Crônica

Videogames e amizades: dividindo as fases da vida

Nos arcades, nas locadoras, nas jogatinas online. O videogame é o templo da diversão e da amizade.


Jogar videogame vai muito além do simples ato de jogar. Existem diversas variantes, rituais e significados que fazem dessa aparente brincadeira de criança algo mágico, indescritível e especial. Mas dentre todos os aspectos que cercam esse fantástico universo, são as amizades que tornam tudo ainda mais belo, prazeroso e verdadeiro.

O poder da brincadeira

A história nos revela que o homem sempre jogou. Em diferentes épocas, crianças e adultos se divertiam brincando com pedras, construindo brinquedos de madeira, criando joguinhos de raciocínio na areia, usando objetos de trabalho para desafiar o colega. Até os animais possuem seus próprios jogos e brincadeiras.

Jogar faz parte da vida. É durante essa atividade que nos desprendemos dos problemas, descansamos depois do trabalho, aprendemos coisas novas, interagimos com o outro e, envolto a tudo isso, fazemos amizades. Em cada época, independente do instrumento e da brincadeira, o jogo foi responsável por unir pessoas. Por gerar vínculos.


Nossos pais, por exemplo, fizeram grandes amigos jogando futebol na rua, empinando pipa no campo, desafiando o colega no xadrez e entrando numa roda de amarelinha ou corda com as meninas do bairro. Tais eram os instrumentos de uma época. No nosso caso, de uns quarenta anos para cá, uma nova forma de jogar surgiu, com a mesma essência e poder de unir as pessoas: o videogame.

O primeiro encontro

Na época em que os fliperamas eram sucesso nos bares Brasil afora, a molecada gastava o dinheiro do lanche ou a mesada do mês para tentar alcançar a maior pontuação do jogo, desafiar aquele valentão na luta virtual, observar o tiozão bêbado tentando uma manobra mais arriscada ou simplesmente parando para tomar um sorvete.
Em cada época, independente do instrumento e da brincadeira, o jogo foi responsável por unir pessoas. Por gerar vínculos.
Infelizmente, não alcancei a febre dos fliperamas na minha cidade. Por aqui, no interior do RN, as máquinas de jogos praticamente não fizeram parte do cenário gamer. Contudo, em viagens durante as férias, joguei bastante no PlayCenter, em Natal. Lá, ainda garoto, observava os feras em Street Fighter destruírem um adversário atrás do outro. Vez ou outra, quando batia a coragem, tentava desafiar a galera. Mas sem treino, só perdia minhas fichas. Depois de tanto perder, ficou o aprendizado e as boas lembranças das viagens e amigos que fiz tentando não perder de perfect na cidade grande. Um desses amigos, aliás, é o meu padrinho de casamento.

Inesperadamente, os fliperamas se tornavam o centro da vida jovem. As conversas giravam em torno dos jogos. Todos queriam descobrir aquele golpe especial, aquele segredo maroto no “briga de rua” do momento, a forma pela qual vencer determinado chefão. Era comum sair da escola  —  ou durante, caso você gostasse de apanhar quando chegasse em casa  —  e parar antes no fliperama, só para ver o que a galera estava jogando. Desses encontros, combates e conversas, com certeza surgiram boas histórias e grandes amizades.

O segundo lar

Longe dos bares, aos poucos a diversão se mudava para as locadoras de videogame. Nelas, crianças e jovens descobriam o fantástico universo dos jogos eletrônicos, seja alugando o título para jogar em casa, ou pagando para fazê-lo lá mesmo, em um dos vários consoles disponíveis.

Muito mais do que uma casa de jogos, a locadora se tornou um lar para a juventude. Como praticamente não existiam espaços físicos para que jovens e crianças se reunissem enquanto não estivessem em casa ou na escola, era na locadora que vizinhos, colegas, amigos e visitantes se encontravam.
Foto da Locadora do Tadeu, em São José do Seridó/RN, onde passei boa parte da minha infância.
A locadora também era espaço de união. Comigo, por exemplo, que cresci numa casa com mais dois irmãos, onde cada um possuía a própria personalidade, gostos e vontades, era no momento de ir até a locadora que colocávamos as nossas diferenças de lado em prol do bem maior: a diversão. Na hora das brincadeiras, cada um preferia algo. A confusão era grande. Mas na hora que nossa mãe entregava a mesada, as diferenças acabavam. Era o momento de unir as finanças para dividir o aluguel daquele título massa de Super Nintendo na sexta-feira ou de experimentar os jogos poligonais no PlayStation da locadora.

Em casa

A locadora era o melhor lugar para estar quando um jovem chegava numa cidade nova nas férias. Lá, geralmente a turma chamava o carinha para jogar e logo trocavam ideias sobre os jogos favoritos, últimos lançamentos. Foi numa dessas ocasiões que conheci um dos meus melhores amigos. O desconfiado visitante vindo da capital, ainda sem amigos, ficava me observando jogar Mega Man. Encantado com o jogo, ele me perguntava tudo sobre o Blue Bomber. Até que um dia resolvi convidá-lo para jogar. De lá para cá, já são quase vinte anos dividindo jogos e conquistas.
Através das locadoras, pessoas de diferentes crenças, condições econômicas e lugares se conheciam, trocavam ideias, aprendiam sobre a vida e descobriam paixões em comum. Jogando ou vendo jogar, os jogos as uniam.
Até quando a grana era curta  —  quase sempre, no meu caso  — , eu não deixava de frequentar a locadora. Nesses momentos de crise, só restava esperar até alguém convidar para uma partida. Quase sempre um amigo, ou até mesmo um desconhecido, me convidava para zerar algum jogo juntos ou disputar um “quem perder paga”. Num desses convites, aceitei o desafio de um garoto mais velho para tentar vencê-lo em Marvel x Capcom. Bom, perdi quase todas as partidas. Porém, ganhei um amigo para vida toda. Hoje, dividimos grandes momentos.
Na locadora, nem sempre jogar era o mais importante.
A garotada trocava dicas, emprestava revistas, ensinava macetes, rachava o tempo e até torcia quando alguém estava prestes a conseguir vencer um jogo mais difícil. Essas atitudes, quando somadas, resultavam em momentos de aproximação e união difíceis de serem explicadas com palavras. Era pura amizade.

Íntimos e inseparáveis

A minha relação com os jogos, por exemplo, extrapolava a tela da TV na época das locadoras. Além de ter conhecido meus melhores amigos lá, aprendi muito sobre trabalho e responsabilidade. Embora aquele prédio com TVs e consoles fosse um comércio, ele funcionava quase como uma escola. O dono, muito atencioso, ensinava bons modos para a galera que esperava a vez de jogar, contava histórias com lindas lições de moral implícitas e dava oportunidades para o pessoal trabalhar na própria locadora. Eu inclusive trabalhei várias vezes cuidando do lugar. Hoje, aquele senhorzinho contador de histórias é um dos meus amigos confidentes que acompanha todos os meus textos e vibra com cada nova conquista.
Foto do meu livro “Videogame Locadora” (2014), onde falo um pouco mais sobre o uso das locadoras como espaço de sociabilidade da juventude. Foto: Jaime Ninice.
Nem mesmo com as novas e impactantes mudanças na forma de jogar, essa relação entre games e amizades se perde. Com o advento dos jogos online, as fronteiras da amizade foram expandidas. Nunca foi tão fácil conhecer novas pessoas com valores em comum, histórias semelhantes e paixões iguais. A tecnologia, nesse sentido, tem utilizado os videogames como ferramenta de união.
Foto do meu segundo livro. chamado “Os videogames e eu” (2015), onde conto algumas das minhas melhores histórias no mundo dos games. Foto: Felipe Nanni.
Gastei centenas de horas da minha adolescência jogando videogame na casa de amigos. Mas os momentos na casa de um deles eram especiais. Praticamente todos os dias nos reuníamos para jogar com esse amigo  —  na verdade, eram todos juntos contra ele. Crescemos juntos. Aprendendo um com o outro. Só que as obrigações da vida adulta colocaram uma boa distância física entre nós. Com os jogos online, porém, essa distância não existe mais. Podemos jogar sempre que a saudade bater. Inclusive, as velhas rivalidades só aumentam. Talvez não substitua o encontro cara a cara, isso é fato. Mas ajuda muito quando sentimos aquele aperto no coração.

Elos inquebráveis

Sei que é difícil convencer alguém que nunca segurou um joystick antes que é possível se divertir com alguém do outro lado do mundo. Ou de que aquele joguinho que você gasta várias horas do dia é muito mais do que se pode ver pela TV. Isso talvez seja impossível, Mas nós sabemos o que torna os jogos algo tão especial.
Jogar videogame vai muito além do simples ato de sentar em frente a TV e controlar um personagem em um mundo virtual. Jogar videogame envolve o sentimento de dividir histórias, momentos e memórias com pessoas que entram para as nossas histórias reais.
Casais já se formaram após partidas de MOBAs, amigos se reencontraram depois de separados pela distância, filhos se aproximaram mais dos pais ao desbravarem mundos virtuais juntos, irmãos cresceram unidos frequentando a mesma locadora. Tudo isso faz parte da arte de jogar. Está escondido entre os pixels. Não é visível, mas nós sentimos. Não é?
Ítalo Chianca escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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