Crônica

A magia dos videogames: um mundo sem barreiras

Quando a paixão pelos games e o respeito ao seu legado predominam, todas as adversidades são superadas


A magia dos videogames é realmente surpreendente. Para um observador externo, esse fantástico universo, que está entrelaçado na vida de tantos jogadores, parece não passar de um eterno vício ou de uma modinha passageira que insiste em não desaparecer. É fácil atirar preconceitos em algo que esteja além do nosso próprio conhecimento limitado. Cansei de ouvir, por exemplo, frases associando os games à violência, à reclusão, à depressão e até à frustração. Mas, basta dar o primeiro passo para logo se encantar.

Pulsação

Jogar videogame vai muito além do simples ato de sentar-se em frente a uma TV, apertar uns botões e encarar uma aventura virtual. Jogar videogame envolve rituais, sociabilidade, aprendizado, interação, conhecimento, profissionalismo, diversão, paixão, entre tantas outras coisas que, juntas, dão forma a um universo complexo e cheio de vida. Neste contexto, eu já vivenciei e ouvi muita coisa nesses pouco mais de 20 anos de vida gamer. Inclusive, contar essas histórias é uma das minhas maiores paixões.

Como eu disse antes, os videogames são surpreendentes. São tantas histórias de superação, amizades, conquistas, que uma vida inteira não seria suficiente para provar aos céticos que existe amor onde eles enxergam pavor, e que os games, independentemente de qualquer diferença — seja ela de orientação sexual, ideológica, religiosa, de cor de pele ou física —, unem as pessoas e levam a alegria para todos. E digo isso com inteira convicção, pois já senti na pele diversas dessas situações: seja comigo jogando nas antigas locadoras de videogame; com amigos encontrando nos games uma forma de superar os problemas pessoais; ou com outros jogadores, como um garotinho que conheci na Paraíba, no último final de semana, em um evento de games — e que me deixou bastante emocionado.

Paixão 

Enquanto eu esperava para conduzir uma palestra sobre as antigas locadoras de videogame e a sua importância na formação pessoal de toda uma geração de gamers na Mostra de Videogames de Mamanguape, Paraíba, aproveitei para acompanhar os meus amigos que administram o Museu do Videogame Potiguar de Natal. O museu exibia uma bela exposição de consoles clássicos, mostrando para o público um pouco sobre a história dos jogos eletrônicos, além da importância das gerações passadas para o atual momento da indústria de games.
Museu do Videogame Potiguar. Foto: Bruna Cairo.
Ali mesmo, no meio de tantos videogames que marcaram tantas gerações, formava-se um ponto de encontro no qual todos pareciam se conhecer há anos, mas que na verdade apenas tinham vivenciado as mesmas aventuras em lugares diferentes. Cada um tinha uma história para contar envolvendo algum dos consoles, desde o gamer mais velho com saudades do Atari, a galera que cresceu jogando Super Nintendo e PlayStation, e até a garotada que nasceu na era HD. Mas, de tudo isso, há algo que foi ainda mais tocante.

Enquanto parte do pessoal do Museu saia para almoçar, eu resolvi ficar com a outra equipe que cuidaria da exposição. Era um momento de pouca movimentação, as pessoas ainda estavam chegando. Porém, no meio das andanças desenfreadas da multidão, avistei um garotinho, andando bem devagar, parecendo um pouco assustado, ao mesmo tempo que observava atentamente todo aquele vai e vem de pessoas. Os passos vagarosos logo se revelaram cautelosos, e a observação, na verdade, era precaução, pois o menino estava sendo conduzido por sua mãe, já que, por limitações, ele não conseguia enxergar.


Quando ele chegou bem perto de onde estávamos no Museu, pude perceber que aquele garotinho era especial. Mas não digo especial pela sua deficiência visual. Digo especial porque ele simplesmente não se importava muito com aquilo. Não naquele momento, pois ele estampava um sorriso enorme e contagiante, parecendo se divertir muito com todo aquele barulho de videogames, pessoas e música. E, pelo visto, ele era conhecido entre a galera. Pude ver diversas crianças e adultos o cumprimentando.

Compaixão

Ele parecia estar bem à vontade. Ali era como estar em sua casa, no seu mundo. Andando entre as mesas dos campeonatos, esbarrando nos garotos e girando a cabeça para escutar cada som, ele ouvia de sua mãe a descrição dos estandes, das mesas com consoles clássicos, da garotada maluca em rachas de Mario Kart 8, do pessoal curtindo Just Dance e até da gritaria dos jogadores de CS. Até que ele chegou no estande do Museu do Videogame Potiguar.

Quando ele parou, logo percebi a sua expressão de espanto. Ele não ouvia o som de nada, pois os consoles que estavam em exposição estavam desligados. Mas, logo em seguida, sua mãe esclareceu as coisas. Ela lhe disse que se tratava de uma mesa com muitos videogames antigos, e que ali estava a história daquilo que ele tanto amava. O garoto rapidamente dobrou o tamanho daquele sorriso e fez com que todos aqueles que estavam por perto parassem  para vê-lo.


Foi mágico. Rompendo a barreira de segurança entre os consoles e o público, o garoto foi conduzido pelo responsável pelo Museu naquele momento até o outro lado da mesa, onde ele estava explicando sobre a história dos videogames para tantos outros meninos que podiam ver décadas de diversão com os seus próprios olhos. Mas e o garotinho? Como ele enxergaria o cinza amarelado do Super Nintendo, que me encantou aos quatro anos de idade na locadora do Jorge? Como ele veria a beleza daquela caixa de madeira do Atari 2600, que tanto me chamou a atenção na casa de uma velho amigo? E todo o poder dentro daqueles minúsculos portáteis que tanto joguei com meus irmãos? A resposta até que era bem simples: ele sentiria.

Sentido

Não existe limitação, dificuldade ou deficiência que supere a boa vontade, a compaixão e o amor. E foi o amor pelos games que fez com que o jovem garoto conseguisse, mesmo com tantas adversidades, conhecer melhor a história daquilo que ele tanto gostava. E como coisas do destino, forças fizeram com que, justamente naquele instante, Alexandre estivesse à frente do Museu. Como numa daquelas coincidências inexplicáveis, Alexandre possui formação em teatro, sendo um exímio intérprete. E, justamente quando mais precisávamos de alguém capaz de transmitir todo aquele sentimento que emanava daqueles consoles clássicos, a veia artística de Alexandre tomou conta de todo o lugar.

Do lado de dentro do estande, o garoto parou, como se esperasse a tela de título aparecer para dar o start. Do lado dele, Alexandre se aproximou trazendo um console por vez e entregando-o para que ele sentisse a superfície do aparelho enquanto ouvia, detalhadamente e com muito entusiasmo, as descrições históricas daquele videogame em suas mãos. Alexandre falava de como o console surgiu, dos jogos mais famosos, dos gêneros que fizeram sucesso, e até do contexto histórico dos anos em que o videogame era objeto de desejo de toda uma geração. Ele relatava tudo isso como se estivesse declamando uma peça para um grande público.


A atuação e o cuidado com a descrição milimétrica do assunto faziam o garoto viajar no pensamento, sentindo com as mãos o objeto que tanto empunhamos em anos de jogatina. O garoto sorria e ouvia atentamente cada informação, cada detalhe descritivo do videogame que ele empunhava. Foram décadas de evolução tecnológica, centenas de clássicos que marcaram época e infinitas horas de diversão com aqueles videogames em tantos e tantos lugares do mundo. E parte dessa história estava ali, conservada através de uma iniciativa tão bela quanto a de um Museu, sendo transmitida sem barreiras para qualquer um que nutrisse um mínimo de admiração, paixão ou simples curiosidade.

Esperança 

É impossível descrever o que aquele garoto sentiu quando foi tão maravilhosamente acolhido ali, naquela tarde de sábado. Tarefa igualmente complicada é imaginar o que todas as pessoas que estavam ali observando a cena sentiram ou pensaram depois que o garoto saiu, sorrindo aos ventos e repassando tudo o que ouviu e sentiu com a mãe. Isso eu não sou capaz de descrever, mesmo depois de conversar com boa parte dos que estiveram lá comigo. Mas, uma coisa eu posso descrever com convicção: eu senti orgulho.

Senti orgulho de fazer parte de uma comunidade que, em sua maioria, respeita as diferenças. Senti orgulho de saber que barreira nenhuma é capaz de impedir a bondade das pessoas. Senti orgulho, principalmente, de saber que os videogames são capazes de unir pessoas, sem preconceitos, sem máscaras.


Há tantas pessoas que reclamam de pequenos problemas. Outros que julgam seus semelhantes por pensarem ou parecerem diferentes. Tanto ódio. E, em meio a tudo isso, numa cidadezinha da Paraíba durante um evento de games, há um garoto, sem enxergar desde que nasceu, sorrindo, feliz, por simplesmente ter a oportunidade de estar com outros que amam games como ele. E, o melhor de tudo, sendo respeitado por todos, como deveria ser sempre, em qualquer situação.

Com certeza, diversas situações negativas cercam o mundo dos games. É inevitável, pois os problemas do ser humano e da sociedade refletem nos games. Mas, saber que existe uma força tão grande nos jogos que é capaz de, pelo menos por alguns instantes, passar por cima de todos esses problemas, de todas as dificuldades e contornar tudo isso com tanto amor, me faz amar ainda mais tudo isso.

Amor

Não sou mais a mesma pessoa depois que voltei da Paraíba. Nem mais o mesmo jogador. Hoje, eu sou uma pessoa que defenderá ainda mais os jogos, que prezará ainda mais pela importância da preservação da história dos videogames e, como não poderia ser diferente, uma pessoa que valorizará ainda mais a minha própria condição de jogador capaz de usufruir de um jogo em todas os seus aspectos, sem limitações físicas ou intelectuais. Sou sim uma pessoa melhor depois de presenciar uma cena tão tocante. E é com as mesmas lágrimas de felicidade que deixei escapar durante o evento que eu gostaria que você, seus amigos, seus pais e até aqueles que julgam o nosso mundo dos jogos eletrônicos sem ao menos buscar compreender os motivos que fazem dele tão especial para nós, refletissem sobre como os videogames podem trazer um significado positivo para a vida das pessoas.
Foto que tirei, mesmo muito emocionado, de Alexandre e o garotinho apaixonado por games.
Viva os videogames e viva o amor que nos une nesse fantástico mundo de amizades, diversão e carinho. 
Revisão: Érika Honda

Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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