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Análise: Planar Conquest (PC) é a soma de complexidade e estratégia

Com problemas num início confuso, Planar Conquest (PC) consegue superar os defeitos e se consagrar em sua estratégia em turnos.

A onda dos jogos de estratégia vai e vem como várias outras, nessas idas e vindas muitos games são lançados e a maioria acaba sendo de uma qualidade baixa ou mediana, com poucos títulos se consagrando grandiosos e memoráveis. Nessa maré está Planar Conquest (PC), jogo que mistura RPG e estratégia baseada em turnos fruto do trabalho da Wastelands Interactive e da Lucid Dreamers Development.

Mas não se enganem, Planar Conquest pode não ser só mais um jogo de estratégia lançado no Steam. Na verdade, apresenta várias inovações e qualidades que o diferenciam bastante da “mesmice” que encontramos em alguns jogos do gênero, ainda que apresente alguns tropeços em seu início. Uma dessas inovações é o conceito 4X (eXplore, eXpand, eXploit, and eXterminate), que guia toda a jogatina e o seu desenvolvimento. Vamos então analisar o jogo através desse conceito.

Início conturbado e despreparado

No pano de fundo de Planar Conquest, você é um Sorcerer Lord que possui a capacidade de comandar um império através do domínio de uma cidade. Seu objetivo é subjugar os demais Lords e conquistar seus territórios, protegendo o mundo (ou os mundos) dos perigos e imprudências dos mortos-vivos.

Dessa forma, ao começar o jogo, você é bombardeado de opções. São sete planos diferentes, oito raças específicas, mais de 15 heróis que modificam as suas magias iniciais de Lord, a opção de escolher criar seu próprio perfil de Lord, fora as características específicas do mapa: tamanho, número de inimigos, quantidade de itens e recursos disponíveis, nível de dificuldade e outras coisas.
Muitas informações para prestar atenção e isso é só a tela de magias!

Toda essa gama de opções é incrível e deixa o jogo absurdamente rico em detalhes e possibilidades. Entretanto, todo este conteúdo acaba sendo “lançado na cara” do jogador sem muita explicação além de uma legenda básica de cada coisa. Mesmo com uma simples explicação, quando o jogador começa uma partida, tudo é muito confuso e perdido, pois o jogo carece de um tutorial para ensinar ao jogador suas regras e objetivos.

Com essa barreira criada no início da jogatina, a curva de aprendizagem se torna bem complicada, necessitando de algumas boas horas de força de vontade do jogador para que este possa entender como o jogo funciona e como ele pode conseguir se virar ali. Porém, quando essa barreira é finalmente superada, as coisas começam a ficar um pouco mais interessantes.

Mesmo no mapa aberto, a falta de um tutorial básico é sentida.

Exploração multiplanar

Como citado acima, o jogo disponibiliza sete planos de existência possíveis de jogar. Cada plano, com exceção do primeiro, é baseado em um elemento específico e possui facilidades e dificuldades próprios. São eles: Plano Primário, Fogo, Água, Terra, Ar, Paraíso e Sombras. Em cada partida criada é possível escolher quantos planos estarão presentes, assim como o tamanho de cada um e a organização de terreno (ilhas, continente único, etc).

Em jogo, é possível passar de um plano para outro dominando portais interplanares. Em cada plano pode-se encontrar nações distintas em diferentes níveis de desenvolvimento, além de lugares dominados por rebeldes, covis de monstros, acampamentos de bandidos, lares de dragões, cultistas e diversos outros fatores que tornam a exploração dos mapas ao mesmo tempo desafiante, instigante e interativa.

Como se não bastasse a grande variedade de desafios, existem estalagens que permitem a contratação do serviço de um herói errante ou de batalhões mercenários. Além disso, existem baús de tesouro espalhados por todos os planos, garantindo pontos extra de mana, ouro ou itens específicos.

Como se não bastasse tamanha complexidade, a movimentação no mapa é baseada em turnos, com cada tipo de unidade tendo vantagens e desvantagens de locomoção em cada tipo de terreno. E mais, mandar suas tropas caminharem (ou voarem) por florestas, pântanos, desertos, montanhas ou planícies influencia bastante na movimentação, fazendo o jogador ganhar ou perder turnos em cada viagem.


Evolução das unidades até o próprio mundo

O desenvolvimento em Planar Conquest pode ser bastante confuso no início (muito em função do problema da falta de tutorial citada acima). Entretanto, depois que se entende a mecânica de evolução e crescimento do império, o desenvolvimento da sua nação se torna bastante instigante, mas sempre com bastante complexidade e vários elementos a se prestar atenção.

Inicialmente, uma diferenciação de Planar Conquest para alguns outros jogos do gênero é que ele não trabalha com os recursos básicos clássicos, como coleta de comida, madeira, pedras e ouro. Aqui, o ouro é produzido por coleta de materiais distintos na área onde se estabelece uma cidade, a comida é igualmente influenciada por essa área próxima à cidade. Além desses dois, temos a produtividade em relação a quantidade de trabalhadores que cada cidade tem disponível para serviços variados, assim como a mana, que garante pontos de pesquisa de novas magias para o Lord e habilidades específicas para o seu império.

Todos esses artifícios influenciam uns aos outros, obrigando o jogador a pensar de forma estratégica como organizar seus arsenais de modo que seus exércitos não morram de fome ou não desertem por falta de ouro. Além disso, a produtividade influencia também a velocidade na qual sua cidade produz exércitos, construções e pesquisas.

Obstáculos desafiantes, independente do seu nível

Um problema muito comum em alguns jogos de desenvolvimento de impérios como esse é uma estagnação das forças do jogador num nível, talvez, muito mais alto do que dos inimigos, tornando esses jogos monótonos e fáceis demais. Isso, definitivamente, não acontece em Planar Conquest, pois muitos são os eventos que surgem para desafiar até os jogadores mais arduosos.

Existem lugares com desafios incríveis mesmo para os exércitos melhores desenvolvidos. Como se não bastasse a existência desses covis de nível épico, eventos globais influenciam o crescimento do seu império, o impulsionando em alguns momentos e freando-o em outros. Alguns desses eventos aleatórios colocam até raças invasoras no mapa, demônios colossais e dragões. Sim, dragões.

Vale ressaltar que tudo isso acontece ainda no primeiro plano onde seu império está se desenvolvendo. Quanto mais planos, mais exércitos, mais inimigos e mais lugares para prestar atenção, maior a complexidade e o desafio encontrados. Não é exagero imaginar que uma partida com todos os sete planos em seus maiores mapas poderia durar meses.

Além disso, suas escolhas influenciam na relevância do seu império para as outras raças. Um crescimento vertiginoso chama atenção, causando medo em alguns e fúria em outros. Verdadeiros arqueinimigos podem surgir desse desenvolvimento. Assim como um crescimento muito lento pode influenciar o surgimento de impérios maiores que tentem aglutinar você a eles. Tudo isso gira em torno da sua fama no mundo em que está.

Batalhas no melhor estilo de Dungeons & Dragons

O que seria de um jogo de estratégia em turnos e crescimento de um império sem guerras? E aqui, guerras são travadas também com complexidade. Porém, com uma dose muito boa de estratégia. Dotado de um sistema que lembra o clássico esquema do RPG de mesa Dungeons & Dragons, Planar Conquest torna a batalha em turnos verdadeiramente épica. Elementos como ordem dos ataques, movimentação de tropas e posicionamento especial influenciam, e muito, o resultado dos confrontos.

É importante falar que tudo isso é retratado em gráficos que não são de ponta, mas tornam a experiência muito agradável por suas cores e variedades. Somado ao visual, as trilhas sonoras de Planar Conquest dão o clima épico ideal às explorações e às batalhas, fazendo o imperador feiticeiro surgir dentro de qualquer jogador.

E por falar nos Sorcerers Lords, a influência deles nos embates dá uma nova dinâmica às batalhas. Ao longo da trajetória o jogador escolhe magias específicas para o seu grimório, dando ao seu perfil de imperador a capacidade de conceder bônus de ataque, resistência, esquiva, velocidade e tantos outros aos seus batalhões, assim como também permite que cure suas unidades ou ataque os inimigos com bolas de fogo, gelo, trovões, ácido, luz e tantos outros elementos, enfraquecendo os rivais para seus exércitos ou dando o golpe de misericórdia após o estrago feito pelas tropas.

Um jogo com potencial

Sem dúvidas, Planar Conquest para PC é uma evolução notável da sua versão mobile lançada anteriormente. A ambientação fantástica do jogo é rica em detalhes e variedades, dando a qualquer jogador de RPG a nostalgia de encontrar draconatos, tropas de anões, harpias e beholders ao longo da aventura, isso só para citar alguns dos diversos monstros encontrados durante o jogo.

Se o jogo falha em algo,talvez seja no seu potencial mal aproveitado. Quiçá com um modo multiplayer bem organizado, ou então com campanhas específicas para cada raça, possibilitando que o jogador conheça a fundo as nuâncias de cada nação, a experiência do jogo conseguisse se tornar mais incrível do que é somente com o sistema de partidas contra NPCs.

Todavia, mesmo com alguns problemas, estes se tornam detalhes quando o jogador os supera. A experiência de desbravar vários planos, dar a volta em mundos dominando e aglutinando exércitos ao seu império e fazendo, ao mesmo tempo, grandes alianças e inimigos é, sem dúvidas, muito valiosa. Uma qualidade notável, mas que tem potencial para ser ainda mais.

Prós


  • Grande quantidade de opções para customizar partidas;
  • Gráficos agradáveis e coloridos;
  • Ótima trilha sonora;
  • Magias de Lord dão dinâmica diferenciada às batalhas;
  • Após a barreira da aprendizagem, jogo se torna divertido e inteligente;
  • Sistema de batalhas baseado em D&D bem desenvolvido;
  • Realismo dos eventos nos planos;
  • Ambientação fantástica bem desenvolvida.

Contras


  • Falta de tutorial inicial cria uma barreira frustrante na curva de aprendizado;
  • Falta de multiplayer pode tornar o jogo menos dinâmico;
  • Falta de modo história dificulta conhecer toda a gama de opções do game;
  • Excesso de complexidade sem tutoriais pode tornar a experiência exaustiva.

Planar Conquest — PC — Nota: 8.0
Revisão: Ana Krishna Peixoto






Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

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