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Análise: Deus Ex: Mankind Divided (Multi) é contido, sólido e interessante

O sucessor de Human Revolution traz liberdade de ação, sistemas e mecânicas sólidas ao lado de uma atmosfera impactante para falar sobre opressão e medo.

Imersão geralmente é um termo meio confuso quando vamos falar de jogos. O primeiro problema é que ele se tornou um daqueles adjetivos que a gente costuma usar de muleta ou, para colocar em um português mais direto, encher linguiça sem exatamente definir sobre o que estamos falando e como o game em questão se faz imersivo. O segundo problema é que é difícil definir exatamente o que na experiência faz com que um contexto e uma realidade presente na obra seja familiar ao jogador, no sentido de que este realmente está ligado em um nível mais profundo. Isso tudo é para dizer que eu também não sei colocar muito bem uma definição do termo, mas que Deus Ex: Mankind Divided é uma dessas experiências, e falando dele eu talvez consiga me aproximar de um entendimento maior disso.


Mankind Divided não é apenas uma continuação direta de Deus Ex: Human Revolution, como dialoga constantemente com o título que o precedeu. Os acontecimentos do jogo estão diretamente ligados ao final de Human Revolution em tal grau que tudo que você vai vivenciar aqui é consequência direta dele. Ao longo de HR, uma teia bem grande de conspirações e interesses leva a um incidente que faz com que as pessoas conhecidas como “aprimorados” entrem em um transe e sejam agressivos com os não aprimorados. Mankind Divided começa dois anos após o incidente, em um mundo no qual preconceito, desigualdade e medo fazem parte do cotidiano das pessoas.

Tematicamente o jogo é interessante, até pelo fato de que dialoga diretamente com uma série de problemas da nossa sociedade real. Mas para além disso, a teia bem grande de conspirações e interesses continua, trazendo um bom número de situações, pessoas e facções diretamente envolvidos no conflito entre “aprimorados” e “naturais”.  Para ser mais claro, o contexto e atmosfera do enredo de Mankind Divided são muito bem construídos no começo, e mais ainda ao longo da experiência.

Ao lado disso caminha que o jogador vai investigar e conhecer o mundo ao seu próprio ritmo e interesse, já que ele pode fazer o mínimo de missões possíveis, e o mínimo possível da missão, ou vasculhar tudo, o que acaba gerando situações bacanas tanto mecânica quanto narrativamente. Para se ter uma ideia, há uma missão em um determinado momento que se passa em um grande complexo, um antigo centro de operações de uma empresa.  O jogo te dá o claro objetivo de escapar dali, e você pode muito bem fazer isso o mais rápido que puder, ou vasculhar o lugar. A segunda opção vai fazer você encontrar itens, segredos e, sobretudo, conhecer melhor o que está por trás do local.


Mankind Divided é um jogo que serve muito disso: você vai escolher em que ritmo, e como, quer realizar um objetivo final. Existem missões paralelas e muita exploração entre um objetivo da história e outro, mas só se o jogador desejar entrar em contato. Aliás, tanto o “mundo aberto” da cidade, quanto o número de missões, é bem contido, e isso é muito bom para a experiência que o game constrói. Isso se dá porque tudo dialoga diretamente com o contexto do mundo e o enredo da missão da principal, não existe nada na exploração ou nas missões paralelas que não tenha conexão com o que há de central na narrativa. Saem os milhares de pontos no mapa e missões genéricas, e entra uma relação muito mais direta com a cidade e com aquele mundo.

A forma como você encontra uma dessas missões secundárias já é bem diferente. Dificilmente existe algum ponto de interesse no mapa para as começar, mas sim pistas no cenário para chamar a atenção do jogador. No início do jogo, depois da área “tutorial”, o Adam Jensen acorda na sua casa, e tudo está tranquilo. Você pode dar um rolê pelo prédio dele, e se acostumar com o lugar. Em um outro momento, você passa por um beco cheio de fitas policiais, alguém foi morto ao lado do seu apartamento.


Pela dica visual no cenário, que até é bem óbvia, o jogador acaba se interessando em ir ver o que aconteceu, o que gera uma das missões paralelas mais bacanas do jogo. Oras, até antes de chegar no meu prédio, eu já havia lido no jornal que uma jornalista aprimorada havia sido assassinada em Praga.

Esse é um exemplo, e também é possível que o jogador nem encontre alguma dessas missões. Em uma das áreas do jogo externas à Praga, eu encontrei uma cena chocante em uma casa, tentei investigar ali os acontecimentos, e deu para montar uma narrativa interessante. Continuo me perguntando se existia alguma missão que ia me fazer passar por ali, ou quem sabe uma forma diferente de realizar a missão principal que eu estava realizando no momento.

Você tem bastante liberdade para brincar com o espaço, principalmente nos dois distritos de Praga. Novamente, alguma missão principal ou secundário pode te levar a um local, mas mesmo antes disso é possível que você vá lá, interaja com os itens, computadores e cofres. É claro que a facilidade em alcançar lugares estará diretamente ligada às melhorias que o seu personagem possui no momento.


Praga traz um espaço bem contido, diferente das experiências de sandbox em cidades que estamos acostumados. Rechear um espaço com missões repetitivas e sem alma, inúmeros pontos de interrogação e cenários que não necessariamente trazem nada de novo para nenhuma situação, são predicados que eu, pessoalmente, não gosto em experiências abertas. Felizmente, Deus Ex: Mankind Divided vai pelo caminho de trazer missões e personagens interessantes em um espaço menor, mas que também é desenvolvido ao longo do jogo, inclusive do ponto de vista narrativo.

A capital da República Tcheca, no contexto do game, foi um espaço no qual o governo apoiou várias iniciativas de comércio e empreendedorismo, inclusive sendo bastante à favor da utilização de pessoas aprimoradas para movimentar a economia. Como consequência disso, boa parte da população aprimorada da Europa está na cidade, o que fez com que o incidente de 2027, retratado em Human Revolution, deixasse sequelas muito fortes no lugar. Praga vive, nas palavras do próprio jogo, um “apartheid mecânico”.
O espaço reservado aos aprimorados é sempre mais vigiado e violento.
Em Mankind Divided, a cidade vai respondendo ao desenvolvimento do enredo, lidando cada vez de forma mais dura e opressiva com os “primorados”. E Adam Jensen é um deles, o que faz com que cada momento novo traga mais obstáculos, e possibilidades, para ele se mover pela capital. A cidade responde mecanicamente e narrativamente ao que o jogo está desenvolvendo, e isso faz com que todo o contexto apresentado ganhe uma importância e se conecte com o jogador.

Mas a cidade sozinha não faria isso, e o design de missões do jogo também caminha nesse sentido. Através dos objetivos, principais ou secundários, você vai entrando em contato com as diferentes facções e grupos que compõem aquele mundo. A relação com os personagens é outro ponto interessante, já que eles respondem e reagem às opções que você faz como Jensen. Tendo ou não mudanças grandes nas missões (e existe um bom punhado de caminhos diferentes nos cenários e no enredo) é sempre interessante conversar com os outros habitantes desse mundo. Ainda mais quando todos estão sempre tão conectados com a própria trama que guia o enredo do jogo.


Tem uma hora, por exemplo, que um NPC te fala que não tem raiva do “aprimorado” que o atacou no incidente de 2027, e te explica que se tratava de um pai de família que resolveu modificar seu corpo para ter mais chance de encontrar um emprego que exigia força física. Isso é só um pequeno trecho de conversa que nem importa tanto, mas que vai ajudando a criar a atmosfera, e ao mesmo tempo é algo bastante crível para gente. É algo que aconteceria em nosso mundo, é algo que já acontece de outras formas.

Seja em conversas, em mensagens, computadores, diários, jornais ou livros, existe uma atenção muito grande em fazer com que o mundo de Deus Ex: Mankind Divided seja absolutamente relacionável para o jogador, ainda que isso seja assustador.

Mas, sobretudo, Mankind Divided é sobre como sistemas, mecânicas e cenários vão te propiciar o teu desenvolvimento no jogo. Cada missão, cada lugar que você pode visitar, pode ser abordado de diferentes formas. Por exemplo, logo no começo existe essa área:

Você pode hackear a porta, o que é mais fácil se você tiver os aprimoramentos relacionados a isso, mas se não tiver é possível usar um item. Também é possível pular, se você tiver a melhoria do pulo alto nas pernas de Adam, ou até mesmo chegar a um apartamento ao lado e descer pelo encanamento. Também seria possível chegar atirando na cara do capanga na porta do outro lado da área. As diversas formas de se passear pelos lugares e missões dialogam diretamente com as habilidades e itens que seu personagem estiver carregando.


É claro que mais para frente no jogo você tem um controle de um número maior de habilidades e de itens, mas aí ficam as opções abertas para você encarar o problema do momento de uma maneira ou de outra. Há, geralmente, um caminho que parece mais “certo”, e que acaba sendo mais fácil para passar de maneira furtiva. O jogo não é exatamente difícil, e tem habilidades que facilitam bastante a locomoção, mas o desenho e os desafios dos cenários conseguem te deixar interessado e trazer desafio, ao mesmo tempo em que fazem bastante sentido mediante os recursos que o jogador possui (habilidades e equipamentos).
Os aprimoramentos disponíveis em Mankind Divided.
Mas a impressão que eu fiquei é que o game traz boas seções de furtividade, ao passo que a opção por combate direto gera uma jogatina que não agrada tanto. Os caminhos que existem estão lá justamente para que se exerça um estilo stealth, já que chegar para confrontar em uma batalha direta não é tão recompensador.

Outro sistema interessante do jogo aparece em alguns diálogos chaves ao longo das missões. É possível analisar o comportamento do interlocutor para tentar antever a melhor resposta. Você pode, ou não, ter um aprimoramento para esses momentos, mas as conversas se desenvolvem sempre de uma forma que prende, principalmente porque existe reação e consequências para cada escolha. O ponto ruim da coisa toda é que alguns dos personagens nunca se desenvolvem muito além do que está aparente no começo, talvez pelo fato de que o próprio jogo parece acabar no encaminhamento para o clímax, deixando uma série de questões mal resolvidas (que talvez sejam melhor desenvolvidas em uma continuação ou DLCs).

Sistemas e mecânicas que dão agência ao jogador ao longo dos cenários e da narrativa, uma cidade e personagens que respondem ao que está acontecendo, um mundo construído para ser encarado de diferentes formas, com diferentes situações durante que se dão a partir de como o jogador passa pelos locais, e um mundo construído a todo momento na sua frente, mas que possui segredos e um senso de profundidade bacana. Deus Ex: Mankind Divided talvez seja um dos grandes jogos recentes que nos faz senão compreender, mas pelo menos sentir, o que é uma jornada imersiva.

Prós

  • Sistemas e mecânicas que dão agência ao jogador ao longo dos cenários e da narrativa;
  • Cidade e personagens que respondem aos acontecimentos e escolhas do jogador;
  • Bom design de missões e dos cenários;
  • Atmosfera e enredo relacionáveis;
  • Interessante discussão sobre preconceito e opressão;

Contras

  • O jogo se encerra em um momento de clímax no enredo;
  • A opção por jogar de forma agressiva e letal não brilha como o caminho furtivo.
Deus Ex: Mankind Divided — PS4/XBO/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para a análise: PS4
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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