me ajudando sempre.”, disse o dono da locadora.

Nossa, eu não conseguia conter toda a minha emoção. Imediatamente topei o desafio e já fui pegando as revistas que existiam na locadora, além das novas que o vendedor trazia (o cidadão possuía uma mochila cheia de exemplares da Gamers, Super GamePower, Nintendo World e Ação Games). Eu folheava atentamente a fim de encontrar referências de bons jogos. Passava o olho nas notas, observava as imagens, e me recordava de outros títulos que já havia jogado. Eu tinha que ser rápido e não teria muito tempo para testar os jogos, pois o vendedor precisava seguir o seu rumo em direção às outras locadoras. Mas, eu tinha que ser eficiente e certeiro.

A missão 

Em alguns minutos, eu tinha montado uma pequena lista de jogos. Separei Castlevania: Symphony of the Night, Mega Man X4, Vigilante 8, Tony Hawk's Pro Skater, Tekken 3 e Crash Bandicoot, todos para o PlayStation, e Bomber Man 4 para o Super Nintendo. Escolhi alguns títulos por já conhecer as séries e os demais por receberem ótimos comentários nas revistas. Os jogos estavam escolhidos, só restava agora esperar ansioso para saber se a galera iria gostar. Mas, não antes de bater um último papo com aquele vendedor de sonhos, digo, jogos.

Educadamente — e sonhando com um brinde —, ajudei o vendedor a arrumar as coisas enquanto o dono da locadora chorava por uns descontos. Guardei cada jogo no seu devido lugar, empilhei as revistas por data de lançamento, e ainda dei uma limpada na caixa de sapatos que ele usava pra guardar os cartuchos de Super Nintendo. Deixei tudo brilhando. E, como não poderia ser diferente, fiquei lá com aquela feição de menino ruim e pidão, quase implorando por algo. Sem resistir ao meu olhar, o vendedor, antes de sair, agradeceu pela ajuda e me presenteou com uma revista Gamers, a número 36, com o Link na capa. Guardo essa revista até hoje, quase como um troféu.



Feliz com uma revista nova e por ter conhecido um vendedor de jogos e ter entrado na locadora antes do tempo, além de ter ajudado na escolha de títulos novos para o lugar, eu estava tão empolgado que a última coisa que eu queria naquele instante era jogar. Eu só queria ficar ali, curtindo a emoção e contando para todo mundo o que tinha acabado de acontecer. Mas, foi então que o dono veio até mim e disse: “Pelo seu trabalho, você pode jogar até chegar alguém para esse PlayStation”. Não conseguia acreditar. Eu jogaria de graça por ter ajudado alguém a escolher jogos. Me belisquei inteiro pensando estar sonhando. Para a minha sorte, eu não estava mesmo.

Vivendo um sonho

Joguei, li, dei risadas, pulei e talvez até tenha chorado. Foi uma experiência incrível. Mas, passada a euforia, eu comecei a ficar tenso pela expectativa da reação dos outros jogadores em relação aos jogos que escolhi.

Nem demorou tanto para o pessoal começar a testar. Os novos jogos sempre ficavam em cima do balcão central, à vista de todos. E logo os primeiros jogadores chegavam para testar as novidades. E, como vocês bem perceberam, eu tive a sorte de escolher grandes clássicos do PlayStation. Era quase impossível alguém não gostar deles. Todo mundo pirou com as destruições de Vigilante 8, com as manobras de Tony Hawk's Pro Skater, com as lutas de Tekken 3 e com as aventuras de Castlevania: Symphony of the Night, Mega Man X4 e Crash Bandicoot. Sem falar no Super Nintendo, que não parou mais desde que Bomber Man 4 chegara.


Um sucesso total das minhas escolhas. Com isso, o dono da locadora me convidou para ser o seu auxiliar de seleção de jogos (queria ter isso escrito na minha carteira de trabalho). Era a coisa mais legal do mundo. A cada 15 dias, lá estava eu chegando mais cedo na locadora para escolher novos jogos para o pessoal, ler revistas, conversar sobre videogames e até ficar por dentro do que estava acontecendo no mercado de videogames em outros centros do país, já que o vendedor ia até São Paulo para buscar games e aproveitava para vender em outros Estados no caminho.

Eu passava horas ouvindo histórias de outras locadoras, de jogadores conhecidos por feitos irrepetíveis, de jogos obscuros, etc. Se pudesse, eu passaria o resto da minha vida viajando com aquele vendedor, só pra conhecer novos jogadores e novas locadoras. E saber que ele ainda recebia dinheiro pra fazer aquilo. Como eu sonhei em fazer o mesmo. Lembro até de pedir a minha mãe para me deixar viajar fazendo o mesmo. Já tinha até arrumado umas sacolas pra vender os jogos da locadora em outras cidades. Infelizmente, o que ganhei foi uma baita bronca. Mas, eu encontraria outras maneiras de tornar o meu serviço de auxiliar em algo rentável.

O estrelismo

Com o tempo, fui ganhando uns trocados, horas extras e picolés. Quase sempre eu escolhia bons jogos para a galera. Eu levava tudo tão a sério, que tentava sempre convencer quem chegava a jogar o novo jogo. E quando alguém não sabia o que fazer ou como jogar, lá estava eu, no meu tempinho livre, tentando ajudar, tirando dúvidas e até jogando junto.

Tudo seguia perfeitamente bem. Ganhava um dinheirinho — pouco, mas ganhava —, ajudava a locadora a crescer, levava, de certa forma, diversão para os meus amigos, conhecia gente nova. Eu realmente estava me sentindo importante. Mas, foi aí que a coisa começou a desandar.


No auge da minha glória gamística, passei a escolher para a locadora apenas os jogos que eu curtia, e não mais aqueles que os outros gostariam de jogar. Por exemplo: o público da locadora é formado por uma diversidade enorme de jogadores que gostam de jogos de esporte, corrida, minigames e musicais, enquanto eu só estava escolhendo RPGs, sequências das minhas séries favoritas, jogos obscuros e outros títulos que serviam apenas para meia dúzia de jogadores. Nesse meio tempo, a locadora concorrente, no fervor da Guerra de Locadoras, apostava justamente nos títulos que eu não queria jogar, pois “todo mundo jogava”. Eu queria ser o diferente, o único. E deixei o “sucesso” subir para a cabeça.

Com novos jogos pouco atraentes, a locadora passou a perder espaço na corrida por novos clientes. E era preciso fazer alguma coisa. Mas, não seria eu o responsável por essa mudança, já que os meus dias de glória chegariam ao fim em breve. Pois é, o fim desse período de fartura se aproximou quando barrei aquele que seria um dos maiores sucessos das locadoras de videogame da cidade por anos.

Erro fatal

Aconteceu numa mesma manhã de domingo, quando o vendedor de jogos chegou com uma novidade. Segundo ele, era a nova febre das locadoras no Brasil. Garotos em todos os cantos do país estavam jogando. Não só jogando, mas se viciando como nenhum outro jogo foi capaz de fazer. Bom, era uma avalanche de elogios. O dono puxou a carteira na mesma hora. Queria comprar, independente do preço. Eu, pensando ser o dono do lugar, pedi, com aquele ar de superioridade recorrente de quem pensa saber das coisas, para testar o jogo e ver se ele era tudo isso mesmo.

Liguei o PlayStation e logo uma música tranquila ecoou, seguida de uma tela com um cachorro, um cavalo e um garoto, todos num lindo campo esverdeado. Nada daquilo me empolgou, mas eu precisava jogar. E joguei. E joguei muito. Mas, aquele jogo não fazia o menor sentido para mim. Durante todo o tempo, simplesmente repeti as mesmas ações, em um ciclo de quase sem fim.


O jogo em questão era Harvest Moon Back To Nature, um simulador de fazenda. Nada daquele jogo me agradou, pois repetir as obrigações de fazenda não era o tipo de atividade que eu queria em um jogo. Na verdade, eu só queria saber de ação. Nem pensei em como toda aquela simulação poderia ser atraente para outros jogadores que precisariam de dezenas de horas de jogo para completarem suas missões. Não deu outra. Bati o pé contra o jogo. Como eu tinha um bom histórico de escolhas, e costuma ser bom em convencer as pessoas sobre algo, desde que fosse sobre videogames, o dono não comprou. Mas me deixou o aviso: se esse jogo fizer sucesso no concorrente, você está perdido.

Nem me preocupei, pois tinha certeza que ninguém pagaria para simular atividades numa fazenda. Total engano meu. No dia seguinte, a locadora estava vazia. Todos os garotos estavam na locadora da frente, jogando e assistindo horas e mais horas de “Fazendinha” — era assim que chamávamos o jogo por aqui. Foi uma reação quase instantânea ao jogo. Em questão de dias, todos já jogavam o game. E, como demorava 15 dias para o vendedor de jogos voltar, a locadora perdia um cliente atrás do outro, todos querendo a maldita fazendinha. Nem preciso dizer que os meus serviços de consultoria foram dispensados imediatamente, não é?

Fim da linha?

Perdia o meu “emprego” dos sonhos, precisaria trocar de locadora, e eu não poderia mais me vangloriar por fazer o que todos os garotos mais queriam, que era estar dentro da locadora, ganhando dinheiro e ajudando o dono. Eu havia deixado o status adquirido tomar conta de mim. Mas, os efeitos disso tudo foram benéficos com o tempo.

Mesmo ficando muito triste e desapontado com a forma ruim que conduzi o meu trabalho, deixando a individualidade tomar as rédeas das minhas escolhas, aprendi a importante lição de sempre manter a humildade e respeitar o interesse dos outros. Pensei somente em mim mesmo quando deveria ter pensado em todos. Falhei, mas aprendi. Quando consegui entender, mesmo muito jovem, o que eu realmente havia feito, fui pedir desculpas para o dono da locadora.


Para minha surpresa, eu fui muito bem acolhido de volta, como era típico daquele ambiente familiar da locadora. Conversando com jeito, o dono me ensinou que nem sempre o que é bom pra um pode ser bom para o outro, e que as pessoas pensam diferente e possuem gostos e vontades completamente distintas. Custei um pouco a entender, mas logo absorvi os ensinamentos daquela situação. A felicidade do garoto jogando Harvest Moon era igual à minha jogando Super Mario World. O importante era a diversão.

Difícil mesmo foi compreender que a minha opinião, que eu acreditava ser especializada, não poderia ser tida como cegamente verdadeira. Eu lia as revistas todos os dias, estudava os jogos, comparava gráficos, trilha sonora e jogabilidade. A combinação de tudo isso tinha que ser o fator mais importante para a escolha dos jogos e para a definição do que era bom de verdade. Assim era como eu pensava. Mas, claro, eu estava completamente enganado.

Ensinamento de mestre

Tem um algo a mais nos jogos, e isso qualquer um que já tenha segurado um controle alguma vez na vida sabe, e também sabe que é algo inexplicável. Para um jogo ser bom ou divertido, ele só precisa tocar o jogador, seja quais forem as qualidades ou características. Seja uma música, um visual único ou marcante, ou um personagem que esteja associado a alguma lembrança feliz. Esse algo a mais é a magia dos videogames, e isso não precisava ser justificado. Apenas sentido. E foi isso que aprendi depois de toda essa experiência.

Mais humilde, menos técnico e muito mais apaixonado por aquele universo fantástico, eu fui novamente convidado para trabalhar na locadora, dessa vez como ajudante das tarefas diárias, como cuidar da própria locadora, colocar os jogos, contabilizar os tempos de entrada e saída e ensinar aos novos jogadores, além, é claro, de auxiliar nas escolhas dos novos games. Tudo apenas com a condição de ser sempre honesto, respeitoso e humilde.


Com muita alegria, assumi de vez o meu primeiro trabalho, escolhendo jogos que divertiriam toda uma geração de jogadores/amigos. Foram anos de muita diversão, jogatinas, responsabilidades e aprendizado. Por mais que eu tenha deixado cada centavo ganho na própria locadora — gastava tudo com doces, salgados e horas de jogo —, foi uma época maravilhosa, que tanto contribuiu para a minha formação como jogador e principalmente como pessoa. Aprendi sobre trabalho, responsabilidade, respeito, humanidade e igualdade. Essa é a marca que as locadoras deixaram em mim.

Revisão: Érika Honda 

Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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