Blast Test

We Happy Few (PC/Xbox One) é uma distopia em sua melhor (pior) forma

Seja bem-vindo a um mundo bizarro e que, estranhamente, parece feliz.


Quando a empresa de games independente, Compulsion Games, divulgou o trailer de seu novo título, We Happy Few, durante a E3 2016, muitos ficaram impressionados e também curiosos com a experiência que o game iria oferecer. Com uma versão Beta em mãos, chegou a hora de descobrir se aquelas expressõessorridentes que os policiais ostentavam no vídeo realmente são tão assustadoras e bizarras quanto parecem. Histórias de distopias (sociedades que pensam ser utopias e em que você até gostaria de vier, mas que flertam constantemente com o desastre) não são novidade no mundo digitial. Porém, We Happy Few surpreende em sua proposta.

Já tomou sua alegria hoje?

We Happy Few (em tradução literal do inglês “Nós, os poucos felizes”) já entrega um pouco de sua ideia a partir do título. Na verdade, assim que você entra no universo do game, percebe que algo está errado quando olha para aqueles rostos com máscaras sorridentes distorcidas. É como se pudesse visualizar através da maquiagem e enxergar um rosto devastado por baixo do sorriso. Você acha que o mundo enlouqueceu, ao mesmo tempo que um sentimento de paz misturado com ansiedade o invade. Será que o mundo inteiro saiu dos eixos?
Algo está errado por aqui...

Com uma premissa simples de se entender, mas com uma trama complexa por detrás da superfície, We Happy Few explora o declínio de uma sociedade construída no Reino Unido depois da Segunda Guerra Mundial. Em uma versão alternativa dos fatos, os habitantes da cidade do game se drogam com uma substância alucinógena chamada “Joy” que os mantém em estado de felicidade constante, mas com terríveis efeitos colaterais. Os sintomas adversos vão desde de se tornarem facilmente manipuláveis até desprovidos de qualquer senso de moral. Tudo isso para manter o status quo de seu pequeno mundo e tentar apagar de suas memórias algo terrível que aconteceu no passado.
Acredite, você não irá querer irritar esses guardas.

Para quem quer entender a trama mais a fundo, o game faz um excelente trabalho durante o capítulo de introdução, em que você está na pele de um “jornalista” que tem como trabalho reescrever a história de seu país ao analisar jornais, censurando ou aprovando as notícias. Como essas escolhas ficam a cargo do jogador e o game ainda não possui um final concreto, fica a pergunta: as decisões tomadas no início irão afetar o destino do personagem? De qualquer forma, vale a pena olhar e ler as manchetes com atenção para tentar entender um pouco do mistério.
Vamos, sorria!

E, pelo início do game, parece que essa estratégia está funcionando muito bem para manter a sociedade sob controle e “feliz”. No entanto, as aparências enganam, e quando o protagonista decide não tomar a sua “joy” diária, ele literalmente acorda para a realidade, sendo rotulado como um “Downer” (“Cabisbaixo”, em tradução livre) e perseguido pelos outros cidadãos. É a partir desse choque social que o game assume sua característica principal que o coloca no universo do survival horror: você precisa tentar sobreviver.

O colapso social

Agora que você se tornou um “Downer”, ou seja, está marginalizado nessa sociedade maluca, você precisa pensar em como sobreviver, fugir e investigar se existe alguma forma de descobrir qual o problema do mundo. Com um sistema bem simples para manipular seu inventório, We Happy Few lhe dá ferramentas para tentar abrir seu caminho pela cidade e seus guardas à força ou apenas com o poder da persuasão. Ou seja, você precisa aprender a ter jogo de cintura e saber quando é a melhor hora de falar, lutar ou correr. Além disso, o personagem principal não é o único “Downer” que existe, pois toda uma região afastada da cidade está cheia deles. Passar algum tempo conversando com seus companheiros é uma boa maneira de descobrir seu próximo objetivo.
Felicidade à qualquer custo!

Além de tomar muito cuidado com o que você fala e por onde você anda, We Happy Few trabalha com um sistema de dias. Sendo assim, você precisa se manter bem-alimentado e hidratado. Por exemplo, se quiser dormir no seu esconderijo para passar o tempo e poder cumprir alguma tarefa mais rápido, é bom que tenha provisões suficientes pois, como no mundo real, você é um ser humano que come e bebe. Caso seu personagem fique muito debilitado, será difícil se locomover ou mesmo focar a visão em alguém ou alguma coisa. Você pode literalmente morrer de desidratação ou inanição. Esse aspecto é um dos do que consegue aproximar We Happy Few de uma experiência muito mais imersiva e real.
O bunker é seu refúgio de um mundo louco.

Apesar de o visual cheio de estilo e dos ótimos diálogos enriquecerem a ótima história do game, alguns bugs ainda existem na versão de Early Access que foi disponibilizada no Steam. Um dos problemas é alguns crashs que ocorrem durante o carregamento de certas partes do game ou mesmo questões de colisões de objetos, como em certas ocasiões que meu personagem atravessou uma árvore ou não conseguia pegar um item que estava bem a sua frente. Essas falhas deverão ser corrigidas na versão final, mas vale o alerta. Uma característica que espero que mantenham para o produto final é o modo “Permadeath”, em que, se você morrer em qualquer ponto da história, terá que começar desde o início. Um belo toque de realismo.

Uma ideia bem reaproveitada

We Happy Few tem tudo para ser um ótimo game. E isso não somente pelo visual único e pelas boas atuações, mas pelo elemento mais forte: a história. E isso porque o jogo reinventa uma das ideias mais exploradas pela ficção científica, a ilusão das distopias. Uma comparação direta que pude fazer assim que comecei minha jornada pela realidade alternativa do título foi me lembrar de Admirável Mundo Novo. Senti que We Happy Few é muito inspirado pela obra do genial Aldous Huxley. Para quem não conhece, a obra é um marco para a época que foi publicada, em 1932, ao imaginar uma sociedade praticamente perfeita em que todos são felizes e a humanidade vive dopada pela droga “Soma”, enquanto através de engenharia genética, castas são criadas para servir os vários postos de produção da sociedade.

Não querendo revelar muitos spoilers sobre a obra, mas existe uma analogia direta entre o personagem principal do game e um dos protagonistas de Admirável Mundo Novo, pois, em dado momento do livro, o jovem também se recusa a tomar o Soma e tenta alertar os outros sobre a loucura que o mundo se tornou. Além disso, outro game que bebeu dessa fonte foi Bioshock e veja o sucesso que houve e, assim como We Happy Few faz, utiliza a mecânica do FPS aliada ao gênero do survival horror para fortalecer a trama e envolver o jogador. Portanto, o principal título da Compulsion Games tem tudo para se tornar um destaque entre tantas novidades da indústria digital. Ele certamente tem que aparar algumas arestas antes de se considerar um produto final, mas certamente não precisaremos tomar nenhuma “Joy” para sorrir um pouco quando vivermos essa interessante história.

Revisão: Bruno Alves
Luís Antônio Costa é graudado em Ciência da Computação pela UFRGS. Apaixonado por games desde que ganhou seu primeiro Master System e conheceu Sonic, também é amante da ciência e um devorador de livros. Além do GameBlast, também faz alguns textos para o Medium e pode ser encontrado no Facebook e Twitter.

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